Uma lição de sabedoria

“Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio” disse o Bobo ao velho – e bobalhão – Rei Lear. Na peça, Shakespeare nos ensina que a vaidade excessiva torna o homem velho bobo e patético. 

Lembrei-me desta preciosa lição shakespereana em razão de dois encontros que tive na minha visita ao mercado, um dos poucos prazeres dessa época de isolamento.

O primeiro encontro foi com um velho conhecido, cujo nome não vou dizer, mas que sempre foi excessivamente vaidoso e arrogante. Mesmo na maturidade, não aprendeu com os chacoalhões da vida; não melhorou. Soberbo e afetado, é daqueles que está sempre com a razão. Eu o avistei de longe, falando alto e pavoneando, e até fingi que não o vi.

Na sequência de compras na feira eu me encontrei com Vanda, uma velha conhecida, e que trabalha numa das bancas. Gosto de conversar com ela. Pessoa simples, mas com essência. O seu cãozinho faleceu e ela estava profundamente triste. Sem saber, comentou verdadeiras lições filosóficas. Disse que a vida é sofrimento e desse sofrimento é que surge a alegria. Segundo ela, tudo na vida é alternado entre altos e baixos, ou seja os opostos: noite e dia, vida e morte, dor e felicidade. Com os olhos marejados pela perda do cãozinho, ela concluiu que tudo na vida passa. 

Fui para casa pensando nesses dois perfis e nos ensinamentos shakespereanos. A maturidade e os rigores da vida trazem, ou devem trazer, muitos aprendizados. 

É provável que o vaidoso exagerado será aquele velho chato, daqueles que ninguém vai querer por perto. Está envelhecendo e ainda se comporta como se fosse um jovem imaturo. Ignora as lições trazidas pelo tempo. Provavelmente se tornará velho, mas talvez não encontrará a sabedoria da vida. 

Vanda, ao contrário, vai se tornando mais interessante na medida que envelhece. Vai melhorando. A sua humildade e o seu modo de ver as coisas a faz enxergar vida de uma forma mais leve. Ela sabe que tudo na vida é breve e passageiro. 

Pessoas humildes como a Vanda envelhecem bem. Sem o peso da arrogância, ou da vaidade desnecessária, tornam-se mais sábias.

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