Uma conversa inusitada

Estava no quintal e sem querer escutei uma conversa entre dois pintores da casa do meu vizinho. Eles falavam alto e o diálogo foi mais ou menos assim:

– “Não era amor nada; era picaretagem! Ela só estava interessada no dinheiro dele. Ele dizia para as suas filhas que era amor, mas elas sempre disseram que não era nada. Afinal, ele era 40 anos mais velho e estava bem “acabadinho” para ela, que era vistosa e bonita… E foi aí que surgiu o problema…” 

– “O que houve? Ela arrumou outro?”

– “Nada. Ela fingiu amor durante todo o tempo, ele ficou iludido, e ela tirou quase todo o dinheiro que ele tinha aplicado. Quando as filhas perceberam, ficaram loucas da vida, foram lá e a fizeram ir embora, a tapas. Foi o maior barraco; ela foi embora com a roupa do corpo.” 

Ao ouvir esse diálogo fiquei imaginando a confusão… Na vida forense vemos muitas histórias desse tipo. É encrenca na certa. 

Depois fiquei pensando cá com os meus botões: assanhadinho ele, não? 

E ela, por sua vez, “amou” como Marcela, a primeira paixão de Brás Cubas, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Marcela era, digamos, uma “garota de programa”; tinha o corpo esbelto e ondulante, e o seu amor era proporcional aos preços dos presentes que recebia. 

O próprio Brás Cubas resumiu esse amor em uma frase, no início do capítulo 17: “Marcela amou-me durante 11 meses e 15 contos de réis; nada menos”.

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