Ser ou não ser?

Sabe aquele dia em que sair da cama é difícil? Ou aquele em que, após acordar, dá vontade de dormir de novo? Isso ocorre muitas vezes. Contudo, o itinerário de viver é necessário e obrigatório, apesar das complexidades e adversidades do mundo.

Vivemos em uma era que a felicidade está na ordem do dia e parece que ser feliz é uma verdadeira obrigação. Precisamos acordar feliz; sentimos que não há outro caminho, e nos esquecemos que a felicidade convive com a tristeza, a alegria com a dor, a esperança com a desesperança. A nossa condição humana é feita de contrastes; a vida é assim, com as suas ambiguidades e incertezas. Temos que conviver com as dualidades e os paradoxos da existência.

Gosto dos solilóquios de Hamlet, o príncipe melancólico da Dinamarca. Como todos sabem, Hamlet é a obra-prima de Shakespeare, e representa não só o príncipe, mas o humano, a pessoa que tem o mundo a sua volta. Hamlet e os sete seus solilóquios nos iluminam, seguram a vela que clareia a noite escura.

Muito se poderia falar da tragédia de Hamlet. A peça como um todo mostra a tentativa do Príncipe Hamlet em vingar a morte de seu pai, o Rei Hamlet da Dinamarca.  Muitas questões da alma humana são trazidas à tona na história, como a apatia, a tristeza, os dilemas, as angústias pessoais. Vale a pena a releitura da obra, ou a leitura, para quem ainda não a fez.

Destacamos o Ato III, cena I, que nos remete ao “sim ou não” da vida, ao “ser ou não ser”. Este ato nos convida a escalarmos ou não as profundezas da nossa consciência. Neste ato, na cena I, Hamlet dá voz aos seus próprios dilemas e enfoca o ser ou não ser, o viver ou o morrer. É melhor “preferir suportar males que já temos, a fugirmos para outros que desconhecemos?” 

Eis o belíssimo poema do trecho do ato III, Cena I, (tradução de Millôr Fernandes):

Ser ou não ser – eis a questão
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra um mar de angústias –
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sonho da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Não obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mundo, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis.
Podendo ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –
O pais não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outro que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento,
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

O “ser” se refere à vida e aos nossos atos, enquanto o “não ser” relaciona-se com a apatia e a morte. E aí, o que fazer? Ficar ou lutar, buscar algo melhor, procurar alguma coisa que condiz mais com os nossos sonhos? Suportar uma situação ruim ou lutar pela transformação? 

Esse pequeno e profundo trecho filosófico belamente nos remete ao yin e o yang que abrangem as polaridades encontradas em toda vida: luz e sombra, verdadeiro e falso, corajoso e covarde, belo e o feio, a harmonia e o conflito, movimento e repouso. Evidencia as nossas angústias, mas alegremente nos faz pensar sobre as nossas escolhas. Nós nos reinventamos todos os dias, sejam eles tristes ou felizes. E sempre seremos criadores do nosso destino e dos rumos da nossa vida. 

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