Remédios populistas

Na mitologia grega Panaceia era deusa da cura e conseguia ter remédio para todas as enfermidades. Por isso usamos o termo para designar a cura para todos os males. 

A panaceia é o remédio preferido dos populistas. Bolsonaro, também chamado Messias, se sente um verdadeiro criador de seitas medicinais que ferem a saúde pública. Já falou da fosfoetanolamina, a pílula do câncer, e agora inventou o milagre para o coronavírus: a hidroxicloroquina. Populistas atentam contra o bom senso e contra a saúde pública.

Os brasileiros estariam mais confortáveis se tivessem na presidência uma liderança minimamente preparada e inteligente. Nem precisaria ser um estadista, mas alguém com pelo menos um pouco de bom senso. Infelizmente não temos. Isso torna o enfrentamento à pandemia terrivelmente mais penoso, instável e arriscado.

Desde o início Bolsonaro despreza o distanciamento social recomendado pela OMS, pela maioria dos cientistas, pelo seu ministério da Saúde e pelos chefes de Estado de todo o mundo. Chamou a pandemia de “gripezinha”, “resfriadinho”.

Também não é novidade que os pronunciamentos de Bolsonaro desinformam e jogam fora os esforços nacionais de levar a quarentena mais a sério, única medida capaz de evitar um verdadeiro genocídio na população brasileira. Ele boicota, ele sai para a rua, ele desafia até o bom senso.

Bolsonaro tem apostado no milagroso remédio da cloroquina para o tratamento do covid-19. Em pronunciamento citou o cardiologista Roberto Kalil que tomou cloroquina em seu tratamento contra a doença. 

Quem leu Memórias póstumas de Brás Cubas, do genial Machado de Assis, conhece o seu Emplasto Brás Cubas (capítulo 2), um medicamento ilusório para enganar as pessoas e “aliviar a nossa melancólica humanidade”.

Não dá para apostar que a cloroquina será a solução para a pandemia. Estudos científicos estão sendo realizados em várias partes do mundo e não há comprovação científica de sua eficácia. O CDC americano, órgão responsável pelo controle da epidemia, recuou nas recomendações no uso da droga. 

Ninguém é contra remédios que possam salvar vidas. Se os médicos recomendam a cloroquina (e outros), e se os pacientes consentem, eles devem ser usados, ainda que de forma experimental.

Mas sem comprovação científica não é possível a recomendação em larga escala. A ciência não vive de crenças e ilusões. Precisa de pesquisas sérias, trabalho duro, experimentações e evidências que demonstrem a eficácia do tratamento, antes de recomendá-lo para todos. Isto leva tempo. 

O que não dá é para alimentar a falsa esperança de que foi encontrada a cura para uma pandemia que ainda está longe do pico, e trazer para a população brasileira o risco de uma falsa crença de normalidade, como infelizmente já está começando a acontecer. Isso coloca em gravíssimo risco a saúde pública. A estupidez agora pode ser ainda mais letal.

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