Cristo jamais apoiaria a pose de arminha

Para além do Cristo da fé e da pessoa humilde que convivia com ladrões, doentes e prostitutas, o que mais encanta em Jesus é que ele foi um admirável mestre e pacificador.

Jesus fazia as suas pregações através de longas caminhadas e ensinava os seus discípulos passeando nos campos. Ele adotava o método peripatético, utilizado por Aristóteles, que é ensinar caminhando. 

Nos seus ensinamentos ele encantava as pessoas com as suas parábolas e histórias de paz, tolerância e harmonia na vida social.

Grande líder da paz, ele disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”. 

Jesus jamais apoiaria a defesa das armas e nem faria pose de arminha. Um horror!


Creme para evitar o envelhecimento

Estava num shopping, um sujeito me abordou e me ofereceu um creme milagroso para tirar as rugas e as bolsas embaixo dos olhos.

Respondi a ele que essas coisas são normais com a idade e que não me preocupo muito com o envelhecimento.

Ele insistiu na magia do seu creme. Disse que estava bombando no mercado e custava apenas 7 dólares; segundo ele, depois de passar o creme eu ia ficar mais jovem.

Agradeci, mas eu lhe disse que busco envelhecer sem remorsos ou fazer mágicas para rejuvenescimento, mantendo vida intensa e ativa…

Depois eu pensei, e o fato é que não aceitamos bem o envelhecimento; muitos vão contra ele numa luta sem fim.

Na literatura, o jovem Dorian Gray, na obra de Oscar Wilde, com medo da velhice e da morte, chegou a vender a alma para o diabo para ter a juventude de volta e permanecer sempre jovem. 

Não deu certo. Ele depositou na pintura escondida a fuga para que a sua aparência exterior fosse mantida jovem e bonita, mas o seu retrato passou a ter transformações horríveis e ele o escondeu no sótão.

Na realidade envelhecer não é simples e não adianta esconder ou disfarçar muito, pois o tempo chega de qualquer jeito e é inexorável.

Enquanto isso vamos seguindo firmes e fortes, sem ter tempo de pensar na morte.

Perdemos Clovis Rossi


Quando o assunto é morte perdemos um pouco o brilho no olhar. 

Muito triste a morte de Clóvis Rossi, 76 anos, um dos maiores jornalistas do Brasil e decano da Folha de S. Paulo.

Há mais de 30 anos sou assinante da Folha e gostava das suas reportagens e análises inteligentes, com doses de ironia, mas com bom senso e equilíbrio. 

Era um gigante do jornalismo, sobretudo nas grandes questões internacionais; um profissional ético e preocupado com um Brasil melhor. Sempre foi uma pedra no sapato de políticos populistas. 

Morreu num momento em que o Brasil precisava de jornalistas como ele.

Que descanse em paz e continue a inspirar as novas gerações para o bom jornalismo.

Dia de Santo Antonio

Uma amiga me lembrou que hoje é dia de Santo Antonio, segundo ela, “um arquétipo do homem de coragem e fé”.

Ando pouco católico, mas sempre gostei de Santo Antonio, por conta do meu nome. E também porque ele é reconhecido como um santo culto, virtuoso em generosidade, fraternidade, e é protetor de todos aqueles que o procuram.

Por conta de tantas virtudes, nunca entendi muito as razões dele ser tão maltratado.

Pela fama de casamenteiro, lá na roça, desde sempre, acompanhei o seu martírio. Tem os pedidos simples, com velas e orações; mas tem as simpatias que torturam o santo, como enterrá-lo de cabeça para baixo atrás da bananeira; retirar o Menino Jesus da imagem e prometer ao pobre santo que somente o devolverá quando a pessoa encontrar um par, entre tantas outras. 

Soube até de um caso em que uma imagem do santo foi subtraída de uma capela e a pessoa deixou uma calcinha em seu lugar, na esperança de arrumar a alma gêmea.

Não sei, mas penso que ele atende melhor as simpatias ou orações menos radicais, como aquela em que a pessoa pega duas agulhas iguais, coloca num prato fundo com água e açúcar. Se no dia segunte as agulhas estiverem juntas, pode se preparar que o casamento é certo.

Sei lá… De qualquer forma, nesta data o meu pedido é que Santo Antonio proteja todo mundo, principalmente as crianças; que ajude aqueles que ainda não têm, a ter um grande amor; que proteja os casais, os namorados e todos os amantes deste mundão. Viva Santo Antonio!

Guerra de ideologias

Pensei em falar aqui no face sobre os episódios envolvendo a Lava Jato, mas controlei o meu ímpeto. 

Queria apenas dar uma opinião, aquela que penso ser mais razoável, pois quanto mais a idade passa, mais quero ser aristotélico e sair dos extremos.

Faz um bom tempo que faço este exercício e tento fugir das polarizações. Para tanto eu controlo os meus impulsos, procuro ouvir com calma o outro lado, vejo se não estou exagerando nas minhas convicções, e assim busco tomar a ponderação e o justo meio como norte para a minha vida. 

Parece simples, não é? 

O problema é que no Brasil até o meio termo está gerando confusões. Não existem posições razoáveis, não há equilíbrios: ou você está de um lado, ou de outro; se não está de lado nenhum também apanha. 

Direita contra esquerda, ideologias contra ideologias. O ambiente é antidemocrático e de incessante patrulhamento, excluindo qualquer diálogo racional.

No avesso dessa guerra em estado bruto, estão os milhões de brasileiros que sonham com um Brasil mais unido, com um olhar comum de sociedade.

E assim, enquanto retroalimentamos a guerra e as divisões, o Brasil continua, como diria Millor, um país “condenado à esperança”.

Correr riscos e aprender a viver

Na bela crônica “Aprendendo a Viver”, do livro com o mesmo nome, Clarice Lispector traz uma mensagem clara: “não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe”.

Clarice nos convida a fazer um exame de consciência, lembrando-nos de quantos “agoras” que foram perdidos e que não voltarão mais. Segundo ela, “há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito… há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.”

Na sua reflexão ela ressalta que muitos pensam, economizam e poupam pensando somente no futuro. Está certo pensar um pouco no futuro, mas é necessário melhorar o presente, pelo fato de estarmos vivos. 

A pergunta que se faz é: por que não mudamos quando é preciso mudar? 

A escritora lembra que o medo é a causa da ruína dos nossos momentos presentes: “qual é o agora que queremos fazer e não temos coragem?”

Ela cita o filósofo Thoreau e comenta: “Creio que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força”. 

Ao final Clarice conclui que para mudar é preciso arriscar mais e fazer o que queremos fazer: “A salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena.”

A Terra é plana ou redonda?

A Terra é plana ou redonda? Depende. Numa visão reducionista, ela é plana; basta olhar o chão que pisamos. Vista do espaço, numa visão mais ampla, ela é redonda. Juntando-se as duas visões ela é plana e redonda.

De tanto que se fala em Terra plana, dei bola para a história e fui ver no Twitter. É incrível como essa discussão é levada a sério pelo tal “guru” do governo e seus seguidores. Basta ver a sua página oficial e os últimos twittes para comprovar. 

Seis séculos antes de Cristo o geógrafo Anaximandro já dizia que a Terra não era sustentada em nada, pois senão precisaríamos explicar onde esta coisa se sustentava, cada suporte exigiria outro suporte, e assim indefinidamente. Isto muito antes de Copérnico desenvolver a teoria heliocêntrica do Sistema Solar, no século XVI.

O problema não é o “guru” acreditar, ou desconfiar que a Terra seja plana, pois ele pode acreditar no que quiser. O problema é tanta gente acreditar nele, sobretudo graduados de um governo que comanda quase 210 milhões de pessoas. 

Muitos dizem que este tipo de discussão é apenas um atalho para rejeitar a ciência e sustentar a ideia de antiglobalismo. Seja lá o que for! É simplesmente inacreditável que tudo isto esteja ocorrendo. 

O barão de Itararé dizia que “este mundo é redondo, mas está ficando cada vez mais chato”. E não há dúvidas que podemos acrescentar: mais estranho, mais enlouquecido, mais ignorante!

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Foto da Terra feita pela estação espacial da NASA.

Como é bom vivenciar coisas boas!

O mundo está mais para prosa do que poesia, mas o gostoso é que a vida é feita de bons momentos, de sabores e coisas simples que vamos fazendo no dia-a-dia da nossa jornada; alguns vão ficando docemente na nossa memória. Fiz uma pequena relação:

Saborear com calma a comida especial da mamãe ou da vovó; ouvir o barulho da chuva; esquecer um pouco da política; ler um bom livro; ouvir as canções que mais gostamos, deitados numa rede; sentir o cheiro da terra molhada; dar e receber um abraço afetuoso numa pessoa querida; fechar os olhos e lembrar do primeiro beijo da pessoa amada; comer pão francês quentinho no café da manhã; ser atendido por uma pessoa muito educada; namorar gostoso num lugar especial e romântico, eternizando momentos felizes; receber conselhos de uma pessoa mais idosa e sábia; acordar mais tarde num sábado de outono e ver que o céu está azul; jogar fora os sentimentos ruins ou inúteis e ficar com os bons; achar uma nota de 100 reais no bolso de um casaco que há tempos você não usava; observar as nuvens esparsas flutuando no céu, numa tarde de domingo; saborear uma colher de doce de leite cremoso; dizer “eu te amo” de forma sincera; falar sozinho e, se for preciso, xingar, falando sozinho; assistir a um bom clássico de futebol; viajar e depois, cansado, voltar para casa e relaxar; ver uma borboleta colorida voando suavemente próximo de nós; apreciar um jardim imensamente florido; ver uma fotografia antiga; estar “vivinho da silva” e dar “gracias à la vida” simplesmente por isso. E é claro, tem muito mais… Viver é bom!

Integração das ciências humanas e tecnológicas

Se alguém ainda duvida da importância das ciências humanas para a tecnologia, deveria ler o livro “Os Inovadores – Uma Biografia da Revolução Digital”, de Walter Isaacson, que conta a incrível história das invenções da era digital.

O livro aborda os trabalhos em grupo e os avanços coletivos que levaram invenções do último século, desde os primeiros computadores até todas as transformações da internet.

Enquanto no Brasil as ciências humanas são desprezadas e muitos discutem se a Terra é plana, o livro mostra que as invenções revolucionárias da era digital somente foram possíveis com parcerias e total integração das ciências humanas e tecnológicas, que resultaram em muita criatividade coletiva.

Conforme as palavras do próprio autor Isaacson, as grandes invenções envolveram “valores, intenções, julgamentos estéticos, emoções, consciência de si e um senso moral. São coisas que as artes e as ciências humanas nos ensinam, e essa é a razão de essas áreas serem tão valiosas como parte da educação como a ciência, a tecnologia, a engenharia e a matemática”.

O livro conclui com a necessidade de respeitar as humanidades e as ciências tecnológicas, entender como elas se cruzam, pois na fusão delas resulta o florescimento das invenções e da criatividade. 

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E.T. O genial Steve Job (foto), nos lançamentos dos seus últimos produtos, também defendia a interseção de humanidades e ciências tecnológicas, conforme ele mostrava através de uma placa de rua.

Pensar sempre no valor da vida

Era madrugada quando tudo começou a chacoalhar. Demorou uns 40 segundos e o mundo parece que girou de um lado para o outro. No 8º andar do prédio onde moramos tudo pareceu mais intenso; subitamente acordei pensando na vida. 

O terremoto foi forte, de magnitude 6. 6., mas sem vítimas ou danos. Foi distante, no Oceano Pacífico, mas o tremor foi sentido em toda a região, atingindo mais El Salvador.

Curioso é que aqui em Honduras as pessoas nem discutem sobre tremor de terra, mas sim sobre a chegada de 18 furacões previstos para o próximo semestre, vindos do Pacífico e do Caribe; eles são normais na região e vêm fracos, mas já houve furacões destruidores por aqui.

Amigos, não sei porque estou falando deste assunto sem importância, mas quando ocorre um forte fenômeno da natureza, fico a pensar na fragilidade da vida, que pode acabar, mesmo quando estamos num lugar seguro e com os pés no chão.

Ao pensar na arriscada aventura da nossa existência aprendemos a amar, ainda mais, a bela luz da vida; a refletir de que adianta o orgulho, a arrogância, se tudo é um sopro de vida e se esvai no tempo que passa.

Foi bom! Mesmo quando estamos distraídos da morte, faz bem pensar no valor da vida.