Um giro por El Salvador

Este fim de semana atravessamos o sul de Honduras e viemos ao país vizinho, El Salvador. De carro, mergulhamos nas paisagens cheias de belas montanhas, entremeadas por alguns vulcões, cenário típico da América Central. No caminho, a beleza natural contrasta com a pobreza construída pelos humanos. 

Além da capital San Salvador, fomos visitar um roteiro turístico daqui chamado Rota das Flores, onde visitamos uma ruína maia e vilarejos.

Cada local daria uma história, mas destaco Conceição de Ataco. A cidade é colorida com murais feitos por pintores locais. Achamos até uma padaria que disse vender “pão francês”, mas foi uma ilusão de ótica. 

Uma pérola de cidadezinha do interior, tranquila e colorida, como a nossa querida São Luiz do Paraitinga. 

E o mais gostoso nesses locais é encontrar pessoas que vivem com muito pouco, mas são cheias de risadas fáceis e nos agradecem por tudo!

Pão francês


Sei que o assunto mais importante do momento é sobre laranjas e laranjais, mas vou falar sobre pão francês. 

É que ando com muita vontade de comer pão francês! Acho que todo mundo, de repente, tem uma vontade assim. Há momentos em que boas sensações da vida se voltam para o paladar.

Não sei se é porque eu trabalhei muito tempo em padaria, mas sou fã de um bom pão francês. Gosto de pão francês de todos os jeitos: quente com manteiga, na chapa com queijo, molhado no copo de café e de muitas outras maneiras. 

Aqui em Tegucigalpa não há pão francês, pois esse é um pão brasileiro. E olhem que procurei muito! 

Por esses dias conversei com um médico hondurenho que morou no Brasil e conhece bem o pão francês; ele me deu uma dica para tentar achar pão francês por aqui. Disse para eu procurar numa avenida tal, numa padaria assim assado. 

Lá fui eu imaginando comprar um pão francês crocante, macio, delicioso. Fiquei imaginando o sabor do pão na minha boca e quase tive uma miragem!

Cheguei na tal padaria, havia um pão interessante, quase parecido com o pão francês, porém… não era pão francês; era bem diferente, mas estava bom.

Não sou de dar importância para grandes comidas, mas nessas horas que temos falta é que percebemos que, entre as delícias da vida, estão as coisas muito simples e que nos permitem um jeito mais gostoso de viver!

As feridas abertas do nosso passado escravocrata

Causou intensa polêmica a festa da diretora da Vogue, Donata Meirelles, cercada de mulheres negras, ocorrida no Palácio da Aclamação, Salvador. De forma coerente ela lamentou a repercussão negativa, pediu desculpas, mas mesmo assim foi muito criticada.

Não dá para acreditar que a festa tivesse alguma intenção racista, mas o episódio mostrou a delicadeza que é o tema racial e comprova que as feridas do nosso passado escravocrata estão abertas por conta de uma história de dores, de racismo e de exclusão social dos negros.

Se alguém duvida que há exclusão social dos negros e pardos no Brasil, apesar deles representarem 53,6% da nossa população (IBGE, 2014), basta dar uma espiada nas empresas, universidades, na política e nos serviços públicos, para ver quantos negros existem nestes espaços. Vai entender bem o que isto significa!

Nesta reflexão vale a pena mencionar um livro que li recentemente “Raízes do conservadorismo brasileiro”, de Juremir Machado da Silva, no qual ele faz uma profunda análise documental do processo que envolveu a abolição da escravatura no Brasil e reflete sobre as origens do conservadorismo brasileiro.

O livro mostra o papel dos abolicionistas que militaram contra a escravidão, como Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, e analisa os documentos daquele período. É estarrecedor ver os discursos da elite e dos políticos conservadores da época, como o deputado e romancista José de Alencar, que votou contra a Lei do Ventre Livre e era escravocrata convicto. 

Mais estarrecedor é ver que de lá para cá a visão de mundo de boa parte da nossa elite pouco mudou, prevalecendo a retórica conservadora, a hipocrisia, a ideia de meritocracia e a pouca preocupação com a inclusão do outro. Parece que às vezes somos os mesmos e vivemos como no século XIX.

As transformações dessa dura realidade são lentas e dependem de políticas de inclusão racial; de busca pela igualdade social e do esforço para educar e conscientizar os brasileiros sobre o grande papel dos africanos para a nossa formação histórica e cultural. 

A revista Vogue também lamentou a repercussão negativa e disse esperar que o episódio sirva de aprendizado! Serviu sim, e a revista até poderia encabeçar uma campanha pública a favor da manutenção das cotas nas universidades, que o governo federal quer acabar. Seria ótimo até para a imagem da revista!

A morte de Boechat

Antes de morrer Boechat comentou sobre a sucessão de tragédias no Brasil. Deu destaque para a principal matéria de “O Globo” que mostrou um dado absurdo: 1.774 pessoas morreram ao longo de 12 anos em tragédias que poderiam ter sido evitadas se houvesse mais respeito às regras de segurança e se as leis fossem cumpridas.

Na mesma matéria Boechat citou sobre as últimas tragédias e as mortes no Centro de Treinamentos do Flamengo, ocorrida por conta da negligência e omissão, pois o clube havia sido multado 31 vezes e ainda assim permitiu o funcionamento do centro naquelas condições. 

Grande jornalista e comunicador, Boechat sabia ser o porta-voz da nossa indignação. Sempre condenou a omissão e a negligência que levam a esses acidentes; sempre se indignou com o “jeitinho” brasileiro, com costume de “empurrar com a barriga” as fiscalizações e a tomada de providências, diante dos muitos interesses políticos e econômicos que entram em cena. 

As suas “pensatas” eram sempre geniais. Era uma voz presente na vida de todos, num momento em que vivemos muitos lutos, por mortes abruptas, causadas por tragédias evitáveis.

Boechat representava o povo nas suas observações e críticas. A sua morte de forma trágica é muito triste! Foi uma grande perda para o Brasil! Que início de ano!

Recordar é viver!

Nas mais antigas recordações da minha infância estão os caminhos montanhosos que me levavam até a escola primária, onde estudei por quatro anos. 

Quando chegava o inverno os belos campos cobriam-se de orvalhos esbranquiçados, manchados de flores de São João. No verde-claro das montanhas também surgiam os ouros dos ipês e, de longe, destacava-se o planalto azul, com os seus vales profundos.

Naquela imensidão verde, eu gostava de observar os Cipós de São João, uma planta silvestre, cheia de flores alongadas e alaranjadas, que produz grandes inflorescências nos meses frios. É uma planta normal, mas ela dava um colorido todo especial àquela paisagem e também à minha infância. 

Por aqui o cipó de S. João é muito usado para cercas, muros e pérgolas. Sempre que vejo esta planta eu trago as mais antigas recordações da minha infância; dos tempos em que corríamos atrás das borboletas, que invadiam os nossos caminhos. A vida era mais colorida com aquelas borboletas amarelas, azuis e vermelhas. Eram bons tempos; caminhávamos dando pulinhos, despreocupados com o mundo e com os rumos da humanidade.

Há muitas flores no mundo, e a flor de S. João não é a mais bela; no Brasil nem é tão conhecida. Mas sempre que vejo uma, ela enriquece o meu dia. 

Ela me faz relembrar com alegria essa eterna paisagem da minha infância, que me leva para as manhãs mais antigas. Recordar é viver!

Está difícil, mas é preciso sorrir, cantar e sonhar

Mais uma tragédia ocorreu no Brasil, agora no centro de treinamento do Flamengo, onde 10 adolescentes morreram queimados, vítimas da negligência e do descaso.

Esta ano está cheio de tragédias e por isso está difícil sorrir, cantar e sonhar!

Já sonhei muito acordado. Sonhei que um país tão rico como o Brasil pudesse nos dar a chance de acreditarmos na liberdade e na igualdade; que tivesse mais diálogo e menos preconceito; mais solidariedade, respeito ao outro e mais amor. Tudo parece tão simples, mas a realidade insiste em mostrar que não é bem assim, contrariando os nossos sonhos.

Sonhei com um país onde uns cuidassem dos outros, e cada um cuidasse do seu espaço. 

Sonhei com um país onde todos (pessoas, instituições, empresas e governos) tivessem plenas noções das suas responsabilidades; que ninguém esperasse a ocorrência de tragédias para falar em “apuração de causas”, “de protocolos de segurança” e “de prevenção de fatalidades”. Quando se fala em vidas humanas ninguém pode gastar menos para ganhar mais; ou fazer menos do que deve ser feito. 

Sempre sonhei muito acordado, mas confesso que estamos passando por um período difícil de sorrir, cantar e sonhar. 

Mas… apesar das desilusões que insistem em bater em nossas portas, sonhar é preciso, pois “de sonhar ninguém se cansa”, já dizia Pessoa. É preciso envelhecer sorrindo; lutar sempre, acreditar noutra vida e noutro mundo. 

Escrevo esta reflexão no intervalo do meu almoço. Para escrever eu precisava de uma “estrela amiga” e contei com a “Canção do Novo Mundo”, de Beto Guedes: “Profundas raízes vão crescer/A luz das pessoas me faz crer/Eu sinto que vamos juntos/ohh, nem o tempo amigo/Nem a força bruta/Pode um sonho apagar”.

A força bruta não pode tirar os nossos sorrisos, os nossos sonhos e a nossa vontade de cantar. Esses são os nossos remédios para a fuga da tristeza humana; essas são as nossas armas para lutar por um mundo melhor. Por isso sigamos com fé! É preciso sorrir, cantar e sonhar!

Uma grande mulher, um lindo poema

Ao ver esta foto de Angelina Jolie, enviada espacial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), numa entrevista a jornalistas na sua luta em defesa dos mais de 700 mil refugiados rohingya, em Bangladesh, impossível não evocar o poema “O mar dos meus olhos”, de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919/2004):

“Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma.”

in “O mar dos meus olhos”,  Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética

Photograph: Munir Uz Zaman/AFP/Getty Images

Perplexidades na Educação do país

Todos sabemos que o Brasil possui milhões de crianças e adolescentes fora da escola e que temos péssimos índices nos rankings mundiais de qualidade da Educação.

Contudo, nas pautas prioritárias do Ministério da Educação, neste início de governo, estão a mudança na legislação para permitir a educação domiciliar; alterações nos métodos de alfabetização praticados pelos professores, com priorização do velho método fônico (beabá-bá, “Ivo viu a uva”) e a defesa das aulas de moral e cívica, impostas pela ditadura.

Para piorar, toda vez que dá entrevistas, o ministro da Educação Ricardo Vélez se envolve em polêmicas. 

Numa entrevista à Veja atribuiu ao cantor Cazuza a frase “Liberdade é passar a mão no guarda”. Diante da repercussão negativa e da ameaça de ser processado, Velez ligou para a mãe de Cazuza e se desculpou. 

Nessa mesma entrevista o ministro olavista disse que o “brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião…”. Ficou chato, porque o brasileiro via de regra é trabalhador e honesto. 

Em entrevista ao Valor, o ministro disse que que as universidades “devem ficar reservadas para uma elite intelectual”, declaração absurda e que dispensa qualquer comentário. 

Para quem acredita que o Ministério da Educação é o setor mais importante para o desenvolvimento de um país e que o ministro da Educação ocupa uma posição política das mais relevantes, a reação que se tem a tudo isto é de perplexidade. Tudo é lamentável, para se dizer o mínimo!

Uma ilustre visita

Estava no meu gabinete de trabalho, um tanto desiludido com o que se passa no mundo dos homens, e eis que surgiu algo realmente importante. 

Recebi a ilustre visita de duas rolinhas. Elas olharam para mim um pouco desconfiadas, mas me permitiram uma foto de longe. 

Depois da foto fiquei quieto e elas me acompanharam por mais um tempo; eu trabalhando de um lado, elas olhando do outro. De vez em quando eu pensava nos pássaros e na natureza.

Com tanta coisa estranha que estamos vendo no mundo dos homens, às vezes é bom pensar no mundo dos pássaros. Eles voam alto, enxergam de cima e cantam. 

Confesso que elas me encheram de alegria e mostraram que a vida não se resume à intensidade e à toxidade das notícias diárias; tampouco aos problemas e às intolerâncias do mundo. Sempre há coisas belas ao nosso alcance. 

Foi bom receber esta singela visita. Foi um recadinho da natureza, que insiste em nos mostrar coisas boas e a enriquecer o mundo de beleza. 

A todo instante somos prisioneiros das notícias e sempre voltamos os nossos olhos para baixo ou para a frente, nos teclados; mas é um alento olhar para o lado, para o céu e enxergar a beleza da vida!

A importância do luto

O desastre causado pela Vale me fez refletir sobre a importância do luto, da despedida eterna, do derradeiro abraço.

Vivi a impossibilidade do luto presencial por duas vezes. A primeira em 2006, quando faleceu o meu pai, e em novembro do ano passado, quando repentinamente morreu o meu irmão Luiz, mais velho que eu. Nas duas situações eu estava em missão fora do país e não pude me despedir deles. O apoio dos familiares e amigos foi essencial naqueles momentos de impotência e extremo sofrimento. Posso garantir: não dar o último adeus presencial àqueles que mais amamos dói muito e é uma dor que volta de vez em quando.

Depois do luto presencial e da despedida, a tristeza vai passando aos poucos; transforma-se em saudades e boas lembranças. O nosso repertório emocional se readapta, transitando de um intenso sofrimento de dor, para outro mais alegre e suave. 

Contudo, pior do que não viver o luto presencial, é não encontrar o corpo do ente querido para fazê-lo, como na tragédia em MG. O sofrimento de uma família que ainda não encontrou o corpo, ou jamais vai encontrá-lo, é uma dor atroz que se prolonga no tempo; não cessa tão cedo, ou jamais cessará. 

Para piorar o sofrimento, nesses casos os familiares ainda precisarão obter judicialmente a declaração de “morte presumida”, para que o morto seja efetivamente declarado como morto, com aumento da dor de cabeça, da burocracia, da revolta, e claro, da dor espiritual. 

É lógico que qualquer que seja a situação, o que mais conforta é se você viveu intensamente com o ente querido e fez tudo o que tinha que fazer com ele. Mas dar o último adeus sempre é essencial para uma boa despedida e para a paz no espírito. 

O fato é que a estas alturas os mortos já estão em paz. Que a paz fique no coração dos familiares que estão vivos.