Adeus Morais Moreira

Neste ano tão difícil, agora perdemos o nosso cantor e compositor Morais Moreira, que tantas alegrias trouxe ao povo brasileiro. 

Seduzido pelas palavras, entre outras coisas belas, ele também nos deixou poesias e cordéis. 

No seu livro “Poeta não tem idade” (Ed. Numa) há o belo cordel chamado “Gonzaga e Dominguinhos”, no qual ele faz homenagem póstuma aos dois artistas (pag. 193):

“Eu não sei se a vida é dura/ou é a gente que é mole/ Um cabra que puxa um fole/ De forma clara e segura,/Além da grande figura/Diante de qualquer mal/Tinha que ser imortal/Trilhando sempre os caminhos/Da luz que nunca se apaga/Outrora foi o Gonzaga,/Agora vai o Dominguinhos”[…]. 

E continua o poeta, habilidoso na métrica e na rima: “A morte não tem idade/Chegando a hora do adeus/Quem vai discutir com Deus? […]“.

Como ele mesmo diz no referido cordel: “Aqui a gente conquista/A eternidade da obra/Já que o tempo não dobra/ À força de um artista…”. 

Quis o destino que agora chegasse a sua vez. Mas o “tempo não se dobra à força de um artista”. Ele também é um imortal e a “sua luz nunca se apaga”. A sua obra abraça o tempo e alcança a eternidade.

A vida traz esperanças

A vida não tem preço. E ela é única. 

O noticiário de mortes e mais mortes nos faz pensar mais na vida. A vida é a sorte que nós temos. Ela é rara, como diz a canção. 

Apesar do terror que estamos vivendo, o Sol brilha todos os dias, os pássaros cantam, as flores se abrem para as luzes, as crianças nascem, o ciclo da vida se renova. 

A vida é uma permanente emoção, como nos mostra a foto de uma enfermeira colocando protetor facial em bebês recém-nascidos, para protegê-los do coronavírus, em um hospital em Samut Prakan, Tailândia.

O milagre da existência e da renovação nos fortalece para resistir ao pavor das ameaças de doenças ou morte. 

A vida pulsa, renasce todos os dias, torna os sonhos possíveis. A vida traz esperanças.

Foto: Rungroj Yongrit/EPA.

“Nada vai acontecer comigo”

A quarentena afrouxou. Sem a menor necessidade, as ruas estão voltando à normalidade, com muitas aglomerações nas ruas, nos comércios, nos calçadões. Até as festas nas residências estão voltando. Que perigo!

As aglomerações continuam por desinformação, ignorância, guerras de narrativas, dificuldades reais das pessoas de ficarem em casa (principalmente nas residências precárias), entre outros motivos. Mas há também a questão da natureza humana.

Há aqueles que acreditam estar imunes aos males e às doenças que nos cercam. Têm a ilusão de controlar a situação e o destino. Possuem crenças ilusórias: “Nada vai acontecer comigo”; “Isso só acontece com os outros”. 

Muitos também têm a tendência de serem autoagressivos, como se verifica com o abuso do álcool, do tabagismo, do sedentarismo, e de outras condutas autodestrutivas. “Não vai acontecer nada”; “Um dia vamos todos morrer mesmo”, dizem. 

São táticas do avestruz, a de negar a realidade ou descumprir aquilo que muda o seu conforto, a sua rotina.

Essas pseudocertezas são as piores inimigas do confinamento e, portanto, da saúde pública. Com elas colocamos em risco a própria vida e a dos outros. 

As falsas certezas dificultam as mudanças de comportamento. A fábula “A raposa e as uvas” é uma boa metáfora neste sentido. Raposa não gosta de uvas, mas a história retrata bem o comportamento de teimosia, de desprezo, de falsas crenças. 

É duríssimo tudo isso que estamos passando. Mas é uma questão de vida ou morte, e estamos falando de milhares, milhões de pessoas. Vivos, depois teremos bons motivos para sair e celebrar a vida. Aqueles que podem, precisam ficar em casa. 

O momento é de sobrevivência; é de cuidar das nossas vidas e respeitar a vida do próximo. É hora de aguçar mais o nosso senso de coletividade.

Gracias, Grazie, Merci, Thank you…Muito obrigado

Aposentado como médico, depois de 40 anos de trabalho, o nigeriano radicado em Londres, Alfa Saadu, saiu da zona de zona de conforto e há algumas semanas foi para o front, na sua missão de salvar vidas.

Saadu (foto 1) foi um dos milhares de médicos e enfermeiros aposentados no Reino Unido que voltaram a trabalhar, após atender o apelo do governo britânico para ajudar no Serviço Nacional de Saúde, que está sofrendo com a falta de funcionários. Estima-se que 25% deles estejam afastados para cumprir isolamento ou por estarem doentes. 

Infelizmente Saadu foi contaminado pelo coronavírus e faleceu aos 68 anos de idade. Segundo o seu filho, ele era uma lenda viva, sempre salvando pessoas na África e na Inglaterra. Morreu cumprindo a sua missão. 

Alfa Saadu, o médico aposentado, que voltou a trabalhar no serviço de saúde de Londres, e morreu vítima do covil-19

A sua história é apenas mais um caso de heroísmo, no meio de tantos outros mundo afora, e que chamam a nossa atenção para a difícil missão dos médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde, que estão no front do combate ao coronavírus.

Os sistemas de saúde têm enfrentado baixas nas suas equipes, que precisam afastar os profissionais contaminados. Esses afastamentos sobrecarregam os demais profissionais que continuam trabalhando. Exaustos, eles também temem por suas vidas, mas seguem firmes nos hospitais e nas UTIs, lutando para que todos nós continuemos a respirar.

Muitos reconhecimentos têm sido feitos a esses heróis, como no caso dos bombeiros de Napoli, Itália, que homenagearam a equipe médica do hospital Cardarelli (foto abaixo)

A humanidade será eternamente grata a esses exaustos profissionais. A eles, e a todos os demais que estão no front, a nossa solidariedade e muitas preces para que tenham resiliência. A eles o nosso abraço, o nosso amor, muitas flores e eterna gratidão.

Foto de Ciro Fusco/EPA

A pandemia das incertezas

“Não podemos escapar das incertezas” (Edgar Morin”

A pandemia do coronavírus nos traz um quadro assombroso de incertezas e nos desafia a cada momento. 

Não sabemos como e até quando a epidemia se alastrará em cada país; não sabemos, depois que ela acabar, se haverá ou não novas ondas da epidemia; desconhecemos a cura para a doença, e nem sabemos quando vamos obtê-la.

Tampouco imaginamos quais serão as consequências políticas, econômicas e sociais da crise. As projeções preliminares é de que elas serão brutais, com cenários de recessão, redução da atividade econômica, altas taxas de desemprego, aumento da pobreza, endividamentos, entre outras tantas, todas desafiadoras para o futuro.

Tudo é incerteza em relação ao futuro, seja próximo ou mais distante, e enfrentar as incertezas do amanhã é um grande desafio. A nossa cultura sempre está em busca de certezas. Sempre temos dificuldades em aceitar as incertezas e em analisar as complexidades dos fenômenos, com todas as suas implicações; não sabemos como lidar com crises multifacetadas. 

As dificuldades em analisar as incertezas fazem parte da nossa eterna crise de percepção, já analisada por muitos pensadores. Mas, como nos lembra  Edgar Morin, o grande mestre da complexidade: “não podemos escapar das incertezas”.

No Brasil, infelizmente a crise trouxe uma certeza: a da demora

No campo da tomada de decisões tudo também foi marcado por incertezas no Brasil. Demoramos preciosos dias para decidir se fazíamos ou não a quarentena. Ainda bem que estamos num estado federativo que permite decisões autônomas e descentralizadas, pois o presidente da República relutava em decidir a favor da quarentena. Foi intenso o (falso) dilema entre escolher saúde ou economia para fazer ou não o isolamento social; acentuaram-se as discussões sobre isolamento vertical ou horizontal, entre tantas outras. 

Felizmente, mesmo perdendo tempo, o sistema federativo permitiu que houvesse consensos na tomada de decisões e conseguimos ganhar precioso tempo para o início da quarentena em quase todos os estados antes mesmo do dia 25/03.

Todas essas dicotomias foram desafiadoras num primeiro momento, sobretudo por conta do despreparo, da ignorância e das disputas políticas. Mas não deveriam ter sido, pois fizeram o Brasil perder precioso tempo para um diálogo entre o governo federal, os governos dos estados e os municípios visando buscar soluções coordenadas e conjuntas para enfrentar emergencialmente a crise. 

Vejamos suscintamente o desenrolar desse período de indecisões e incertezas: 

1) Muitos estados e municípios entraram em quarentena a partir da segunda quinzena de março, sobretudo a partir do dia 20. O quadro a seguir, publicado na Folha de S. Paulo, mostra que a maioria dos estados da federação fecharam as escolas antes do dia 20/03. Mostra ainda que até o dia 25/03 em todos os estados o comércio já estava fechado. 

Essas quarentenas, decretadas pelas administrações estaduais e municipais, foram entendidas como fundamentais para evitar os picos das internações no sistema de saúde, que poderia entrar em colapso ainda no começo da epidemia. 

2) O problema foi no Governo Federal, apesar da atuação muito boa do Ministério da Saúde. A conduta do presidente da República foi lamentável em todos os sentidos. 

Em pronunciamento em cadeia nacional, no dia 24/03, ele chamou a grave epidemia de “gripezinha”, de “resfriadinho” e comentou que as escolas poderiam funcionar normalmente; depois, no dia 29/03 o presidente foi passear publicamente junto a populares, em Brasília. Em quase todos os dias ele questionava a necessidade da quarentena. gerando crise política e incertezas

Esses e outros episódios dificultaram uma organização coordenada e centralizada para o enfrentamento rápido da crise. Também atrapalharam a conscientização de grande parte da população para a necessidade rápida do isolamento. 

Faltou por parte da presidência a visão de que, o que ocorreria na saúde pública, se não houvesse o isolamento social, traria impactos brutais também na economia. Afinal não se trata de uma “gripezinha”. 

3) A mudança no tom presidencial somente veio no dia 31/03, em novo pronunciamento em cadeia nacional, após grande reprovação popular, com panelaços ressoando Brasil afora. Até que enfim, depois de perder muito tempo, a presidência reconheceu que a melhor medida seria o isolamento pleno como emergência sanitária.

Mas infelizmente durou pouco, pois logo em seguida o presidente publicou em suas redes sociais elogios à ditadura; no dia seguinte criticou governadores e depois voltou a criticar as medidas de isolamento recomendadas pela OMS e adotadas pelo mundo inteiro. No dia 02/04 ele criticou o próprio ministro Mandetta, que tem gerenciado bem a crise sanitária. Ou seja, temos um presidente gerador de crises, ao invés de buscar o diálogo para solucioná-las.

4) Contudo, em paralelo, com a parada súbita da economia e o vácuo deixado pelo setor privado, também faltou, emergencialmente, por parte da equipe econômica do Governo Federal, a criação rápida de uma grande rede protetiva para a área social. Somente no início de abril é que o Governo Federal tomou providências para fornecer uma ajuda emergencial e auxiliar pessoas economicamente vulneráveis a atravessar a crise sanitária. 

Não bastasse a demora do Governo Federal em criar o benefício do auxílio emergencial, depois houve a demora para destravar e liberar tal benefício, gerando crítica dos demais poderes da República, entidades e de especialistas. Houvesse uma coordenação conjunta, além de consciência e vontade política, o Governo Federal teria tomado tais decisões, entre outras, bem antes, através de mecanismos permitidos pela própria Constituição Federal em situações de guerra e extrema urgência. 

Como observou a economista Monica de Bolle, no El País, no dia 02/04, “É um caminhão de coisas que estão faltando, porque o Governo não fez quase nada, está em uma inércia absoluta… Hoje, dane-se o Estado mínimo, você precisa gastar. É preciso errar pelo lado do excesso não para o lado da cautela numa crise desse tipo.”

5) Segundo a grande imprensa, Bolsonaro chegou ao ponto de ficar, até o dia 31 de março, entre os três governantes no mundo que teimavam em reconhecer a gravidade da pandemia, quando na verdade a OMS já havia decretado a pandemia global lá atrás, no dia 11 de março. Na sua solitária opinião, estava acompanhado apenas dos ditadores Daniel Ortega, da Nicarágua, e Alexander Lukashenko, da Belarus. 

6) Faltou a liderança do presidente para unir o país e aproveitar a cooperação entre os estados e municípios, para dar um pouco de segurança ao povo brasileiro. Foi uma enorme inércia governamental, com a perda de um precioso tempo para a tomada de decisões efetivas, devido a rápida progressão da epidemia e da crise social que se seguia. 

Por incrível que pareça, esta demora para cair a ficha do Governo Federal e as indefinições que se seguiram, atrapalharam até o Ministério da Saúde, que tem conduzido bem a crise. Foi o que ocorreu com o fato de o ministério ter esperado que a transmissão do vírus se tornasse comunitária para fazer a compra e a massificação dos testes, um erro lamentável.

Quadro publicado na Folha de S. Paulo no dia 03/04/2020

Algumas lições:

É muito cedo para saber quais serão as consequências da crise. Diante das incertezas e das rápidas mudanças, ainda temos muitas perguntas e poucas respostas. Sabemos que o mundo nunca mais será o mesmo. Temos muitas lições preliminares. Destaco algumas que me ocorrem, entre tantas outras:

1) Para todas as crises agudas e desafiadoras, em todos os contextos (políticos, sociais, militares, empresariais), um bom fator para conduzir e levar a uma boa navegação em águas turbulentas é a qualidade do líder. 

O teimoso Bolsonaro titubeou, esperou, blefou e não tomou rápidas e eficientes decisões. Ao contrário, é um presidente gerador de crises. Ficou à mercê das opiniões do seu “gabinete de ódio” e não ouviu, porque não quis, as vozes lúcidas de um gabinete integrado de Ministros. A Folha de S. Paulo chegou a fazer um editorial “Procura-se estadista” sobre o vácuo no poder de um presidente tão despreparado e autoritário. Voto tem consequências. 

2) O líder precisa ter equilíbrio. Uma das grandes lições em tempos de absoluta incerteza e crise, para governantes e todos nós, é o de buscar o equilíbrio. É preciso uma visão mais abrangente para decisões mais equilibradas. Somos muito dominados pelo pensamento dualista do oito ou oitenta, fruto da pouca reflexão e da incapacidade de análise dos fenômenos complexos.

As dicotomias, principalmente as ideologizadas, são estúpidas e danosas. É difícil para os políticos entender realidades tão óbvias, principalmente para aqueles dominados por ideologias atrasadas, impregnadas de negacionismos da ciência (e da realidade), como rejeição à vacinas, terraplanismos e tantas outras. 

3) Faltou (e está faltando) ousadia e agilidade. Em situações complexas frequentemente o conhecimento dos especialistas é insuficiente para superar os desafios. Os nossos representantes do típico Estado liberal ignoraram a regra básica e essencial que em situação de guerra não é Estado Mínimo. Precisa ser Estado Máximo, para fazer frente às emergências protetivas. E para ontem. 

4) Por enquanto temos apenas a certeza de que a pandemia trará gravíssimas consequências sociais, econômicas e em todos os campos da vida humana. Muitas tomadas de decisão deverão ser feitas a todo momento. Neste cenário, todos devem aprender com as lições.

Diante de tantas incertezas, os governantes precisarão rever as suas condições, aprender com os erros, escutar mais as equipes e os gabinetes integrados, tentar entender mais a complexidade das coisas, cooperar mais e tomar decisões conjuntas e transparentes.

Na vida, e sobretudo diante das incertezas, nem tudo é preto no branco ou branco no preto. Entre os extremos há muitos tons de cinza e são eles que ajudam a buscar os equilíbrios para a tomada de decisões.

É preciso deixar a teimosia de lado. Afinal, como nos lembra Edgar Morin: “A certeza de estar certo nos leva aos piores erros…. ” 

Hong Kong, um exemplo em prol da democracia.

Hong Kong tem sido um exemplo da luta pela liberdade e democracia.

Em 1997, Hong Kong passou a ser novamente território chinês, após 156 anos de colonização britânica. Havia uma condição no acordo: uma cláusula que permitiria a Hong Kong desfrutar durante 50 anos, até 2047, de um regime de direitos e liberdades iguais a qualquer democracia.

Estive em Hong Kong por duas vezes. A cidade é moderna e bela, com grandes prédios e é praticamente um centro de conexão de toda a Ásia. Portanto um centro estratégico para os interesses geopolíticos e econômicos da China.

Anos depois da anexação, o regime ditatorial chinês passou a fazer pressões sobre Hong Kong. Começou a apertar o controle, com perseguições aos adversários, a desqualificação de parlamentares pró-democracia, e ameaças de extradição de inimigos políticos. 

Mas a resistência democrática tem sido grande. O povo foi para as ruas em 2014, com a chamada Revolução dos Guarda-Chuvas (que servem como escudos), e nos últimos dias protestos levaram dois milhões de habitantes para as ruas, algo impressionante num local de pouco mais de 7 milhões de pessoas. 

Os cidadãos de Hong Kong sabem que, com o fim da democracia, a perda da liberdade vem em primeiro lugar. E eles já disseram que preferem ganhar menos e ter o mais importante valor para uma sociedade: a liberdade. 

O pensador John Stuart Mill, autor do clássico “Sobre a liberdade”, já dizia isso. Uma sociedade feliz exige pessoas felizes e um dos princípios para a felicidade é a liberdade. 

Numa democracia você é livre para ser de esquerda ou de direita; ter ou não uma religião; criticar ou elogiar o governante; ser conservador ou liberal; ou seja, viver a vida como você quer. 

Há uma verdadeira resistência democrática e pacífica em Hong Kong em prol da democracia e da liberdade. Um exemplo para todo o mundo, e para o Brasil, onde as instituições democráticas têm sofrido constantes ataques.

Photograph: Anthony Kwan, sobre os protestos em Hong Kong no último fim de semana. 

O dom de viver nos faz sorrir

Estava saindo do supermercado e me deparei com um mendigo vindo em sentido contrário. 

Era um senhor com roupas esfarrapadas, expressão fechada e olhos distantes. Dava a sensação que olhava para o nada, para o infinito.

Estava sujo da cabeça aos pés e parecia cansado; talvez cansado da vida e das tolices do mundo. 

Ele olhou para mim e resmungou alguma coisa. Não entendi, mas eu o cumprimentei e ele me respondeu “buenos días”. 

Em seguida aproximou-se de mim, esticou a sua mão direita e nos cumprimentamos novamente. Sem nenhum nexo ele disse “forever, siempre”. 

Mesmo sem entender o que ele queria dizer, eu respondi “forever, siempre”. Foi então que ele abandonou a indefinível expressão de tristeza e abriu um enorme sorriso, sem os dentes. 

Saí dali com a sensação de que toda tristeza da vida pode ser eliminada com um único sorriso. Apesar de todos os dramas do mundo, o dom de viver nos faz sorrir.

Bolsonaro e os ataques à democracia

Todos os dias Bolsonaro faz ataques às instituições democráticas e tijolo por tijolo o seu governo vai desmoronando os alicerces da nossa frágil democracia. 

Exemplos não faltam: retaliações à imprensa; transferências compulsórias de comandos e interferências nos órgãos públicos, incluindo a Polícia Federal; manipulações à verdade; manutenção da guerra na política que divide o país; negacionismo ou adulteração de fatos históricos; enfraquecimento à participação cidadã, através das destituições dos conselhos; imposição de retrocessos nas políticas de direitos humanos, meio ambiente, e muito mais.

Não, os tanques não chegarão às ruas para dar o golpe. Não é mais assim. 

Os novos regimes autoritários, que os cientistas políticos chamam de democracia iliberal, são construídos lentamente, dia após dia, com o enfraquecimento das instituições e das estruturas democráticas. 

Basta olhar o que ocorreu em outros países como Nicarágua, Venezuela, Turquia, Hungria, Rússia, Polônia. 

Nesses locais a democracia ainda existe formalmente, mas há o enfraquecimento das organizações sociais e uma desigualdade na relação entre os poderes, a ponto de afetar as suas independências. Prevalece o governo e a tirania do autocrata. 

O Messias não tem nada de salvador. Ele faz ataques frontais às instituições e é uma séria ameaça à democracia. 

Não é muita novidade que tudo isso ia acontecer. Mas são preocupantes o olhar complacente a este desmonte, por parte de grande imprensa, e a desmobilização dos brasileiros. 

Resta saber se o Congresso Nacional, o STF (que os bolsonaristas ideólogos querem fechar), o Ministério Público, e demais instituições democráticas terão resiliência para colocar limites em Bolsonaro. Antes que seja tarde.

Saudoso Dia dos Pais na roça

Lá na roça comemorávamos o Dia dos Pais, e outras datas importantes, com um bom almoço. Almoço da roça, sem preocupações com luxo ou fineza.

No dia a dia da roça quase não havia comida requintada. 
Era sempre arroz, feijão e alguma “mistura” que podia ser um ovo, frango caipira, batata ou mandioca frita. Junto uma salada de alface e tomate. Não havia nada mais além disso. 

O que mudava era tempero. Às vezes tinha um torresmo ou um jabá no feijão e isto já deixava a comida diferente, com mais sabor.

Não havia beterraba, cenoura, espinafre e essas outras coisas importantes. O povo da roça não gosta de coisas muito diferentes. O melhor mesmo é a comida do dia a dia. 

A diferença ficava por conta dos domingos. A minha mãe sempre fazia um macarrão especial e um frango cozido. Era o máximo de prazer. 

A grande exceção ficava por conta das datas importantes, como o Dia dos Pais. Aí sim, tinha um frango especial, recheado com farofa; ou então carne de porco na lata, uma das coisas mais deliciosas da culinária caipira. 

Certa vez recebemos um famoso político da cidade. A minha mãe fez para ele a carne na lata. Ele adorou e disse que aquilo não era “carne na lata”, conforme falávamos. Era “confit”, como se chama o método de conservação da carne em imersão na gordura. 

Até entendemos bem, mas “confit” parecia coisa de rico, e na roça as pessoas são simples e não gostam nem de falar bonito. Para nós, aquela delícia continuou a se chamar “carne na lata”. 

Bons e velhos tempos. A vida era humilde, mas éramos felizes, muito felizes!

Quem teve um cão não pode ficar sem outro cão

Quem teve um cão, nunca mais pode ficar sem outro cão. O cão nos preenche com algo misterioso, quase inexplicável de uma essência de viver. 

O cão traz sentidos para muitas coisas da vida. Parece que a energia e o olhar de um cão confortam a nossa alma. 

Com tanta loucura que estamos vendo; com palmas para a barbárie, e até elogios à tortura, só um cão nos salva na aridez do dia a dia. Nem a literatura, a poesia, a música e a filosofia dão mais conta de tanta carga pesada. 

Quando li pela primeira vez que o poeta Lord Byron havia feito um epitáfio para o seu cão Boatswain achei um exagero. Hoje tenho certeza que ele estava cheio de razões para homenagear eternamente o seu cão. 

Só um cão nos dá vida e sobrevida neste tempo histórico desintegrado de valores. Só um cão nos conforta!

Preciso ter outro cão. Pode ser exagero, mas em tempos sombrios, só um cão pode nos salvar; ou acalmar a nossa alma. 

Byron escreveu um poema para o seu cão e este trecho foi colocado no epitáfio:

“Aqui descansam os restos daquele que possuía beleza sem vaidade/Força sem insolência/ Coragem sem Ferocidade/todas as virtudes do homem e nenhum dos seus defeitos”.

Foto: Túmulo do cão Boatswain.