Burle Marx e a proteção da vida

Vi que o Sítio Burle Marx, no Rio, é candidato brasileiro a Patrimônio Cultural da Humanidade, da UNESCO, em 2020.

O que será que o nosso grande Burle Marx, amante da natureza, da vida e da sustentabilidade, pensaria deste momento em que o Brasil vive, com total desprezo governamental ao sistema de proteção do meio ambiente? 

Em pouco tempo estamos vendo os desmontes dos órgãos ambientais fiscalizadores, como Ibama e no ICMBio; mais venenos, com a liberação de 86 agrotóxicos, muitos proibidos em outros países; planos para acabar com a proteção das espécies aquáticas ameaçadas; a hostilização das políticas indigenistas, e agora há o projeto de lei de Flávio Bolsonaro para alterar o Código Florestal e eliminar o capítulo que prevê a criação da reserva legal de vegetação nativa nas propriedades rurais, uma das maiores conquistas das últimas décadas e que levaria em risco a proteção da Amazônia. 

Numa entrevista que Burle Marx deu à revista Veja, em setembro de 1973, republicada há algum tempo (link nos comentários), ele nos deixou um testemunho de amor à vida e preocupação com as futuras gerações. 

À época ele disse que “é tempo de o Brasil aprender a amar a natureza – as florestas, os rios, os lagos, os bichos, os pássaros”.

Enquanto muitos acreditam que patriotismo é enrolar-se numa bandeira do Brasil e gritar “Brasil acima de tudo”, Burle Marx nos deixou a grande lição: “Patriotismo para mim é proteger o nosso patrimônio, artístico, cultural, e a terra, que nos dá tudo isso”.

A verdade da mentira

Uma amiga me disse que chorou durante todo o filme “Avengers” e que viveu momentos mágicos.

Nada é tão belo como a ficção, principalmente quando a realidade está muito forte.

A ficção nos mostra que, além de racionais, somos seres bioquímicos, espirituais, emocionais…

A literatura, em particular, tem essa força sublime e estimulante para aflorar as emoções da vida, como nos mostra o poema “A verdade da mentira”, do espanhol Angel González (1925-2008): 

“Os olhos do leitor de repente se encheram de lágrimas,
E uma voz carinhosa sussurrou em seu ouvido:
– Por que choras, se tudo neste livro é de mentira?
E ele respondeu:
– Eu sei;
Mas o que eu sinto é de verdade”.

Filmar professores é inconstitucional e ilegal

“Sobre filmagens e gravações em salas de aula, sem o consentimento do Professor:

1 – Em nenhuma democracia liberal do mundo o professor pode ser filmado ou gravado em sala de aula, sem a sua anuência. 

2 – Escola não é ambiente para fiscalização e denuncismo. A qualidade do ensino melhora com diálogo, participação e parceria, caminhos necessários para a construção conjunta do saber. 

3 – Salas de aulas são espaços privados, mesmo que pertençam à rede pública, pois delas participam somente os funcionários credenciados nas escolas e os alunos matriculados. 

4 – Filmar ou gravar em espaços privados, sem a anuência dos interlocutores, é violação do direito à inviolabilidade da imagem, da vida privada e da honra das pessoas (art. 5, X, da CF), gerando o direito à indenização por dano material ou moral, em caso de exposição ampliada e indevida.

5 – As aulas e os materiais de apoio produzidos pelo professor lhe pertencem e não podem ser reproduzidos sem prévia autorização, sob pena de violação da lei dos direitos autorais previstos na Lei 9.610/98, sujeitando o infrator à indenização.

6 – As gravações ou filmagens, feitas com anuência, somente podem ser reproduzidas em ambientes privados, para fins de estudo. 

7 – Em situações de abusos, arrume as provas possíveis através de testemunhas e documentos das redes sociais, e faça um relatório para a Coordenação ou Direção da sua escola, para fins de conhecimento e preservação de provas. Guarde os documentos para ulteriores providências, em caso de necessidade. 

8 – Diante da violação de direitos, se necessário, o professor deve procurar a ajuda do seu Sindicato ou dos órgãos de garantias, como a Defensoria Pública e o Ministério Público. O Poder Judiciário só deve ser acionado em situações mais graves, como a ocorrência de crimes, danos morais e materiais, ou para cessar algum fato danoso em andamento.

9 – Sempre é importante dialogar, conscientizar e regulamentar, essas e outras questões, consensualmente com os alunos, pais e a comunidade escolar.

10 – Liberdade com responsabilidade, eis o caminho do equilíbrio. A Constituição garante a liberdade de manifestação do pensamento, da atividade intelectual e científica; a liberdade de cátedra e o pluralismo de ideias (Arts. 5 e 206 CF). A liberdade é o pilar básico da democracia!”

Saudações aos mestres. Paz e bem! Antonio Ozório.

Macartismo à brasileira

O Ministro da Educação disse que filmar professores em sala de aula é um direito dos alunos.

Pois bem. Temos mais de 2,5 milhões de professores que diariamente vão cedo para o chão das escolas lutar pelo ensino e Educação do nosso país. Enfrentam todas as adversidades possíveis, como baixos salários, chuva, frio, sol, violência.

Agora terão que se preocupar também com o patrulhamento e o denuncismo dos alunos, incentivados oficialmente pela maior autoridade da Educação, que ameaçou analisar os casos filmados.

Registre-se que em nenhuma democracia liberal do mundo o professor pode ser filmado, a menos que ele permita. É inconstitucional; é ilegal. Mas o ministro, que já disse que comunista precisa levar um tiro na cabeça, segue com as obsessões olavistas do anticomunismo e do combate ao marxismo cultural. 

Nos anos 1950 o senador McCarthy liderou uma campanha anticomunista nos EUA. Milhares de pessoas inocentes foram investigadas pelo FBI e tornaram-se vítimas de caça às bruxas, entre as quais Charles Chaplin. Os abusos foram tantos que a opinião pública se indignou e rebelou-se contra McCarthy, que morreu decadente e no ostracismo.

Ou reagimos todos, professores, sindicatos e população, contra este estado de coisas, ou viveremos nas escolas os tempos sombrios de um macartismo à brasileira.

O MEC e a divisão (e exclusão) dos saberes

Há algum tempo a Finlândia anunciou uma revolução: pretender acabar com as disciplinas nas escolas. O país é protagonista em educação de qualidade e deseja uma educação amplamente interdisciplinar, que agregue os conteúdos, ao invés de dividir o conhecimento em disciplinas.

O ousado exemplo mostra uma tendência adotada nas últimas décadas por todos países desenvolvidos: integrar o ensino das ciências humanas, exatas e da natureza. 

A integração das disciplinas tem levado séculos para ocorrer. O conhecimento tradicionalmente foi compartimentado e disciplinarizado em ramos da ciência; no interior de cada um deles, as disciplinas. Com isso, o saber sempre ficou fragmentado e isolado.

Entretanto, a partir do século XX, a divisão dos assuntos em disciplinas rígidas, levou a dificuldades para construir explicações da realidade, na qual as coisas estão conectadas, interdependentes e interligadas, a exigir soluções compartilhadas para lidar com as crescentes incertezas e complexidades. 

Diante dos problemas fundamentais do planeta, a união dos saberes passou a ser essencial. Décadas de pesquisas comprovaram que a integração entre as diferentes áreas de conhecimento é mais fecunda e produtiva socialmente do que a separação entre elas ou a exclusão de algumas delas.

Em qualquer nível de ensino, desde o básico até o superior, o caminho ideal do futuro será a inclusão e a integração das disciplinas, para construir solidamente o saber científico e gerar visões mais transdisciplinares.

No Brasil do atraso o caminho é inverso dos países evoluídos. Ao invés de integração e harmonização das ciências, fala-se em exclusão. O objetivo é dar menos prestígio, enfraquecer, ou mesmo excluir dos currículos as áreas de humanas, como filosofia, sociologia e ciência política.

Desde 1901 foram concedidos quase 600 Prêmios Nobel para dezenas de países. A Argentina tem 5 prêmios. Nós nunca ganhamos um e desse jeito nunca ganharemos.

O nosso subdesenvolvimento é o resultado dos grandes e incessantes investimentos em ignorância e precariedade, que sempre marcaram nossa história. A pergunta é sempre atual: que sociedade queremos ser?

O presidente e as suas polêmicas

Nos últimos anos trabalhei em São Paulo, capital, e morava em Taubaté. De vez em quando ficava hospedado em hotéis na capital. 

Havia uma época do ano em que eu ficava atento às reservas, pois elas eram escassas: era o período que antecedia e sucedia a “Parada Gay”. Os hotéis, desde os mais simples aos mais sofisticados, enchiam de turistas de vários lugares do mundo. 

Houve dias que cheguei a ficar sem hospedagem por conta das lotações e tive que voltar para o interior.

Curioso, à época procurei saber, e a Parada Gay era o segundo evento que mais movimentava a economia de São Paulo, depois da Fórmula 1. 

Durante estes eventos fiquei sabendo da importância do rentável, inofensivo e pacífico turismo gay; descobri que o Brasil é um dos países procurados pelos gays, pois sempre foi um ambiente agradável, aberto, respeitoso e receptivo ao público LGBT. 

Ao fazer uma breve pesquisa no Google vi que o turismo gay movimenta bilhões em todo o mundo, a ponto do Brasil e muitos outros países, como Israel, França, EUA, Canadá, Alemanha, sempre ter incentivado este tipo de turismo, como forma de aquecimento dos negócios.

Porém, diante das declarações do presidente, de que “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, (o Brasil) não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay”, vamos perder mais turistas e aumentar a nossa fama de país homofóbico. 

Enquanto o Brasil espera pelas reformas o presidente continua a se envolver em polêmicas e continuamos na contramão da história. 

Hemingway e Cuba

O escritor Hemingway é muito querido, quase um mito, em Cuba, onde morou entre 1939 até 1960, com idas e vindas aos EUA, seu país de origem.

Existem museus em sua homenagem; bares, como o La Florida, um dos mais famosos do mundo, habitualmente frequentado pelo escritor; restaurantes possuem fotos sobre ele; há drinks com o seu nome e consta que ele tomava alguns pileques com os “mojitos” do país. 

Hotel Ambos Mundos, onde viveu Hemingway

Cuba foi uma boa fonte de inspiração para o escritor, que estava na obscuridade desde a grande obra “Por quem os sinos dobram”, publicada em 1940. Na ilha ele escreveu o livro “O velho e o mar”, que o devolveu às glórias, com o prêmio Nobel de literatura, em 1954. Foi um livro que marcou a minha fase de leitor jovem/adulto.

Hemingway era uma pessoa muito dura e sensível ao mesmo tempo; era aventureiro, amava os amigos, os livros e o sexo oposto. Amava muito a ilha, que realmente tem uma indefinível beleza, e amava a população local. Dizia que “se você reparar, as pessoas boas sempre foram pessoas alegres”, referindo-se à alegria e bondade do povo cubano.

O escritor gostava de correr atrás dos sonhos, sempre cheio de recomeços. Infelizmente uma depressão o levou ao suicídio, em 1962, e consta que foi porque estava saudoso da ilha.

Nas minhas anotações da viagem percebi que ele foi uma pessoa fascinante, que amava a vida, o mundo, as flores, o céu e o mar. 

Em Trail Creek em Sun Valley, Idaho, EUA, há um memorial em homenagem a Hemingway onde estão insculpidas as palavras que ele escreveu para um amigo que havia morrido, mas que poderiam servir a ele próprio: 

“Amava as folhas amarelas dos álamos flutuando no canal dos rios. E o azul intenso de um céu sem vento acima das colinas. Agora ele é parte de tudo isso”.

Exemplo de arte para valorizar a cidade

Este belo mural transformou a fachada anônima deste prédio da Rua Mimosastraat, em Amsterdã, Holanda, numa surpreendente estante de livros. 

A obra foi construída pelo artista holandês Jan Is De Man, num trabalho conjunto com o especialista em grafite Deef Feed.

Amigos do artista Jan moravam no prédio e lhe solicitaram que fizesse uma obra de arte na fachada. Depois de estudar a forma do edifício, ele pensou numa estante. Pediu aos vizinhos que indicassem os seus livros favoritos e os pintou, construindo esta belíssima e inspiradora obra de arte!

O comunismo em Cuba

Fomos a Cuba com um saco na bagagem contendo sabonetes, cremes dentais, desodorantes e outros produtos, destinados a um jornalista cubano, namorado de uma amiga de Honduras.

Faltam em Cuba insumos comuns, como óleo de cozinha, ovos, frangos, carnes, produtos de higiene pessoal, entre tantos outros. 

Constatamos tais fatos conversando com as pessoas, vendo os pontos comerciais e as filas para comprar um ou outro produto, rigorosamente controlados pelo governo. 

A situação do país está bem difícil e isso é visível nas ruas, com uma Havana muito decadente e empobrecida. Claro que existem os boicotes econômicos e outras nuances, mas o fato é que a economia fechada, a centralização e o controle do Estado, restringem o número de transações comerciais, o livre-comércio e o empreendedorismo, gerando pouca produtividade e escassez de produtos.

O declínio do comunismo foi simbolizado pela queda do muro de Berlim, em 1989, quando as economias comunistas foram forçadas à abertura de mercado. 

O comunismo nasceu guiado pela utopia da liberdade com igualdade, mas tudo se revelou uma ilusão, como se percebe em Cuba. Claro que há algumas poucas virtudes do sistema cubano, como na educação, segurança, mas em termos econômicos o regime é praticamente um fantasma cujo corpo já desapareceu. 

O fato histórico é que o comunismo acabou. Hoje temos dois países verdadeiramente comunistas: Cuba e Coreia do Norte. No mais, o comunismo continua existindo na mente do guru anticomunista Olavo de Carvalaho e seus seguidores, que confundem, deliberadamente, esquerda e social-democracia com comunismo, e acreditam em pseudo-realidades.

Um pequeno gesto de ternura

Na despedida do hotel onde ficamos nos últimos dias da viagem a Cuba uma delicada surpresa: um bilhete e uma flor de hibisco, deixados pela simpática e sorridente camareira Diana.

Em época de mensagens eletrônicas, receber um singelo bilhete é uma verdadeira relíquia, ainda mais com mensagens como “lhes desejo uma feliz viagem de regresso a casa”, “foi um prazer trabalhar para vocês”, “regressem logo, sua Camareira”.

As pequenas manifestações afetivas no cotidiano tornam a vida melhor. O mundo pode ser duro, mas como diria o “comandante”, precisamos viver “… sem jamais perder a ternura”.