Hemingway e Cuba

O escritor Hemingway é muito querido, quase um mito, em Cuba, onde morou entre 1939 até 1960, com idas e vindas aos EUA, seu país de origem.

Existem museus em sua homenagem; bares, como o La Florida, um dos mais famosos do mundo, habitualmente frequentado pelo escritor; restaurantes possuem fotos sobre ele; há drinks com o seu nome e consta que ele tomava alguns pileques com os “mojitos” do país. 

Hotel Ambos Mundos, onde viveu Hemingway

Cuba foi uma boa fonte de inspiração para o escritor, que estava na obscuridade desde a grande obra “Por quem os sinos dobram”, publicada em 1940. Na ilha ele escreveu o livro “O velho e o mar”, que o devolveu às glórias, com o prêmio Nobel de literatura, em 1954. Foi um livro que marcou a minha fase de leitor jovem/adulto.

Hemingway era uma pessoa muito dura e sensível ao mesmo tempo; era aventureiro, amava os amigos, os livros e o sexo oposto. Amava muito a ilha, que realmente tem uma indefinível beleza, e amava a população local. Dizia que “se você reparar, as pessoas boas sempre foram pessoas alegres”, referindo-se à alegria e bondade do povo cubano.

O escritor gostava de correr atrás dos sonhos, sempre cheio de recomeços. Infelizmente uma depressão o levou ao suicídio, em 1962, e consta que foi porque estava saudoso da ilha.

Nas minhas anotações da viagem percebi que ele foi uma pessoa fascinante, que amava a vida, o mundo, as flores, o céu e o mar. 

Em Trail Creek em Sun Valley, Idaho, EUA, há um memorial em homenagem a Hemingway onde estão insculpidas as palavras que ele escreveu para um amigo que havia morrido, mas que poderiam servir a ele próprio: 

“Amava as folhas amarelas dos álamos flutuando no canal dos rios. E o azul intenso de um céu sem vento acima das colinas. Agora ele é parte de tudo isso”.

Exemplo de arte para valorizar a cidade

Este belo mural transformou a fachada anônima deste prédio da Rua Mimosastraat, em Amsterdã, Holanda, numa surpreendente estante de livros. 

A obra foi construída pelo artista holandês Jan Is De Man, num trabalho conjunto com o especialista em grafite Deef Feed.

Amigos do artista Jan moravam no prédio e lhe solicitaram que fizesse uma obra de arte na fachada. Depois de estudar a forma do edifício, ele pensou numa estante. Pediu aos vizinhos que indicassem os seus livros favoritos e os pintou, construindo esta belíssima e inspiradora obra de arte!

O comunismo em Cuba

Fomos a Cuba com um saco na bagagem contendo sabonetes, cremes dentais, desodorantes e outros produtos, destinados a um jornalista cubano, namorado de uma amiga de Honduras.

Faltam em Cuba insumos comuns, como óleo de cozinha, ovos, frangos, carnes, produtos de higiene pessoal, entre tantos outros. 

Constatamos tais fatos conversando com as pessoas, vendo os pontos comerciais e as filas para comprar um ou outro produto, rigorosamente controlados pelo governo. 

A situação do país está bem difícil e isso é visível nas ruas, com uma Havana muito decadente e empobrecida. Claro que existem os boicotes econômicos e outras nuances, mas o fato é que a economia fechada, a centralização e o controle do Estado, restringem o número de transações comerciais, o livre-comércio e o empreendedorismo, gerando pouca produtividade e escassez de produtos.

O declínio do comunismo foi simbolizado pela queda do muro de Berlim, em 1989, quando as economias comunistas foram forçadas à abertura de mercado. 

O comunismo nasceu guiado pela utopia da liberdade com igualdade, mas tudo se revelou uma ilusão, como se percebe em Cuba. Claro que há algumas poucas virtudes do sistema cubano, como na educação, segurança, mas em termos econômicos o regime é praticamente um fantasma cujo corpo já desapareceu. 

O fato histórico é que o comunismo acabou. Hoje temos dois países verdadeiramente comunistas: Cuba e Coreia do Norte. No mais, o comunismo continua existindo na mente do guru anticomunista Olavo de Carvalaho e seus seguidores, que confundem, deliberadamente, esquerda e social-democracia com comunismo, e acreditam em pseudo-realidades.

Um pequeno gesto de ternura

Na despedida do hotel onde ficamos nos últimos dias da viagem a Cuba uma delicada surpresa: um bilhete e uma flor de hibisco, deixados pela simpática e sorridente camareira Diana.

Em época de mensagens eletrônicas, receber um singelo bilhete é uma verdadeira relíquia, ainda mais com mensagens como “lhes desejo uma feliz viagem de regresso a casa”, “foi um prazer trabalhar para vocês”, “regressem logo, sua Camareira”.

As pequenas manifestações afetivas no cotidiano tornam a vida melhor. O mundo pode ser duro, mas como diria o “comandante”, precisamos viver “… sem jamais perder a ternura”.

Dependentes digitais

Passamos a Semana Santa em Cuba, onde a internet é muito precária e de difícil acesso. Por isso passei uns dias quase que totalmente desconectado. 

Foi uma interessante experiência, numa época em que não largamos mais os nossos smartphones e computadores, e estamos acostumados com as multitarefas digitais.

Nesta semana, horrorizado, fiquei sabendo da Catedral de Notre Dame e do atentado terrorista no Sri Lanka. Nada mais. Na escassez de conectividade, o essencial se distancia do supérfluo e somos obrigados a olhar apenas as principais notícias do mundo.

O lado bom é que foi uma semana mais contemplativa que me permitiu observar mais as pessoas e ter mais convívio off-line.

Os dias ficaram incrivelmente grandes, com tempo para apreciar a cultura de Cuba, ouvir os seus ritmos e curtir mais a sua beleza. Também houve tempo para ler e reler muita coisa boa, vantagem dos livros digitais, que nos acompanham por todos os lados.

Foi bom, mas confesso que dá uma sensação estranha ficar desconectado! Estou acostumado a ver os meus sites preferidos, entre eles os de notícias e fotografias, sem contar a conexão com todos, nas redes sociais. Não sei, mas parece que hoje somos verdadeiros dependentes digitais.

Novo amanhecer, novas esperanças

A madrugada silenciosa foi quebrada aos poucos com os sons dos sabiás, que de repente surgiram aos milhares por aqui, em pleno verão.

Cada fase do dia é um momento único e traz em si mesma o seu modo de ser e existir, mas o amanhecer é sempre especial, com o surgimento de uma nova claridade no horizonte, com diferentes luzes e inspirações para outro dia. 

Cada amanhecer é um presente da vida, com a possibilidade de se fazer algo de novo, de sair da rotina e de ter esperanças de que tudo começará diferente.

O novo Ministro da Educação e os moinhos de vento

O lendário Dom Quixote de La Mancha leu muitas histórias de cavalarias, perdeu o juízo e passou a viver grandes aventuras como cavaleiro andante, na busca de corrigir malfeitos. 

A todo momento ele lutava contra inimigos inexistentes, guerreiros imaginários, e na sua imaginação até os moinhos de vento eram seres vivos; vivia num mundo tão irreal que começou a ver fantasias e obsessões. Ao final, Dom Quixote voltou à razão.

Desde o início, Bolsonaro e sua ala ideológica, estimulados pelo guru Olavo de Carvalho, combatem moinhos de vento e enxergam inimigos que existem apenas em suas imaginações. Lutam contra os fantasmas comunistas, a ideologia de gênero nas escolas, o marxismo cultural, a doutrinação ideológica, o globalismo, entre outras bobagens; ignoram a história universal e a realidade do país. 

Neste contexto, se por um lado foi boa a demissão de Velez do Ministério da Educação, por outro é preocupante a nomeação de Weintraub para substitui-lo, pois ele também é olavista e tem como pauta “combater a ideologia marxista”. 

O ministro nomeado não tem histórico de formulação de políticas públicas para a educação básica e vê comunistas por todos os lados. Disse que  “os comunistas são o topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras; eles são os donos dos jornais; eles são os donos das grandes empresas; eles são os donos dos monopólios…”. Afirmou que foram os comunistas que trouxeram o “crack” para o Brasil. É inacreditável!

Ao invés de ouvir os militares, os gestores, os economistas, Bolsonaro continua acreditando no guru da Virgínia e os seus seguidores radicais. 

Reclamaram da ideologia dos outros e instalaram a mesma obsessão em combater ideologias velhas e inexistentes.

Torço para estar enganado, mas enquanto o governo insistir em combater moinhos de vento através da ideologia, a crise continuará no Ministério da Educação, área essencial para o desenvolvimento do país. Combater inimigos irreais ou insignificantes sempre traz problemas reais. 

Vamos torcer para que o novo ministro governe com perfil técnico. Se continuar a fazer a cruzada cultural vamos retroceder décadas, em grave prejuízo da nossa sociedade.

Um pequeno instante cheio de eternidade

No final da tarde contemplei a árvore que vejo do apartamento onde estamos morando. É uma grande árvore; não sei o seu nome, mas admiro a sua imponência e beleza.

Num mundo cheio de prosa somos convidados a viver com mais contemplação e poesia; respirar um pouco, fazer pequenas fugas. 

Apreciei a grandiosidade daquele instante. Soprava um vento leve que vinha de longe e suavemente balançava as folhas da árvore. 

Numa rua mais distante eu escutava algumas crianças brincando com alegria, deixando o mundo com mais esperança.

O ar estava fresco e no horizonte o céu ficava avermelhado; havia muita luz e algumas poucas nuvens se afastavam.

O sol se escondeu aos poucos; as suas luzes foram filtradas pelas folhas da árvore, iluminando a minha face no final do dia…Foi um pequeno instante, cheio de eternidade.

“Eu moro em mim mesmo”


Mário Quintana foi um grande poeta, dos mais admiráveis que o Brasil já teve. Vivia sozinho, não se casou e nem teve filhos. 

Viveu boa parte da vida em hotéis. Um deles, o Majestic, se tornou patrimônio histórico e hoje é o “Centro Cultural Mário Quintana”, em Porto Alegre.

Reza a lenda que certa vez o grande jogador Falcão soube que Quintana estava com dificuldades financeiras e ofereceu-lhe um quarto num hotel que ele possuía, desculpando-se pelo tamanho do quarto. 

O sábio Quintana respondeu: “Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder minhas coisas”.

Essa filosófica frase “eu moro em mim mesmo” contém a essência do autoconhecimento, da compreensão de si mesmo e da totalidade da nossa existência. Para refletirmos, pois é simplesmente genial!

Nazismo de esquerda

O nazismo não é de esquerda. Nos meios diplomáticos, acadêmicos e políticos internacionais ninguém cai na teoria fantasiosa do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, endossada por Bolsonaro, de que o nazismo foi de esquerda. 

Tanto na Alemanha como em Israel o partido liderado por Hitler é ensinado nas escolas como de extrema-direita, fato que sempre foi confirmado pelos historiadores. 

Os alemães nunca esconderam a sua história. No ano passado o embaixador alemão no Brasil, Georg Witschel, disse que a discussão sobre nazismo de esquerda não tem fundamento e somente pode ser explicada por ignorância ou desonestidade.

Ele afirmou que “não faz sentido jogar a culpa e a responsabilidade do Holocausto em uma determinada tendência política. Foram os nazistas. Com certeza não foram os socialistas”.

Hitler odiava a esquerda e, como lembrou o embaixador, entre as primeiras vítimas do regime nazista estavam os membros de partidos de esquerda, como os sociais-democratas e os comunistas.

A filósofa Hannah Arendt, no clássico livro “Origens do Totalitarismo”, analisa a ascensão dos dois principais regimes totalitários da nossa era: o nazismo, de extrema direita, e o comunismo stalinista, ambos regimes ditatoriais que vitimaram milhões de pessoas

Dizer o contrário é espalhar fake news e negar a história.