A morte de Boechat

Antes de morrer Boechat comentou sobre a sucessão de tragédias no Brasil. Deu destaque para a principal matéria de “O Globo” que mostrou um dado absurdo: 1.774 pessoas morreram ao longo de 12 anos em tragédias que poderiam ter sido evitadas se houvesse mais respeito às regras de segurança e se as leis fossem cumpridas.

Na mesma matéria Boechat citou sobre as últimas tragédias e as mortes no Centro de Treinamentos do Flamengo, ocorrida por conta da negligência e omissão, pois o clube havia sido multado 31 vezes e ainda assim permitiu o funcionamento do centro naquelas condições. 

Grande jornalista e comunicador, Boechat sabia ser o porta-voz da nossa indignação. Sempre condenou a omissão e a negligência que levam a esses acidentes; sempre se indignou com o “jeitinho” brasileiro, com costume de “empurrar com a barriga” as fiscalizações e a tomada de providências, diante dos muitos interesses políticos e econômicos que entram em cena. 

As suas “pensatas” eram sempre geniais. Era uma voz presente na vida de todos, num momento em que vivemos muitos lutos, por mortes abruptas, causadas por tragédias evitáveis.

Boechat representava o povo nas suas observações e críticas. A sua morte de forma trágica é muito triste! Foi uma grande perda para o Brasil! Que início de ano!

Recordar é viver!

Nas mais antigas recordações da minha infância estão os caminhos montanhosos que me levavam até a escola primária, onde estudei por quatro anos. 

Quando chegava o inverno os belos campos cobriam-se de orvalhos esbranquiçados, manchados de flores de São João. No verde-claro das montanhas também surgiam os ouros dos ipês e, de longe, destacava-se o planalto azul, com os seus vales profundos.

Naquela imensidão verde, eu gostava de observar os Cipós de São João, uma planta silvestre, cheia de flores alongadas e alaranjadas, que produz grandes inflorescências nos meses frios. É uma planta normal, mas ela dava um colorido todo especial àquela paisagem e também à minha infância. 

Por aqui o cipó de S. João é muito usado para cercas, muros e pérgolas. Sempre que vejo esta planta eu trago as mais antigas recordações da minha infância; dos tempos em que corríamos atrás das borboletas, que invadiam os nossos caminhos. A vida era mais colorida com aquelas borboletas amarelas, azuis e vermelhas. Eram bons tempos; caminhávamos dando pulinhos, despreocupados com o mundo e com os rumos da humanidade.

Há muitas flores no mundo, e a flor de S. João não é a mais bela; no Brasil nem é tão conhecida. Mas sempre que vejo uma, ela enriquece o meu dia. 

Ela me faz relembrar com alegria essa eterna paisagem da minha infância, que me leva para as manhãs mais antigas. Recordar é viver!

Está difícil, mas é preciso sorrir, cantar e sonhar

Mais uma tragédia ocorreu no Brasil, agora no centro de treinamento do Flamengo, onde 10 adolescentes morreram queimados, vítimas da negligência e do descaso.

Esta ano está cheio de tragédias e por isso está difícil sorrir, cantar e sonhar!

Já sonhei muito acordado. Sonhei que um país tão rico como o Brasil pudesse nos dar a chance de acreditarmos na liberdade e na igualdade; que tivesse mais diálogo e menos preconceito; mais solidariedade, respeito ao outro e mais amor. Tudo parece tão simples, mas a realidade insiste em mostrar que não é bem assim, contrariando os nossos sonhos.

Sonhei com um país onde uns cuidassem dos outros, e cada um cuidasse do seu espaço. 

Sonhei com um país onde todos (pessoas, instituições, empresas e governos) tivessem plenas noções das suas responsabilidades; que ninguém esperasse a ocorrência de tragédias para falar em “apuração de causas”, “de protocolos de segurança” e “de prevenção de fatalidades”. Quando se fala em vidas humanas ninguém pode gastar menos para ganhar mais; ou fazer menos do que deve ser feito. 

Sempre sonhei muito acordado, mas confesso que estamos passando por um período difícil de sorrir, cantar e sonhar. 

Mas… apesar das desilusões que insistem em bater em nossas portas, sonhar é preciso, pois “de sonhar ninguém se cansa”, já dizia Pessoa. É preciso envelhecer sorrindo; lutar sempre, acreditar noutra vida e noutro mundo. 

Escrevo esta reflexão no intervalo do meu almoço. Para escrever eu precisava de uma “estrela amiga” e contei com a “Canção do Novo Mundo”, de Beto Guedes: “Profundas raízes vão crescer/A luz das pessoas me faz crer/Eu sinto que vamos juntos/ohh, nem o tempo amigo/Nem a força bruta/Pode um sonho apagar”.

A força bruta não pode tirar os nossos sorrisos, os nossos sonhos e a nossa vontade de cantar. Esses são os nossos remédios para a fuga da tristeza humana; essas são as nossas armas para lutar por um mundo melhor. Por isso sigamos com fé! É preciso sorrir, cantar e sonhar!

Uma grande mulher, um lindo poema

Ao ver esta foto de Angelina Jolie, enviada espacial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), numa entrevista a jornalistas na sua luta em defesa dos mais de 700 mil refugiados rohingya, em Bangladesh, impossível não evocar o poema “O mar dos meus olhos”, de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919/2004):

“Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma.”

in “O mar dos meus olhos”,  Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética

Photograph: Munir Uz Zaman/AFP/Getty Images

Perplexidades na Educação do país

Todos sabemos que o Brasil possui milhões de crianças e adolescentes fora da escola e que temos péssimos índices nos rankings mundiais de qualidade da Educação.

Contudo, nas pautas prioritárias do Ministério da Educação, neste início de governo, estão a mudança na legislação para permitir a educação domiciliar; alterações nos métodos de alfabetização praticados pelos professores, com priorização do velho método fônico (beabá-bá, “Ivo viu a uva”) e a defesa das aulas de moral e cívica, impostas pela ditadura.

Para piorar, toda vez que dá entrevistas, o ministro da Educação Ricardo Vélez se envolve em polêmicas. 

Numa entrevista à Veja atribuiu ao cantor Cazuza a frase “Liberdade é passar a mão no guarda”. Diante da repercussão negativa e da ameaça de ser processado, Velez ligou para a mãe de Cazuza e se desculpou. 

Nessa mesma entrevista o ministro olavista disse que o “brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião…”. Ficou chato, porque o brasileiro via de regra é trabalhador e honesto. 

Em entrevista ao Valor, o ministro disse que que as universidades “devem ficar reservadas para uma elite intelectual”, declaração absurda e que dispensa qualquer comentário. 

Para quem acredita que o Ministério da Educação é o setor mais importante para o desenvolvimento de um país e que o ministro da Educação ocupa uma posição política das mais relevantes, a reação que se tem a tudo isto é de perplexidade. Tudo é lamentável, para se dizer o mínimo!

Uma ilustre visita

Estava no meu gabinete de trabalho, um tanto desiludido com o que se passa no mundo dos homens, e eis que surgiu algo realmente importante. 

Recebi a ilustre visita de duas rolinhas. Elas olharam para mim um pouco desconfiadas, mas me permitiram uma foto de longe. 

Depois da foto fiquei quieto e elas me acompanharam por mais um tempo; eu trabalhando de um lado, elas olhando do outro. De vez em quando eu pensava nos pássaros e na natureza.

Com tanta coisa estranha que estamos vendo no mundo dos homens, às vezes é bom pensar no mundo dos pássaros. Eles voam alto, enxergam de cima e cantam. 

Confesso que elas me encheram de alegria e mostraram que a vida não se resume à intensidade e à toxidade das notícias diárias; tampouco aos problemas e às intolerâncias do mundo. Sempre há coisas belas ao nosso alcance. 

Foi bom receber esta singela visita. Foi um recadinho da natureza, que insiste em nos mostrar coisas boas e a enriquecer o mundo de beleza. 

A todo instante somos prisioneiros das notícias e sempre voltamos os nossos olhos para baixo ou para a frente, nos teclados; mas é um alento olhar para o lado, para o céu e enxergar a beleza da vida!

A importância do luto

O desastre causado pela Vale me fez refletir sobre a importância do luto, da despedida eterna, do derradeiro abraço.

Vivi a impossibilidade do luto presencial por duas vezes. A primeira em 2006, quando faleceu o meu pai, e em novembro do ano passado, quando repentinamente morreu o meu irmão Luiz, mais velho que eu. Nas duas situações eu estava em missão fora do país e não pude me despedir deles. O apoio dos familiares e amigos foi essencial naqueles momentos de impotência e extremo sofrimento. Posso garantir: não dar o último adeus presencial àqueles que mais amamos dói muito e é uma dor que volta de vez em quando.

Depois do luto presencial e da despedida, a tristeza vai passando aos poucos; transforma-se em saudades e boas lembranças. O nosso repertório emocional se readapta, transitando de um intenso sofrimento de dor, para outro mais alegre e suave. 

Contudo, pior do que não viver o luto presencial, é não encontrar o corpo do ente querido para fazê-lo, como na tragédia em MG. O sofrimento de uma família que ainda não encontrou o corpo, ou jamais vai encontrá-lo, é uma dor atroz que se prolonga no tempo; não cessa tão cedo, ou jamais cessará. 

Para piorar o sofrimento, nesses casos os familiares ainda precisarão obter judicialmente a declaração de “morte presumida”, para que o morto seja efetivamente declarado como morto, com aumento da dor de cabeça, da burocracia, da revolta, e claro, da dor espiritual. 

É lógico que qualquer que seja a situação, o que mais conforta é se você viveu intensamente com o ente querido e fez tudo o que tinha que fazer com ele. Mas dar o último adeus sempre é essencial para uma boa despedida e para a paz no espírito. 

O fato é que a estas alturas os mortos já estão em paz. Que a paz fique no coração dos familiares que estão vivos.

Responsáveis por Brumadinho

Dentre os responsáveis pela tragédia praticada pela Vale, em Brumadinho, há dois principais: a empresa Vale, com a sua ganância desmedida, e o Poder Público, com as suas negligências.

A Vale não fez o que deveria ter feito e demonstrou total ganância e falta de escrúpulos. Agora, bastou perder 71 bilhões em um dia na Bolsa de Valores que rapidamente anunciou 5 bilhões para desativar as suas barragens de risco. Por que não fez isso antes? 

O Poder Público, por sua vez, mesmo com o episódio de Mariana, fechou os olhos às evidências de outras catástrofes. Teve de tudo em termos de omissões: falta de ação da Agência Nacional de Mineração; parlamentares que fizeram (e fazem) o jogo sujo em prol das empresas; concessão a lobistas que impediram de levar adiante projetos de segurança nas barragens; autorizações indevidas (p. ex. o governo de Pimentel autorizou a Vale a ampliar as suas atividades na área do desastre); falta de fiscalização (é preciso haver multas pesadas e parar com essa conversa fiada de “indústria das multas”), entre outras.

Os engenheiros que foram presos até podem ser responsabilizados, na medida de suas culpas, mas os principais responsáveis não são eles. Correm o risco de se transformarem apenas em bodes expiatórios. 

Não adianta prender alguns, esperar o caso esfriar, e deixar a lama correndo como sempre. Nas questões ambientais não dá para desburocratizar e flexibilizar como prometeu o novo Governo. É preciso manter a geração de empregos, mas precisamos cuidar da vida e do meio ambiente, com desenvolvimento sustentável.

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Charge do Chico Caruso

Cidadãos e “cidadões”

A piada da vez foi que numa entrevista o Presidente do INEP, encarregado do ENEM, falou “cidadões”.

Apesar do grave erro, não quero jogar pedras porque a língua portuguesa é sempre traiçoeira. O plural então? Esse engana até os mais avisados. 

Os erros com o português falado são constrangedores, principalmente em entrevistas públicas, porque as palavras ditas não voltam. Errou, ferrou! 

Já em relação ao português escrito é mais fácil prevenir os erros e existem duas fórmulas essenciais para se evitá-los: obviamente a primeira é conhecer bem a norma culta e a segunda é revisar, revisar e revisar o texto escrito. Ainda assim os escorregões acontecem.

Lembro-me de um caso do tempo em que eu era Professor da rede estadual, há mais de 30 anos, na época em que os professores ainda faziam greves. Estávamos em greve e o Secretário da Educação na época era um homem culto até no nome: Chopin Tavares. Ele não queria dar nenhum aumento salarial, havia um grande impasse e os mestres estavam bravos. Durante uma das negociações com os professores grevistas ele deixou escapar a frase “a gente negoceia”. 

O equívoco foi um prato cheio para os professores grevistas, que não perdoaram o escorregão e passaram a vingar-se do secretário entoando, em passeatas nas ruas de São Paulo, o seguinte refrão: “aí vareia, aí vareia, o Secretário fala negoceia”. Perde-se o amigo, mas não a piada…

Mas voltando ao Presidente do INEP, como lembrou José Simão, agora os candidatos do ENEM, ao invés de escrever que “os irmãos dos cidadãos são cristãos”, poderão escrever “os irmōes dos cidadōes sāo cristōes!”. Afinal, aí “vareia”, né?

A tragédia em Brumadinho

Brumadinho. Uma triste imagem para a história!

Os neoliberais dizem que as questões ambientais atrapalham o desenvolvimento. O novo governo, até então, era a favor de flexibilizar o licenciamento ambiental, permitir o auto-licenciamento das empresas e outras coisas mais.

Vamos ver se agora, com a tragédia do descaso, causada pela omissão, pela irresponsabilidade e pelo negligência com a vida humana, o poder público fiscalize todas as barragens e atividades das mineradoras.

É preciso enfrentar o desrespeito do setor privado com as vidas humanas e com o meio ambiente. Nessa questão o setor público precisa ter forte ação reguladora, fiscalizadora e punitiva. Não há outro caminho!

Foto: Adriano Machado/Reuters