Influencers digitais em defesa da democracia

Não conheço bem a Anitta e nem o Felipe Neto, mas sei que são pessoas que fazem comunicação direta com milhões e milhões de jovens de todas as classes sociais. 

Ambos estão se posicionando em relação a política e expandindo o debate em defesa da democracia.

A iniciativa é importante, seja pelo grave momento político que vivemos, seja porque todos precisamos participar da política; afinal ela rege as nossas vidas. 

No início da democracia, em Atenas, Grécia (V a.C.), os democratas Protágoras, Aspásia e outros, chamavam de “idiotas” (Ιδιώτες) as pessoas que diziam não ter tempo para participar da vida da democracia, pois estavam muito ocupadas com os seus afazeres e os seus negócios. 

Não se trata de uma questão de esquerda ou direita. Não podemos ser omissos diante da grave crise contra a democracia e contra a saúde pública praticadas pelo governo Bolsonaro. O momento é de união. 

Por isso, é alentador ver jovens protagonistas discutindo a vida democrática e a política, num momento em que muitos representantes das classes políticas, ou estão acovardados, ou estão pensando nos seus interesses.

Que venham Anitta, Felipe Neto e inspirem tantos outros a somarem esforços e mobilizações em defesa da democracia, da liberdade e das grandes causas nacionais.

As forças democráticas precisam se impor

Aqueles, com eu, que nasceram na primeira metade da década de 60, cresceram e conviveram com o Regime Militar. 

Quem não era alienado ou apoiador do regime sabe bem o pesadelo que foi. As notícias que vinham dos porões de tortura; os desaparecimentos; as eleições indiretas; a total falta de liberdade. A palavra “subversivo” era muito comum entre nós para designar um gesto ou expressão que pudesse nos colocar em risco. 

Somos de uma época que não tínhamos partidos políticos, então proibidos. Eram apenas dois partidos MDB e Arena. Não tínhamos partidos, mas tínhamos esperanças. Aprendemos a alimentar um sonho de Brasil, de um país para todos; moderno, que priorizasse a educação e a saúde; que tivesse com menos desigualdade social; que preservasse a Amazônia e respeitasse os povos indígenas.

Aos poucos, num longo processo, sopraram os ventos da liberdade. Canções como “O Bêbado e o Equilibrista” de Aldir Blanc, que acaba de nos deixar, nos embalavam nos sonhos de esperança. Fomos para as ruas pedir diretas. A democracia e a liberdade chegaram depois de uma longa luta do povo brasileiro. 

A nossa democracia sobreviveu. O processo democrático se fortaleceu com eleições regulares. Tivemos decepções com sucessivos governos, houve dois impeachments, mas história recente traz um saldo positivo do fortalecimento das instituições como Forças Armadas, Legislativo, Judiciário, Ministério Público, Polícias. Enfim todos os poderes e instituições ficaram fortalecidos, funcionando sob a égide de uma Constituição legítima e democrática.

Até que chegou Bolsonaro. Ele foi eleito depois de uma tempestade perfeita, com inúmeros fatores que o levaram ao poder, como lavajatismo, decepção com o PT, movimentos religiosos, corrupção, entre outos. Chegou atacando diariamente o nosso bem mais precioso e duramente conquistado: a nossa democracia.

Mais que atacar a democracia, com Bolsonaro perdemos muito em termos de institucionalidade, de degradação do debate público, de organização social, de redes comunitárias. Com ele estamos perdendo a nossa tão duramente conquistada democracia.

Mais do que atentar contra as instituições democráticas, de uns tempos para cá Bolsonaro começou a participar diretamente de atos golpistas, como no último dia 03 de maio, criando entre todos o pesadelo de um golpe militar. Bolsonaro não tem limites. Atenta contra a democracia e boicota o isolamento social.  Diz “a Constituição sou Eu”, “quem manda sou Eu” e gosta de perguntar “e daí?”. 

Mesmo com todas as barbaridades que têm feito, Bolsonaro segue com os aplausos de uma minoria. Alguns são dominados pelo fanatismo e são agressivos com jornalistas e profissionais da saúde.

Bolsonaro quer mudar o regime e governar sem as instituições democráticas. Avança e recua. Testa limites. As Forças Armadas e o Congresso Nacional estão fazendo de conta que nada está acontecendo. Até quando as instituições democráticas vão deixá-lo avançar?

Está na hora das Forças Armadas desembarcarem desse governo pena de correr o risco de uma imensa e histórica desmoralização. 

As forças democráticas precisam se impor. Não podemos, depois de tão pouco tempo do fim do triste período da ditadura, retroceder no processo civilizatório. Isso não vai acontecer. A nossa democracia vai resistir. Depois desse pesadelo todo, quando Bolsonaro se for de vez, diremos à toda voz: “Bolsonaro nunca mais”.

Bolsonaro em ato antidemocrático no dia 26 de abril.
Bolsonaro participando de ato antidemocrático no último dia 03/05.

Tempo do fazer e do ter x tempo do ser e do estar.

Antes da pandemia estávamos acostumados ao tempo do “fazer” e do “ter”. Tudo mudou durante o isolamento. Desacelerados, o tempo já não é mais medido como antes. 

Que dia é hoje? Que horas são? As horas são confusas e os dias se atropelam entre ontem, hoje e amanhã. A noção do tempo se mistura. 

Perdemos as rotinas daquelas atividades que separavam os fins de semana dos dias normais. Às vezes fica a impressão que não há fins de semana ou dias úteis.

A alteração da rotina tem gerado mudanças nas nossas vidas. Desacostumados com o tempo disponível, ficamos desorientados e nos perdemos; às vezes até levamos mais tempo para concluir as nossas tarefas. 

Tenho aproveitado toda essa situação para refletir sobre o real valor do tempo na minha vida. Paro, penso e faço perguntas a mim mesmo: por que não temos tempo para fazer as coisas que gostamos? O que tem acontecido com o tempo? Quais são e quais serão as prioridades na minha vida? O que me falta? 

Depois que tudo passar, como conduzirei melhor o tempo? Quais leituras vou priorizar? Quais músicas quero ouvir? Vou meditar mais? Vou ter mais paciência com a espera? E com as pessoas? Com quem quero me relacionar mais e melhor? Como vou sentir melhor o tempo?

Eu sei que estamos acostumados ao tempo do “fazer” e do “ter”. É difícil mudar hábitos de vida. Mas a pandemia está nos trazendo uma oportunidade única e preciosa de priorizarmos as nossas escolhas. É um momento de aprendizados e, quem sabe, de reintegrarmos às nossas vidas o tempo do “ser” e do “estar”. Ainda há tempo!

Renascer e renascer até a morte.

Os velhinhos fazem parte das emocionantes imagens daqueles que se recuperam da Covid-19. Aplaudidos por médicos, enfermeiros e cuidadores, a cada dia eles saem dos hospitais, de volta ao show da vida.

Numa rápida busca no Google dá para ver vários velhinhos centenários que sobreviveram, destacando-se o mais idoso William Lapschier, de 104 anos, do Oregon, EUA.

Nesta semana foi a vez de Julia Dewilde, de 100 anos, que teve alta na Bélgica, e da brasileira Dona Nair Torres Santos.

Entre os que se recuperam estão os centenários, nonagenários, octogenários e idosos em geral. Voltarão para a vida normal e para a convivência familiar. E alguém duvida que muitos continuarão na vida social, com os seus trabalhos e pesquisas?

Como já citei em outro post, dos 15 vencedores do Prêmio Nobel de 2019, 9 eram idosos: três sexagenários, quatro septuagenários, um octogenário e o recordista John Goodenough, Prêmio de Física, com os seus incríveis 97 anos. 

Não sabemos se chegaremos lá, mas a força e o entusiamo de muitos idosos são inspiradores.

O pensador Edgar Morin com os seus 99 anos continua dando palestras e anunciou nesta semana a publicação de um livro de mais de 700 páginas. Morin é um farol neste mundo tão desafiador. 

É também o mestre Morin quem nos ensina que a vida é feita de constantes recomeços e renascimentos. Uma de suas máximas preferidas, citada no livro “Meu Caminho”, é plena de significados: é preciso “renascer e renascer até a morte”.

Julia Dewilde, de 100 anos, que teve alta na Bélgica.
A brasileira Nair Torres Santos.

E daí?

No mesmo dia em que a pandemia batia recorde no Brasil e multidões se aglomeravam nas longas filas da Caixa para escapar da fome, Bolsonaro fazia tiro ao alvo. Ao ser indagado sobre o recorde do número de mortos, ele perguntou: “E daí?”.

E daí que Bolsonaro não está preocupado com aqueles que choram os mortos. Não tem empatia e nem compaixão. Não consegue palavras espontâneas de conforto às famílias das vítimas. 

O mal já está tão impregnado nas suas falas e condutas que virou rotina. Poses de arminhas, elogios a torturadores, deboches sobre a pandemia, comentários atrozes, ataques contra o isolamento social, nada mais lhe parece ser o mal, que já se tornou banal. É o mal como causa do mal, de que nos fala a filósofa Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém”, livro no qual, ao analisar o comportamento insensível do carrasco nazista, ela desenvolveu o conceito de “banalidade do mal”, a face superficial da condição humana. 

E daí? E daí que é preciso intensificar o movimento pelo impeachment, ainda que no meio da pandemia. É preciso parar o inconsequente, o insensível, e o autoritário Bolsonaro. A continuidade de um presidente assim está sendo e será um enorme perigo para o país.

Ajudar nas tarefas da cozinha

Combinei com minha esposa Dani que vou cozinhar mais em casa. Sei das minhas limitações, mas procuro ser colaborativo e senti a necessidade de ajudar mais diretamente na cozinha. Além disso, cozinhar é uma boa terapia em épocas de nervos à flor da pele.

Desde crianças eu e a minha irmã trabalhávamos fora e dávamos os nossos pulos para ter comida em casa. Sempre ajudei como pude. 

Ao longo da vida, morei muito tempo sozinho e fazia a minha própria comida. 

Mas confesso que cozinhar definitivamente é uma arte e nunca foi o meu forte. 

Certa vez deixei o feijão cozinhando na panela de pressão e fui para a escola. Eu tinha uns 13 anos. Ao final do dia, quando voltei, toda a vizinhança estava impressionada e falando alto sobre um cheiro de amendoim torrado que invadia toda a rua. Cheguei em casa e a panela de pressão estava uma imensa bola incandescente, toda queimada, depois de horas com o fogo ligado.

Por várias vezes deixava a água fervendo, saía para a rua, e quando voltava o fundo da caneca estava derretido, com um imenso furo embaixo.

Minha história de cozinheiro é cheia de contratempos, dissabores e muitas histórias. 

Atualmente ficou mais fácil porque a internet ajuda muito, com as receitas e os tutoriais. 

De qualquer forma, decidido a cumprir bem a minha promessa eu tirei um velho e manchado livro da estante, que já me socorreu bastante nos velhos tempos. Chama-se “Guia para a sobrevivência do homem na cozinha”. Ensina até a fritar ovos. Agora vai!😁😉

Tudo já foi dito, mas é preciso dizer de novo

Dia da Terra. Foi o cientista inglês James Lovelock que elaborou a hipótese Gaia segundo a qual o planeta Terra é um imenso organismo vivo, onde todos os elementos interagem-se uns com os outros. Não vivo como nós somos, seres vivos, mas como um sistema complexo, adaptativo e auto-organizado. O nome Gaia é em homenagem à deusa grega, mãe da Terra e dos seres vivos.

Tudo está ligado a tudo, desde um microcosmo quântico até a imensidão do espaço. O homem sempre entendeu que é dono da natureza e que pode dominá-la, mas não é assim. A natureza se vinga de nós, da nossa ciência, da nossa tecnologia e do nosso poder.

Toda vez que há uma catástrofe, voltamos, o nosso olhar para a natureza. Sabemos que nossa forma de explorar a Terra como planeta vivo é nociva. A pandemia do coronavírus é um desses momentos que deveriam trazer muitas lições. 

Não somos apartados da natureza. Ao ser explorada mais do que ela pode dar, a Terra perde o equilíbrio dinâmico e dá sinais de esgotamento, retaliando através de respostas fortes, como nos mostram o aquecimento global; as grandes catástrofes naturais, cada vez mais frequentes, e as pandemias.

Faz tempo que a Terra tem dado esses sinais. O homem conhece a fragilidade planetária, mas mesmo assim continua destruindo sem limites. 

A Amazônia brasileira, por exemplo, nunca foi tão destruída, depois que a extrema-direita chegou ao poder, com os desmontes dos órgãos de fiscalização, num governo que cala e consente com as ações predatórias.

Já deveríamos ter aprendido as lições com as nossas dores e sofrimentos. Infelizmente não aprendemos. Como disse o filósofo francês André Guide, “tudo já foi dito, mas, como ninguém ouve, é preciso dizer de novo”.

Um ataque direto contra a democracia

O presidente ultrapassou todos os limites ao participar de um comício favorável a um golpe militar? Será que ele lançou a sorte e, como Júlio César, cruzou o Rubicão? O rio Rubicão separa a Gália e a Itália. Na Roma antiga o Senado proibia a todo general transpor esta fronteira sem autorização. Em 49 a.C. Julio César violou a lei de Roma, declarou guerra ao Senado, atravessou o Rubicão e lançou-se à sorte: ou colocaria fim à sua carreira política ou tomaria o poder. Júlio César gerou guerra, caos, confusão e tomou o poder. 

Qualquer pessoa com mínimas noções de democracia sabe que o presidente ultrapassou todos os limites ao participar de um comício favorável a um golpe militar. 

Depois ele recuou e disse que não era nada contra a democracia. Sempre faz isso: diz e depois desdiz. Morde e assopra. Ultrapassa limites e recua. Vai medindo o terreno. De crise em crise ele avança nas táticas paulatinas de enfraquecimento e destruição da democracia que já foram usadas por Maduro, Orban e tantos outros autocratas. 

Depois ele disse com cinismo: “já estou no poder. Então estou conspirando contra quem?”. Ora, contra os demais poderes, óbvio. O que ele quer é o poder total e absoluto.

Governar a seu bel prazer lhe permitiria tudo, como falsificar números de mortos da pandemia, ditar as políticas autoritárias, censurar a imprensa, controlar os cidadãos. Esse é o sonho de todo autocrata. 

Para reforçar o seu perfil autocrata ele disse “eu sou a Constituição”, de Carl Schmitt, negando a legitimidade constitucional, como se fosse um profeta do povo, confirmando abertamente o seu desejo de ter todos os poderes centralizados nele.

O contexto da pandemia é um campo fértil para avançarmos de vez ao autoritarismo pleno. Bolsonaro é o líder propício para as forças do caos e da normalização do absurdo. 

As instituições estão acuadas e omissas. Limitam-se a fazer “notas de repúdio” que ninguém lê. O inquérito aberto pelo STF não diz muita coisa nesse contexto. 

O povo, por sua vez, está preocupado com as suas vidas e com o futuro; quer tranquilidade, paz e união. Ninguém quer discutir política numa hora dessas. 

Estamos num grande impasse. Mas é preciso acreditar que uma hora o povo brasileiro e as nossas instituições terão forças para interromper o pesadelo do autoritarismo que nos ronda. Não pode demorar. Em jogo estão a liberdade e a democracia, os nossos valores mais absolutos. 

Três registros fotográficos do dia 19/04/2020, que entrará para a história do país como a infame data em que um presidente participou diretamente de um comício contra a democracia, gerando mais instabilidade e pânico para a sociedade brasileira, no meio de uma pandemia com centenas de mortes por dia:

– Foto 1: Bolsonaro participa do protesto contra a democracia, diante do quartel-general do Exército (!), em Brasília. Nas faixas e cartazes os dizeres “Intervenção já, com Bolsonaro no poder”, ou seja, um golpe a favor de Bolsonaro ditador. (foto de Gabriela Biló/Estadão).

Foto: Bolsonaro na participação do protesto contra a democracia, diante do quartel-general do Exército, em Brasília. Nas faixas e cartazes os dizeres “Intervenção já, com Bolsonaro no poder”, ou seja, um golpe a favor do próprio Bolsonaro como ditador. (foto de Gabriela Biló/Estadão)
Foto: Protestos de bolsonaristas a favor da ditadura, na Av. Paulista, fechando passagem para ambulâncias (Foto de Nilton Fukuda, Estadão).

Campeões do achismo e do opinionismo

O Brasil sofre do antigo mal do “achismo” e do “opinionismo”, que apresentam soluções simples – e ineficientes – para problemas complexos. As opiniões são feitas com a vaidade de um pavão e a profundidade de um pires. 

Quando o assunto é futebol, política, e outros temas, até que tudo bem. O problema é quando se refere à vida das pessoas. 

Pessoas que nunca leem, nem estudam e nem pesquisam querem dar palpites e achar soluções para tudo. As opiniões tomam o lugar dos estudos, da ciência e do conhecimento. São pitacos por todos os lados. 

Os políticos populistas sempre arrumam remédios milagrosos, dentro da lógica do imediatismo e da esperteza. Renegam a ciência e o bom senso. 

Machado de Assis nunca esteve tão atual com as suas histórias e contos cheios de ironia e humor. 

Quem leu Memórias póstumas de Brás Cubas conhece o seu Emplasto Brás Cubas (capítulo 2), um medicamento ilusório para enganar as pessoas e “aliviar a nossa melancólica humanidade”. 

É dele também o genial conto “A Teoria do Medalhão” (está na internet e é pequeno). É a história de um pai que vai orientar o filho, que completou 21 anos, a viver. 

O objetivo é fazer o jovem sair da “obscuridade comum” para se tornar um medalhão. Mas ao invés de ensinar ao filho a importância do conhecimento e dos valores, ele o ensina a ser competitivo e esperto. 

Nada de “ideias”, “livros”, “filosofia” ou “imaginação”. O filho precisa aprender a “vencer na vida” e para isso precisa ser esperto, decorar “frases feitas”, “ter visibilidade”; a pertencer à política, mesmo sem ter ideias. 

O conto é uma sátira incrível à mediocridade intelectual e social em que vivemos. É a malícia versus inteligência; a esperteza e a obtusidade contra o conhecimento. Esse primitivismo mental leva ao desprezo pelo outro e pela vida… 

Estamos vendo que além do coronavírus ainda temos que enfrentar o mal da estupidez, que tanto nos assola.

Remédios populistas

Na mitologia grega Panaceia era deusa da cura e conseguia ter remédio para todas as enfermidades. Por isso usamos o termo para designar a cura para todos os males. 

A panaceia é o remédio preferido dos populistas. Bolsonaro, também chamado Messias, se sente um verdadeiro criador de seitas medicinais que ferem a saúde pública. Já falou da fosfoetanolamina, a pílula do câncer, e agora inventou o milagre para o coronavírus: a hidroxicloroquina. Populistas atentam contra o bom senso e contra a saúde pública.

Os brasileiros estariam mais confortáveis se tivessem na presidência uma liderança minimamente preparada e inteligente. Nem precisaria ser um estadista, mas alguém com pelo menos um pouco de bom senso. Infelizmente não temos. Isso torna o enfrentamento à pandemia terrivelmente mais penoso, instável e arriscado.

Desde o início Bolsonaro despreza o distanciamento social recomendado pela OMS, pela maioria dos cientistas, pelo seu ministério da Saúde e pelos chefes de Estado de todo o mundo. Chamou a pandemia de “gripezinha”, “resfriadinho”.

Também não é novidade que os pronunciamentos de Bolsonaro desinformam e jogam fora os esforços nacionais de levar a quarentena mais a sério, única medida capaz de evitar um verdadeiro genocídio na população brasileira. Ele boicota, ele sai para a rua, ele desafia até o bom senso.

Bolsonaro tem apostado no milagroso remédio da cloroquina para o tratamento do covid-19. Em pronunciamento citou o cardiologista Roberto Kalil que tomou cloroquina em seu tratamento contra a doença. 

Quem leu Memórias póstumas de Brás Cubas, do genial Machado de Assis, conhece o seu Emplasto Brás Cubas (capítulo 2), um medicamento ilusório para enganar as pessoas e “aliviar a nossa melancólica humanidade”.

Não dá para apostar que a cloroquina será a solução para a pandemia. Estudos científicos estão sendo realizados em várias partes do mundo e não há comprovação científica de sua eficácia. O CDC americano, órgão responsável pelo controle da epidemia, recuou nas recomendações no uso da droga. 

Ninguém é contra remédios que possam salvar vidas. Se os médicos recomendam a cloroquina (e outros), e se os pacientes consentem, eles devem ser usados, ainda que de forma experimental.

Mas sem comprovação científica não é possível a recomendação em larga escala. A ciência não vive de crenças e ilusões. Precisa de pesquisas sérias, trabalho duro, experimentações e evidências que demonstrem a eficácia do tratamento, antes de recomendá-lo para todos. Isto leva tempo. 

O que não dá é para alimentar a falsa esperança de que foi encontrada a cura para uma pandemia que ainda está longe do pico, e trazer para a população brasileira o risco de uma falsa crença de normalidade, como infelizmente já está começando a acontecer. Isso coloca em gravíssimo risco a saúde pública. A estupidez agora pode ser ainda mais letal.