Um ataque direto contra a democracia

O presidente ultrapassou todos os limites ao participar de um comício favorável a um golpe militar? Será que ele lançou a sorte e, como Júlio César, cruzou o Rubicão? O rio Rubicão separa a Gália e a Itália. Na Roma antiga o Senado proibia a todo general transpor esta fronteira sem autorização. Em 49 a.C. Julio César violou a lei de Roma, declarou guerra ao Senado, atravessou o Rubicão e lançou-se à sorte: ou colocaria fim à sua carreira política ou tomaria o poder. Júlio César gerou guerra, caos, confusão e tomou o poder. 

Qualquer pessoa com mínimas noções de democracia sabe que o presidente ultrapassou todos os limites ao participar de um comício favorável a um golpe militar. 

Depois ele recuou e disse que não era nada contra a democracia. Sempre faz isso: diz e depois desdiz. Morde e assopra. Ultrapassa limites e recua. Vai medindo o terreno. De crise em crise ele avança nas táticas paulatinas de enfraquecimento e destruição da democracia que já foram usadas por Maduro, Orban e tantos outros autocratas. 

Depois ele disse com cinismo: “já estou no poder. Então estou conspirando contra quem?”. Ora, contra os demais poderes, óbvio. O que ele quer é o poder total e absoluto.

Governar a seu bel prazer lhe permitiria tudo, como falsificar números de mortos da pandemia, ditar as políticas autoritárias, censurar a imprensa, controlar os cidadãos. Esse é o sonho de todo autocrata. 

Para reforçar o seu perfil autocrata ele disse “eu sou a Constituição”, de Carl Schmitt, negando a legitimidade constitucional, como se fosse um profeta do povo, confirmando abertamente o seu desejo de ter todos os poderes centralizados nele.

O contexto da pandemia é um campo fértil para avançarmos de vez ao autoritarismo pleno. Bolsonaro é o líder propício para as forças do caos e da normalização do absurdo. 

As instituições estão acuadas e omissas. Limitam-se a fazer “notas de repúdio” que ninguém lê. O inquérito aberto pelo STF não diz muita coisa nesse contexto. 

O povo, por sua vez, está preocupado com as suas vidas e com o futuro; quer tranquilidade, paz e união. Ninguém quer discutir política numa hora dessas. 

Estamos num grande impasse. Mas é preciso acreditar que uma hora o povo brasileiro e as nossas instituições terão forças para interromper o pesadelo do autoritarismo que nos ronda. Não pode demorar. Em jogo estão a liberdade e a democracia, os nossos valores mais absolutos. 

Três registros fotográficos do dia 19/04/2020, que entrará para a história do país como a infame data em que um presidente participou diretamente de um comício contra a democracia, gerando mais instabilidade e pânico para a sociedade brasileira, no meio de uma pandemia com centenas de mortes por dia:

– Foto 1: Bolsonaro participa do protesto contra a democracia, diante do quartel-general do Exército (!), em Brasília. Nas faixas e cartazes os dizeres “Intervenção já, com Bolsonaro no poder”, ou seja, um golpe a favor de Bolsonaro ditador. (foto de Gabriela Biló/Estadão).

Foto: Bolsonaro na participação do protesto contra a democracia, diante do quartel-general do Exército, em Brasília. Nas faixas e cartazes os dizeres “Intervenção já, com Bolsonaro no poder”, ou seja, um golpe a favor do próprio Bolsonaro como ditador. (foto de Gabriela Biló/Estadão)
Foto: Protestos de bolsonaristas a favor da ditadura, na Av. Paulista, fechando passagem para ambulâncias (Foto de Nilton Fukuda, Estadão).

Campeões do achismo e do opinionismo

O Brasil sofre do antigo mal do “achismo” e do “opinionismo”, que apresentam soluções simples – e ineficientes – para problemas complexos. As opiniões são feitas com a vaidade de um pavão e a profundidade de um pires. 

Quando o assunto é futebol, política, e outros temas, até que tudo bem. O problema é quando se refere à vida das pessoas. 

Pessoas que nunca leem, nem estudam e nem pesquisam querem dar palpites e achar soluções para tudo. As opiniões tomam o lugar dos estudos, da ciência e do conhecimento. São pitacos por todos os lados. 

Os políticos populistas sempre arrumam remédios milagrosos, dentro da lógica do imediatismo e da esperteza. Renegam a ciência e o bom senso. 

Machado de Assis nunca esteve tão atual com as suas histórias e contos cheios de ironia e humor. 

Quem leu Memórias póstumas de Brás Cubas conhece o seu Emplasto Brás Cubas (capítulo 2), um medicamento ilusório para enganar as pessoas e “aliviar a nossa melancólica humanidade”. 

É dele também o genial conto “A Teoria do Medalhão” (está na internet e é pequeno). É a história de um pai que vai orientar o filho, que completou 21 anos, a viver. 

O objetivo é fazer o jovem sair da “obscuridade comum” para se tornar um medalhão. Mas ao invés de ensinar ao filho a importância do conhecimento e dos valores, ele o ensina a ser competitivo e esperto. 

Nada de “ideias”, “livros”, “filosofia” ou “imaginação”. O filho precisa aprender a “vencer na vida” e para isso precisa ser esperto, decorar “frases feitas”, “ter visibilidade”; a pertencer à política, mesmo sem ter ideias. 

O conto é uma sátira incrível à mediocridade intelectual e social em que vivemos. É a malícia versus inteligência; a esperteza e a obtusidade contra o conhecimento. Esse primitivismo mental leva ao desprezo pelo outro e pela vida… 

Estamos vendo que além do coronavírus ainda temos que enfrentar o mal da estupidez, que tanto nos assola.

Remédios populistas

Na mitologia grega Panaceia era deusa da cura e conseguia ter remédio para todas as enfermidades. Por isso usamos o termo para designar a cura para todos os males. 

A panaceia é o remédio preferido dos populistas. Bolsonaro, também chamado Messias, se sente um verdadeiro criador de seitas medicinais que ferem a saúde pública. Já falou da fosfoetanolamina, a pílula do câncer, e agora inventou o milagre para o coronavírus: a hidroxicloroquina. Populistas atentam contra o bom senso e contra a saúde pública.

Os brasileiros estariam mais confortáveis se tivessem na presidência uma liderança minimamente preparada e inteligente. Nem precisaria ser um estadista, mas alguém com pelo menos um pouco de bom senso. Infelizmente não temos. Isso torna o enfrentamento à pandemia terrivelmente mais penoso, instável e arriscado.

Desde o início Bolsonaro despreza o distanciamento social recomendado pela OMS, pela maioria dos cientistas, pelo seu ministério da Saúde e pelos chefes de Estado de todo o mundo. Chamou a pandemia de “gripezinha”, “resfriadinho”.

Também não é novidade que os pronunciamentos de Bolsonaro desinformam e jogam fora os esforços nacionais de levar a quarentena mais a sério, única medida capaz de evitar um verdadeiro genocídio na população brasileira. Ele boicota, ele sai para a rua, ele desafia até o bom senso.

Bolsonaro tem apostado no milagroso remédio da cloroquina para o tratamento do covid-19. Em pronunciamento citou o cardiologista Roberto Kalil que tomou cloroquina em seu tratamento contra a doença. 

Quem leu Memórias póstumas de Brás Cubas, do genial Machado de Assis, conhece o seu Emplasto Brás Cubas (capítulo 2), um medicamento ilusório para enganar as pessoas e “aliviar a nossa melancólica humanidade”.

Não dá para apostar que a cloroquina será a solução para a pandemia. Estudos científicos estão sendo realizados em várias partes do mundo e não há comprovação científica de sua eficácia. O CDC americano, órgão responsável pelo controle da epidemia, recuou nas recomendações no uso da droga. 

Ninguém é contra remédios que possam salvar vidas. Se os médicos recomendam a cloroquina (e outros), e se os pacientes consentem, eles devem ser usados, ainda que de forma experimental.

Mas sem comprovação científica não é possível a recomendação em larga escala. A ciência não vive de crenças e ilusões. Precisa de pesquisas sérias, trabalho duro, experimentações e evidências que demonstrem a eficácia do tratamento, antes de recomendá-lo para todos. Isto leva tempo. 

O que não dá é para alimentar a falsa esperança de que foi encontrada a cura para uma pandemia que ainda está longe do pico, e trazer para a população brasileira o risco de uma falsa crença de normalidade, como infelizmente já está começando a acontecer. Isso coloca em gravíssimo risco a saúde pública. A estupidez agora pode ser ainda mais letal.

Esperançosos e realistas

A pandemia se alastra com bastante velocidade. Demorou mais de 3 meses para atingir 1 milhão de casos no mundo, em 02/04, e dobrou em apenas 13 dias, chegando a 2 milhões de casos no dia 15/04, conforme dados da Universidade Johns Hopkins, dos EUA.

– Por falta de testes, os casos no Brasil estão subnotificados. O primeiro estudo sobre o alcance das infecções, feito pela Universidade Federal de Pelotas e pelo governo gaúcho, e divulgado recentemente, indicou que o número de infectados é pelo menos sete vezes maior do que aquele registrado oficialmente. 

– Segundo especialistas, ainda estamos longe do pico, que deve ocorrer entre maio e junho; e os hospitais públicos de São Paulo e do Rio já estão com os seus leitos de UTI com mais de 70% de ocupação pela Covid-19;

– Os doutores negacionistas, sem analisar as complexidades e todas as variáveis, disseram que o vírus não suporta o calor. No momento estamos com o quentíssimo estado do Amazonas entrando em colapso pelo Covid-19. 

– Acreditava-se que o grupo de risco era só das pessoas maiores de 60 anos, principalmente daquelas com comorbidades. Para contrariar, o vírus mostrou que 25% dos óbitos são de pessoas fora dos “grupos de risco” da doença.

– Os negacionistas fazem muitas comparações com países evoluídos que não adotaram as mesmas medidas restritivas que nós, mas ignoram que eles têm melhor estrutura e adotam outras medidas preventivas, como testes e monitoramentos contínuos, além da conscientização de toda a população.

– No momento as medidas de distanciamento social estão funcionando bem e representam a única maneira de ganharmos mais tempo, para que os sistemas de saúde se estruturem melhor; também para mudar os nossos hábitos e preparar a economia para enfrentar os desafios posteriores. 

– Não dá para iludir que teremos rápido “retorno à vida normal”, nem mesmo no melhor cenário. Vai demorar e nem sabemos como será esse futuro. As medidas de distanciamento serão relaxadas gradualmente pelas autoridades, conforme a existência de testes e do acompanhamento da evolução da pandemia. 

– Quem pode, tem o dever de ficar em casa. Precisamos cair na real de que estamos enfrentando uma realidade de guerra para a qual nunca imaginamos. Isso exigirá muito esforço e resiliência para enfrentarmos os desafios que virão. 

– Enquanto isso temos que acreditar nos estudos científicos. Nem otimismo exagerado, nem pessimismo exagerado. O melhor é ser “cético esperançoso”, já dizia o mestre Suassuna. Sejamos realistas esperançosos

Os ombros suportam o mundo

Para fugir um pouco das notícias abro a minha velha e amarelada “Antologia Poética”, de Carlos Drummond, o nosso poeta maior. 

Leio e releio maravilhas. No meio delas encontro uma preciosidade: o poema “Os ombros suportam o mundo”. O poema foi escrito no período que precedeu a Segunda Guerra, uma época de desânimo com a ascensão dos regimes totalitários. Mesmo diante do irremediável, de uma realidade nua e crua, o poeta tem o dom de nos trazer uma espécie de gratidão pela existência.

O poema enaltece a vida que precisa ser vivida, sem fugas, nem subterfúgios. A brutalidade precisa virar luz. O peso deve virar leveza. A dor se transformar em força, em coragem. Afinal, “os ombros suportam o mundo”. Vale cada verso. 

Os ombros suportam o mundo

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

(Os Ombros Suportam o Mundo – Carlos Drummond de Andrade – Antologia Poética, Ed. José Olympio, 1976, pag. 127)

Adeus Morais Moreira

Neste ano tão difícil, agora perdemos o nosso cantor e compositor Morais Moreira, que tantas alegrias trouxe ao povo brasileiro. 

Seduzido pelas palavras, entre outras coisas belas, ele também nos deixou poesias e cordéis. 

No seu livro “Poeta não tem idade” (Ed. Numa) há o belo cordel chamado “Gonzaga e Dominguinhos”, no qual ele faz homenagem póstuma aos dois artistas (pag. 193):

“Eu não sei se a vida é dura/ou é a gente que é mole/ Um cabra que puxa um fole/ De forma clara e segura,/Além da grande figura/Diante de qualquer mal/Tinha que ser imortal/Trilhando sempre os caminhos/Da luz que nunca se apaga/Outrora foi o Gonzaga,/Agora vai o Dominguinhos”[…]. 

E continua o poeta, habilidoso na métrica e na rima: “A morte não tem idade/Chegando a hora do adeus/Quem vai discutir com Deus? […]“.

Como ele mesmo diz no referido cordel: “Aqui a gente conquista/A eternidade da obra/Já que o tempo não dobra/ À força de um artista…”. 

Quis o destino que agora chegasse a sua vez. Mas o “tempo não se dobra à força de um artista”. Ele também é um imortal e a “sua luz nunca se apaga”. A sua obra abraça o tempo e alcança a eternidade.

A vida traz esperanças

A vida não tem preço. E ela é única. 

O noticiário de mortes e mais mortes nos faz pensar mais na vida. A vida é a sorte que nós temos. Ela é rara, como diz a canção. 

Apesar do terror que estamos vivendo, o Sol brilha todos os dias, os pássaros cantam, as flores se abrem para as luzes, as crianças nascem, o ciclo da vida se renova. 

A vida é uma permanente emoção, como nos mostra a foto de uma enfermeira colocando protetor facial em bebês recém-nascidos, para protegê-los do coronavírus, em um hospital em Samut Prakan, Tailândia.

O milagre da existência e da renovação nos fortalece para resistir ao pavor das ameaças de doenças ou morte. 

A vida pulsa, renasce todos os dias, torna os sonhos possíveis. A vida traz esperanças.

Foto: Rungroj Yongrit/EPA.

“Nada vai acontecer comigo”

A quarentena afrouxou. Sem a menor necessidade, as ruas estão voltando à normalidade, com muitas aglomerações nas ruas, nos comércios, nos calçadões. Até as festas nas residências estão voltando. Que perigo!

As aglomerações continuam por desinformação, ignorância, guerras de narrativas, dificuldades reais das pessoas de ficarem em casa (principalmente nas residências precárias), entre outros motivos. Mas há também a questão da natureza humana.

Há aqueles que acreditam estar imunes aos males e às doenças que nos cercam. Têm a ilusão de controlar a situação e o destino. Possuem crenças ilusórias: “Nada vai acontecer comigo”; “Isso só acontece com os outros”. 

Muitos também têm a tendência de serem autoagressivos, como se verifica com o abuso do álcool, do tabagismo, do sedentarismo, e de outras condutas autodestrutivas. “Não vai acontecer nada”; “Um dia vamos todos morrer mesmo”, dizem. 

São táticas do avestruz, a de negar a realidade ou descumprir aquilo que muda o seu conforto, a sua rotina.

Essas pseudocertezas são as piores inimigas do confinamento e, portanto, da saúde pública. Com elas colocamos em risco a própria vida e a dos outros. 

As falsas certezas dificultam as mudanças de comportamento. A fábula “A raposa e as uvas” é uma boa metáfora neste sentido. Raposa não gosta de uvas, mas a história retrata bem o comportamento de teimosia, de desprezo, de falsas crenças. 

É duríssimo tudo isso que estamos passando. Mas é uma questão de vida ou morte, e estamos falando de milhares, milhões de pessoas. Vivos, depois teremos bons motivos para sair e celebrar a vida. Aqueles que podem, precisam ficar em casa. 

O momento é de sobrevivência; é de cuidar das nossas vidas e respeitar a vida do próximo. É hora de aguçar mais o nosso senso de coletividade.

Gracias, Grazie, Merci, Thank you…Muito obrigado

Aposentado como médico, depois de 40 anos de trabalho, o nigeriano radicado em Londres, Alfa Saadu, saiu da zona de zona de conforto e há algumas semanas foi para o front, na sua missão de salvar vidas.

Saadu (foto 1) foi um dos milhares de médicos e enfermeiros aposentados no Reino Unido que voltaram a trabalhar, após atender o apelo do governo britânico para ajudar no Serviço Nacional de Saúde, que está sofrendo com a falta de funcionários. Estima-se que 25% deles estejam afastados para cumprir isolamento ou por estarem doentes. 

Infelizmente Saadu foi contaminado pelo coronavírus e faleceu aos 68 anos de idade. Segundo o seu filho, ele era uma lenda viva, sempre salvando pessoas na África e na Inglaterra. Morreu cumprindo a sua missão. 

Alfa Saadu, o médico aposentado, que voltou a trabalhar no serviço de saúde de Londres, e morreu vítima do covil-19

A sua história é apenas mais um caso de heroísmo, no meio de tantos outros mundo afora, e que chamam a nossa atenção para a difícil missão dos médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde, que estão no front do combate ao coronavírus.

Os sistemas de saúde têm enfrentado baixas nas suas equipes, que precisam afastar os profissionais contaminados. Esses afastamentos sobrecarregam os demais profissionais que continuam trabalhando. Exaustos, eles também temem por suas vidas, mas seguem firmes nos hospitais e nas UTIs, lutando para que todos nós continuemos a respirar.

Muitos reconhecimentos têm sido feitos a esses heróis, como no caso dos bombeiros de Napoli, Itália, que homenagearam a equipe médica do hospital Cardarelli (foto abaixo)

A humanidade será eternamente grata a esses exaustos profissionais. A eles, e a todos os demais que estão no front, a nossa solidariedade e muitas preces para que tenham resiliência. A eles o nosso abraço, o nosso amor, muitas flores e eterna gratidão.

Foto de Ciro Fusco/EPA

A pandemia das incertezas

“Não podemos escapar das incertezas” (Edgar Morin”

A pandemia do coronavírus nos traz um quadro assombroso de incertezas e nos desafia a cada momento. 

Não sabemos como e até quando a epidemia se alastrará em cada país; não sabemos, depois que ela acabar, se haverá ou não novas ondas da epidemia; desconhecemos a cura para a doença, e nem sabemos quando vamos obtê-la.

Tampouco imaginamos quais serão as consequências políticas, econômicas e sociais da crise. As projeções preliminares é de que elas serão brutais, com cenários de recessão, redução da atividade econômica, altas taxas de desemprego, aumento da pobreza, endividamentos, entre outras tantas, todas desafiadoras para o futuro.

Tudo é incerteza em relação ao futuro, seja próximo ou mais distante, e enfrentar as incertezas do amanhã é um grande desafio. A nossa cultura sempre está em busca de certezas. Sempre temos dificuldades em aceitar as incertezas e em analisar as complexidades dos fenômenos, com todas as suas implicações; não sabemos como lidar com crises multifacetadas. 

As dificuldades em analisar as incertezas fazem parte da nossa eterna crise de percepção, já analisada por muitos pensadores. Mas, como nos lembra  Edgar Morin, o grande mestre da complexidade: “não podemos escapar das incertezas”.

No Brasil, infelizmente a crise trouxe uma certeza: a da demora

No campo da tomada de decisões tudo também foi marcado por incertezas no Brasil. Demoramos preciosos dias para decidir se fazíamos ou não a quarentena. Ainda bem que estamos num estado federativo que permite decisões autônomas e descentralizadas, pois o presidente da República relutava em decidir a favor da quarentena. Foi intenso o (falso) dilema entre escolher saúde ou economia para fazer ou não o isolamento social; acentuaram-se as discussões sobre isolamento vertical ou horizontal, entre tantas outras. 

Felizmente, mesmo perdendo tempo, o sistema federativo permitiu que houvesse consensos na tomada de decisões e conseguimos ganhar precioso tempo para o início da quarentena em quase todos os estados antes mesmo do dia 25/03.

Todas essas dicotomias foram desafiadoras num primeiro momento, sobretudo por conta do despreparo, da ignorância e das disputas políticas. Mas não deveriam ter sido, pois fizeram o Brasil perder precioso tempo para um diálogo entre o governo federal, os governos dos estados e os municípios visando buscar soluções coordenadas e conjuntas para enfrentar emergencialmente a crise. 

Vejamos suscintamente o desenrolar desse período de indecisões e incertezas: 

1) Muitos estados e municípios entraram em quarentena a partir da segunda quinzena de março, sobretudo a partir do dia 20. O quadro a seguir, publicado na Folha de S. Paulo, mostra que a maioria dos estados da federação fecharam as escolas antes do dia 20/03. Mostra ainda que até o dia 25/03 em todos os estados o comércio já estava fechado. 

Essas quarentenas, decretadas pelas administrações estaduais e municipais, foram entendidas como fundamentais para evitar os picos das internações no sistema de saúde, que poderia entrar em colapso ainda no começo da epidemia. 

2) O problema foi no Governo Federal, apesar da atuação muito boa do Ministério da Saúde. A conduta do presidente da República foi lamentável em todos os sentidos. 

Em pronunciamento em cadeia nacional, no dia 24/03, ele chamou a grave epidemia de “gripezinha”, de “resfriadinho” e comentou que as escolas poderiam funcionar normalmente; depois, no dia 29/03 o presidente foi passear publicamente junto a populares, em Brasília. Em quase todos os dias ele questionava a necessidade da quarentena. gerando crise política e incertezas

Esses e outros episódios dificultaram uma organização coordenada e centralizada para o enfrentamento rápido da crise. Também atrapalharam a conscientização de grande parte da população para a necessidade rápida do isolamento. 

Faltou por parte da presidência a visão de que, o que ocorreria na saúde pública, se não houvesse o isolamento social, traria impactos brutais também na economia. Afinal não se trata de uma “gripezinha”. 

3) A mudança no tom presidencial somente veio no dia 31/03, em novo pronunciamento em cadeia nacional, após grande reprovação popular, com panelaços ressoando Brasil afora. Até que enfim, depois de perder muito tempo, a presidência reconheceu que a melhor medida seria o isolamento pleno como emergência sanitária.

Mas infelizmente durou pouco, pois logo em seguida o presidente publicou em suas redes sociais elogios à ditadura; no dia seguinte criticou governadores e depois voltou a criticar as medidas de isolamento recomendadas pela OMS e adotadas pelo mundo inteiro. No dia 02/04 ele criticou o próprio ministro Mandetta, que tem gerenciado bem a crise sanitária. Ou seja, temos um presidente gerador de crises, ao invés de buscar o diálogo para solucioná-las.

4) Contudo, em paralelo, com a parada súbita da economia e o vácuo deixado pelo setor privado, também faltou, emergencialmente, por parte da equipe econômica do Governo Federal, a criação rápida de uma grande rede protetiva para a área social. Somente no início de abril é que o Governo Federal tomou providências para fornecer uma ajuda emergencial e auxiliar pessoas economicamente vulneráveis a atravessar a crise sanitária. 

Não bastasse a demora do Governo Federal em criar o benefício do auxílio emergencial, depois houve a demora para destravar e liberar tal benefício, gerando crítica dos demais poderes da República, entidades e de especialistas. Houvesse uma coordenação conjunta, além de consciência e vontade política, o Governo Federal teria tomado tais decisões, entre outras, bem antes, através de mecanismos permitidos pela própria Constituição Federal em situações de guerra e extrema urgência. 

Como observou a economista Monica de Bolle, no El País, no dia 02/04, “É um caminhão de coisas que estão faltando, porque o Governo não fez quase nada, está em uma inércia absoluta… Hoje, dane-se o Estado mínimo, você precisa gastar. É preciso errar pelo lado do excesso não para o lado da cautela numa crise desse tipo.”

5) Segundo a grande imprensa, Bolsonaro chegou ao ponto de ficar, até o dia 31 de março, entre os três governantes no mundo que teimavam em reconhecer a gravidade da pandemia, quando na verdade a OMS já havia decretado a pandemia global lá atrás, no dia 11 de março. Na sua solitária opinião, estava acompanhado apenas dos ditadores Daniel Ortega, da Nicarágua, e Alexander Lukashenko, da Belarus. 

6) Faltou a liderança do presidente para unir o país e aproveitar a cooperação entre os estados e municípios, para dar um pouco de segurança ao povo brasileiro. Foi uma enorme inércia governamental, com a perda de um precioso tempo para a tomada de decisões efetivas, devido a rápida progressão da epidemia e da crise social que se seguia. 

Por incrível que pareça, esta demora para cair a ficha do Governo Federal e as indefinições que se seguiram, atrapalharam até o Ministério da Saúde, que tem conduzido bem a crise. Foi o que ocorreu com o fato de o ministério ter esperado que a transmissão do vírus se tornasse comunitária para fazer a compra e a massificação dos testes, um erro lamentável.

Quadro publicado na Folha de S. Paulo no dia 03/04/2020

Algumas lições:

É muito cedo para saber quais serão as consequências da crise. Diante das incertezas e das rápidas mudanças, ainda temos muitas perguntas e poucas respostas. Sabemos que o mundo nunca mais será o mesmo. Temos muitas lições preliminares. Destaco algumas que me ocorrem, entre tantas outras:

1) Para todas as crises agudas e desafiadoras, em todos os contextos (políticos, sociais, militares, empresariais), um bom fator para conduzir e levar a uma boa navegação em águas turbulentas é a qualidade do líder. 

O teimoso Bolsonaro titubeou, esperou, blefou e não tomou rápidas e eficientes decisões. Ao contrário, é um presidente gerador de crises. Ficou à mercê das opiniões do seu “gabinete de ódio” e não ouviu, porque não quis, as vozes lúcidas de um gabinete integrado de Ministros. A Folha de S. Paulo chegou a fazer um editorial “Procura-se estadista” sobre o vácuo no poder de um presidente tão despreparado e autoritário. Voto tem consequências. 

2) O líder precisa ter equilíbrio. Uma das grandes lições em tempos de absoluta incerteza e crise, para governantes e todos nós, é o de buscar o equilíbrio. É preciso uma visão mais abrangente para decisões mais equilibradas. Somos muito dominados pelo pensamento dualista do oito ou oitenta, fruto da pouca reflexão e da incapacidade de análise dos fenômenos complexos.

As dicotomias, principalmente as ideologizadas, são estúpidas e danosas. É difícil para os políticos entender realidades tão óbvias, principalmente para aqueles dominados por ideologias atrasadas, impregnadas de negacionismos da ciência (e da realidade), como rejeição à vacinas, terraplanismos e tantas outras. 

3) Faltou (e está faltando) ousadia e agilidade. Em situações complexas frequentemente o conhecimento dos especialistas é insuficiente para superar os desafios. Os nossos representantes do típico Estado liberal ignoraram a regra básica e essencial que em situação de guerra não é Estado Mínimo. Precisa ser Estado Máximo, para fazer frente às emergências protetivas. E para ontem. 

4) Por enquanto temos apenas a certeza de que a pandemia trará gravíssimas consequências sociais, econômicas e em todos os campos da vida humana. Muitas tomadas de decisão deverão ser feitas a todo momento. Neste cenário, todos devem aprender com as lições.

Diante de tantas incertezas, os governantes precisarão rever as suas condições, aprender com os erros, escutar mais as equipes e os gabinetes integrados, tentar entender mais a complexidade das coisas, cooperar mais e tomar decisões conjuntas e transparentes.

Na vida, e sobretudo diante das incertezas, nem tudo é preto no branco ou branco no preto. Entre os extremos há muitos tons de cinza e são eles que ajudam a buscar os equilíbrios para a tomada de decisões.

É preciso deixar a teimosia de lado. Afinal, como nos lembra Edgar Morin: “A certeza de estar certo nos leva aos piores erros…. ”