Os ombros suportam o mundo

Para fugir um pouco das notícias abro a minha velha e amarelada “Antologia Poética”, de Carlos Drummond, o nosso poeta maior. 

Leio e releio maravilhas. No meio delas encontro uma preciosidade: o poema “Os ombros suportam o mundo”. O poema foi escrito no período que precedeu a Segunda Guerra, uma época de desânimo com a ascensão dos regimes totalitários. Mesmo diante do irremediável, de uma realidade nua e crua, o poeta tem o dom de nos trazer uma espécie de gratidão pela existência.

O poema enaltece a vida que precisa ser vivida, sem fugas, nem subterfúgios. A brutalidade precisa virar luz. O peso deve virar leveza. A dor se transformar em força, em coragem. Afinal, “os ombros suportam o mundo”. Vale cada verso. 

Os ombros suportam o mundo

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

(Os Ombros Suportam o Mundo – Carlos Drummond de Andrade – Antologia Poética, Ed. José Olympio, 1976, pag. 127)

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