A vacina e os mentalmente infectados

Há cerca de duas décadas tive um caso na promotoria de uma família que se recusava a dar vacinas para os dois filhos pequenos. Os pais simplesmente alegavam que as vacinas faziam mal. 

Dialoguei com eles e nada. Apelei e dei o exemplo de um senhor que eu conhecia, que se arrastava pelas ruas com as mãos, depois das graves sequelas de uma paralisia infantil. Mas nada os convencia. Somente cederam depois da ameaça de serem legalmente responsabilizados pela negligência com os filhos.

De lá para cá o movimento antivacina cresceu, a ignorância ganhou vez e voz, e o negacionismo chegou ao poder, colocando sob suspeita uma das grandes conquistas científicas da humanidade no último século. 

Pela primeira vez, em quase 20 anos, o Brasil não atingiu a meta para nenhuma das principais vacinas indicadas a crianças de até um ano, conforme dados de 2019, do Programa Nacional de Imunizações.

Nesta semana Bolsonaro desautorizou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e declarou que não vai comprar a “vacina chinesa”, referindo-se à futura vacina Sinovac/Instituto Butantan. O Instituto Butantan é uma instituição com mais de 100 anos de sólidas pesquisas e sempre forneceu vacinas ao Ministério da Saúde.

Como sempre, é possível que seja mais uma bravata, e o presidente não cumpra a sua promessa. De qualquer forma, mais uma vez ele assume um posicionamento criminoso e insano. 

Tudo isso ocorre mais de um século depois da Revolta da Vacina, motim popular ocorrido em 1904 na então capital Rio de Janeiro. Esse motim popular tinha, além da questão da vacina, outras causas mais profundas, mas a que mais se destacou na história foi a revolta diante da obrigatoriedade da vacinação contra a varíola.

A história não se repete, mas deveria pelo menos ensinar. Mais de 100 anos depois, ainda são muitos os mentalmente infectados que se revoltam contra as vacinas. A começar pelo presidente, que mandou o povo ignorar a quarentena, recomendou remédio inútil e agora boicota a futura vacina contra a Covid.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *