O poeta que usava a palavra para compor seus silêncios

O admirável poeta Manoel de Barros (1916/2014) gostava de brincar com a língua e apreciava as grandiosas “pequenezas” do mundo.

 Ele “usava a palavra para compor seus silêncios”. Dizia que não era “bom entendedor das coisas grandes. Mas… menos ainda, das coisas pequenas.”

O “homem que permaneceu menino até a velhice” era um grande inventor da boa poesia e de frases geniais como “Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades.” Possuía uma das qualidades mais interessantes daqueles que sabem viver com sabedoria: a simplicidade. Abaixo o belo poema “A maior riqueza do homem”.

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

In: Retrato do artista quando coisa, Editora Record.

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