Meritocracia e protagonismo juvenil

Todos os dias vejo argumentos, nos grupos e nas redes sociais, de que o sucesso profissional depende exclusivamente dos esforços e dedicações pessoais de cada um. Fica a impressão de que basta lutar, trabalhar e estudar que todos vão  conseguir um lugar ao sol, arrumar um bom trabalho, etc. 

Esse preceito liberal, elevado às últimas consequências, não é uma verdade em nenhum lugar do mundo, muito menos aqui no Brasil, país historicamente marcado pela exclusão, desigualdade social, violência, patriarcalismo, machismo, racismo, homofobia, preconceito social e tudo o mais. 

Falam tantas bobagens por aí: que você pode começar do zero, que não é preciso esperar nada do Estado, que a sua situação social e a sua cor em nada interferem, que somos um país livre e por isso basta ter luta e fé. Ah, está bem! 

Esses argumentos são simplistas, reducionistas e buscam legitimar a ausência do Estado nos programas sociais. 

O discurso de que “você pode” e de que “todos nós podemos” é sempre muito relativo! É preciso combater este mito, esta falácia! 

É claro que estas constatações nada tem a ver com resiliência, fé, força de vontade, esperança e tudo o mais que se espera de cada um para conquistar êxitos pessoais ou profissionais.

Eu mesmo sou prova disso. Trabalhei desde os doze anos de idade: na roça, em padarias, em fábrica de blocos, etc, e somente fui fazer a faculdade aos 25 anos de idade, com crédito educativo, pois antes não tinha nenhuma condição financeira para tanto. Não fosse o apoio estatal eu não teria conseguido fazer o curso superior e jamais teria sido Promotor de Justiça.  

Com o apoio do Estado pude estudar; fazer a faculdade. Claro que, para passar no concurso, aí sim, houve um grande sacrifício pessoal e de toda a família. Foram intensos estudos ao longo de sete anos, desde o primeiro ano da faculdade, até o ingresso no Ministério Público.

Portanto, sou testemunha de que o protagonismo pessoal e a meritocracia até podem (co)existirem. Contudo, se não houver programas governamentais de inclusão escolar e social, os jovens pobres e excluídos das periferias jamais conseguirão sair do lugar. 

É surrado e simplista o discurso de protagonismo juvenil, de que tudo depende do esforço pessoal e que o mérito nos leva ao sucesso. Bolsonaristas liberais (e pouco informados) defendem estas ideias. Isto pode valer para uma meia dúzia de dedicados/sortudos, mas não vale para os nossos milhões de jovens excluídos da escola, da sociedade e à margem de tudo. E como estão à margem, serão sempre marginalizados (aqui marginais não no sentido pejorativo).

A desigualdade já começa com aqueles que nascem brancos e homens. Duvida? Basta olhar do lado e ver na sua organização quantos negros e mulheres estão no comando. Depois veja as estatísticas oficiais. Não precisa ir muito longe. 

Depois do nascimento a igualdade continua com aqueles que logo conseguem uma creche para estudar. Ou vão dizer que aquele que estudou em creche e pré-escola até os cinco anos não está em situação absurdamente desigual com aqueles outros que somente conseguem entrar na escola aos seis anos de idade? Se você for uma criança maltrapilha, negra ou com deficiência a sua situação será muito pior.

O discurso embasado na meritocracia, numa sociedade tão desigual e injusta, é elitista e desumanizante; desresponsabiliza o Estado, confunde virtude com conhecimento, estabelece que o sucesso só depende do esforço pessoal e coloca no indivíduo o peso da ausência de políticas públicas do Estado para as crianças e jovens. 

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