Menina do nariz arrebitado

Por esses dias vi a expressão “menina de nariz arrebitado”, que também é o nome de um livro de Monteiro Lobato. Lembrei-me do início da minha adolescência, nos anos 70, em São Luiz do Paraitinga. 

Naquela época, arrumar uma paquera ou namoradinha era um grande desafio, principalmente para quem era da roça, como eu. 

Éramos feios de doer. Tímidos e desajeitados, vestíamos mal, e as “gatinhas” – assim eram chamadas as mocinhas – davam mais bola para os rapazes da cidade, que eram mais desinibidos e “estilozinhos”. 

Para agravar a situação, contávamos com as dificuldades próprias de uma pequena cidade do interior. Íamos todos para a praça, as meninas andavam de um lado e os meninos de outro; paquerávamos apenas com o cantinho do olhar e com pequenos sorrisos. 

Chegar junto à paquera era uma enorme dificuldade. Aguardávamos ansiosos os fins de semana, planejávamos atentamente como íamos abordar a “gatinha” e puxar uma conversa. Mas, invariavelmente, os planos não davam certo; rodávamos o tempo todo na praça e nada. Íamos embora frustrados. Éramos tímidos. 

Dar uma ou duas voltinhas com a paquera era sempre uma grande conquista; passar uma sessão de cinema juntos, nas matinês de domingo, apenas dando carinhos com as mãos, era uma conquista enorme.

Beijo, beijo de verdade, somente depois de alguns encontros. Ainda assim eram beijos inibidos, apenas com os lábios. Para beijar firme, com forte vibração dos hormônios, demorava muito tempo. 

Mas voltando ao assunto, nestas paqueras, dando voltas na praça, quando a gatinha nunca nos dava bola e nem olhava para nós, dizíamos com todo vigor: “essa é uma menina do nariz arrebitado”.

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