O poeta que usava a palavra para compor seus silêncios

O admirável poeta Manoel de Barros (1916/2014) gostava de brincar com a língua e apreciava as grandiosas “pequenezas” do mundo.

 Ele “usava a palavra para compor seus silêncios”. Dizia que não era “bom entendedor das coisas grandes. Mas… menos ainda, das coisas pequenas.”

O “homem que permaneceu menino até a velhice” era um grande inventor da boa poesia e de frases geniais como “Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades.” Possuía uma das qualidades mais interessantes daqueles que sabem viver com sabedoria: a simplicidade. Abaixo o belo poema “A maior riqueza do homem”.

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

In: Retrato do artista quando coisa, Editora Record.

Aprender e praticar a democracia desde a primeira infância

Este é o primeiro texto sobre democracia deste espaço. Sempre que for possível vou escrever sobre sobre o tema, sem uma ordem sequencial.

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Fui convidado a colaborar com o livro “Primeira Infância no Sistema de Garantia de Direitos de Crianças e Adolescentes”, recentemente lançado pelo instituto Alana, e escrevi o capítulo chamado “A Gestão Participativa na Educação Infantil”.

Por que escrevi sobre a necessidade de participação democrática desde pequeno, lá na Educação Infantil? 

1 – Não somente porque é previsto em lei, mas porque democracia pressupõe o diálogo, a escuta e a participação, e estes valores precisam ser praticados desde o nascimento da criança, na família, na escola e na comunidade.

2 – Porque ambientes democráticos melhoram a qualidade do ensino e permitem grandes aprendizados dos valores da democracia, como o diálogo, a interatividade, a escuta, a paciência, a alteridade, a fraternidade, a liberdade, a tolerância, a igualdade de direitos, a prevalência da vontade da maioria, a participação, entre tantos outros. 

3 – Porque a experiência democrática é um constante aprendizado que aos  poucos vai se incorporando à prática escolar através da realização de assembleias, de rodas de conversa, da escolha de representantes, da formação de protagonistas, do aprendizado sobre legitimidade, democracia e a importância da mobilização social. Diálogo se aprende dialogando. 

4 – Porque democracia é prática e não discurso. Por isso é preciso fornecer os espaços participativos, os meios de comunicação, facilitar boas ambiências para o diálogo, criar rotinas de respeito a todos e construir projetos que sejam político-pedagógicos participativos.

5 – Porque quem aprende os valores da democracia será um cidadão melhor, mais altruísta e mais preocupado com os valores da sociedade; será um ser humano melhor, pois aprenderá a ouvir, a aceitar a opinião dos demais, a respeitar os seus familiares, cônjuge, filhos, amigos, e pessoas em geral.

Para os que tiverem interesse em conhecer um pouco mais sobre o diálogo, a participação e a escuta de crianças, abaixo segue o link do livro, cujo texto está a partir da página 145.

https://prioridadeabsoluta.org.br/wp-content/uploads/2019/06/primeira_infancia_no_sistema_de_garantia_de_direitos_de_criancas_adolescentes.pdf

Lava Jato & Vaza Jato: algumas considerações

Lava Jato & Vaza Jato: temas complexos

Por que é tão difícil analisar as consequências dos vazamentos do site The Intercept sobre a Lava Jato, também conhecidos por Vaza Jato? 

Porque os temas Lava Jato e Vaza Jato não são simples; são temas complexos que exigem olhares mais cuidadosos, prudentes, aprofundados; focados e ao mesmo tempo ampliados. São temas complexos de um Brasil complexo, de tempos difíceis e polarizados, sobre os quais é muito difícil ter uma simples opinião.

Basta dizer que os trabalhos da operação Lava Jato estão entre os maiores da história, em todo o mundo. Não foi uma simples operação. Foram dezenas e se espalharam pelo Brasil. Envolveram centenas de personagens, anos de árduos trabalhos, investigações até então nunca realizadas com pessoas poderosas e que trouxeram revelações incríveis dos bastidores corruptos do poder; desvendaram a rede de corrupção nos governos petistas. As investigações mostraram os bilhões de dólares desviados, sobretudo da Petrobrás, e em parte recuperados.

Como tratar tamanha complexidade na lógica binária certo/errado, erro/acerto, parcial/imparcial, político/não político, ético/não ético, culpado/inocente? 

Não dá. Dentro do vasto espectro que envolve o conjunto de operações tão grandes, é lógico que podem ocorrer falhas, abusos, excessos; mas também acertos e méritos. Ou alguém acha que, na Lava Jato, as operações, as imagens, as constatações e os desvios de bilhões, que revelaram o maior esquema de corrupção montado no Brasil, foram invenções do nada?

Repito: é difícil julgar a Lava Jato e a Vaja Jato numa visão simplista. São e serão necessários muitos olhares; olhares profundos, em cada um dos casos, para entender um pouco e fazer alguma avaliação isenta, estritamente jurídica, como deve ser. 

Toda esta apreciação isenta exigirá coragem política dos tribunais competentes para (re)analisar os casos; para verificar as peculiaridades caso a caso, entender os desdobramentos das operações; conferir se houve danos graves que contaminaram um ou outro caso de ilegalidades. 

Sim. É preciso verificar, situação por situação, se os diálogos entre juiz e membros do Ministério Público, inicialmente publicados pelo The Intercept Brasil e depois por outros órgãos de imprensa, tiveram potencial de ferir, com a gravidade, a isenção que se exige do juiz; é necessário verificar as circunstâncias de cada uma das situações. Sobre a legitimidade das publicações, pela liberdade de imprensa, eu comentei em outro post (https://antonioozorio.ovale.com.br/lava-jato-vaza-jato-liberdade-de-imprensa-e-a-democracia/)

É simplista falarmos que a Lava Jato atuou politicamente todo o tempo; mas também é simplista dizer que não atuou politicamente, principalmente depois que a operação passou a ser utilizada pelas forças políticas do momento. Isto ocorreu por pressões externas, mas também por politização de setores da força-tarefa, que de repente se viram num grau imenso de popularidade e poder. 

Não podemos entrar na onda do petismo, que, sem nenhuma autocrítica, repete sempre a história do golpe e espalha a todo momento que a operação foi feita para aniquilar o projeto de poder da esquerda, do PT e para tirar Lula do poder. Não há razões lógicas para acreditar nisto. 

O mesmo vale para o bolsonarismo, que pegou carona no lavajatismo, e elegeu o presidente da “limpeza”, que quer acabar com a corrupção, ainda que cheio de problemas internos, em seu partido e de seus filhos, envolvendo assessores fantasmas e laranjas, e a imoral indicação do próprio filho para Embaixador em Washington. Bolsonaro passou a usar os esforços da Lava Jato para alavancar o seu populismo demagógico. 

Apesar da complexidade que envolve ambas as situações, algumas coisas são claras e aproveito para falar sobre elas.

Não obstante todo os méritos da Lava Jato, e eles são muitos, ela começou a se perder, e a perder a sua credibilidade quando começou a ficar muito famosa e a ser usada politicamente. Claro que isto não significa que ela está perdida, por tudo que investigou e desvendou.

A politização

Todos os que conhecem integrantes da força-tarefa sabem que no início os integrantes da Força-Tarefa mantiveram os seus trabalhos com certa discrição, como deveria ser; muito se sabia dos trabalhos e pouco se conhecia dos atores. Foi um período áureo, promissor e de intensa credibilidade. Como devem ser todos os atos da Justiça.

A publicidade do que é feito é necessária, através de entrevistas coletivas para informações, mas sem a intensa exposição dos seus atores centrais, pois é preciso manter a impessoalidade e a institucionalidade dos órgãos envolvidos. Tanto o Poder Judiciário como o Ministério Público não podem ficar seduzidos, a todo instante, pelos holofotes da mídia. 

Como sabemos, a partir de determinado momento, os atores da Lava Jato começaram a ter ativa – e excessiva – participação nas mídias, nas redes sociais, em palestras, shows e até em eventos políticos. Chegaram a usar exposições constrangedoras dos réus em audiências. Alguns passaram a usar os seus cargos também para fazer networks pessoais.

Aos poucos, as repercussões dos trabalhos da força-tarefa foram sendo capturadas pelas tendências políticas de plantão. O discurso moralista de limpar a política foi tomando conta dos trabalhos, que foram aos poucos absorvidos pelo bolsonarismo; ao final, o lavajatismo acabou se transformando numa das vertentes do bolsonarismo. 

O final desta história já sabemos: a nomeação de Moro para Ministro da Justiça deu vez e voz a todos os que entendiam que a força-tarefa estava agindo politicamente. 

Excessos de poder e interferências no sistema político. 

Imagine você, sozinho, ter excessos de poder, a ponto de interferir no sistema político de todo um país? Isto gera heróis. Foi o que ocorreu. Moro virou o super-herói. A partir de um momento, com a sua popularidade, e pelos trabalhos realizados, ele passou a ser mais famoso que qualquer outra autoridade brasileira. 

A sua intensa popularidade e também dos trabalhos da Lava Jato, geraram dificuldades para que os órgãos de controle da Justiça – leia-se os tribunais superiores e o CNJ – reduzissem o seu poder, para deixá-lo a agir de acordo com a lei, no âmbito estrito das suas competências.  

Foram conhecidos os excessos, tais como o histórico vazamento para a Rede Globo de áudios. Ainda que justificável do ponto de vista político, a conduta é criminosa. Ou ainda da condução coercitiva do ex-presidente Lula, sem as formalidades legais, sem prévia intimação. Em ambos os fatos houve excessos, com condutas configuradoras de crime, sem o devido controle por parte dos Tribunais superiores.

No âmbito do Ministério Público muitas ações foram com nítidas tendências políticas. O áudio de Deltan comemorando a proibição da entrevista do Lula é uma prova irrefutável desta afirmativa. 

O grande problema, com a complacência das cortes superiores, é que tudo passou a ser concentrado em Curitiba, que se tornou um juízo universal para apreciar todos os casos. Houve excesso de poderes; excesso de atribuições. Em situações normais e de legalidade caberia aos tribunais superiores, especialmente ao Supremo Tribunal Federal, coibir a excessiva concentração dos trabalhos em Curitiba. 

Conversas e orientações. 

É normal juízes trocarem ideias com membros do Ministério Público? Claro que sim; conversas protocolares sim! Não há grandes problemas neste sentido. O juiz alerta o membro do MP (e vice-versa) sobre situações corriqueiras, como nos equívocos dos trabalhos do cotidiano, da falta de uma palavra, da perda de um prazo. O ideal é que, tudo que seja comentado, esteja nos autos, ou seja, nos despachos feitos pelo juiz, para garantir a transparência e ratificar a imparcialidade do Juízo. 

O que não é normal é o juiz atuar como se fosse o supervisor de um grupo, com orientações para que se faça ou deixe de fazer algo necessário ou desnecessário para as investigações em curso. Muito menos dizer aos Procuradores o que pensa ou o que deve ser feito em cada caso concreto. Tudo isto é gravíssimo! 

Freios nas investigações

Depois das revelações da Vaza Jato as forças políticas começaram a pressionar para que o houvesse freios nos trabalhos do Ministério Público, o que serviu de motivo para o presidente do Supremo, numa única canetada, sem a apreciação do plenário da corte, passasse a impedir, em todo o país, as investigações criminais que envolvam relatórios oriundos do Coaf ou da Receita Federal, sem que tenha havido autorização da Justiça para tal.

A decisão, a pretexto de evitar abusos, rompeu com o modus operandi até então adotado nas investigações, e aceito pelas cortes superiores, deixando margens para dizer que houve dois pesos e duas medidas e seria uma decisão casuística. Ademais, para corrigir erros pontuais, prejudicou as demais investigações em trâmite por todo o país.

Cada caso analisado com lupa

Teremos mais vazamentos de diálogos, que podem complicar ainda mais o ministro Moro. Cada vez fica mais claro que ele manteve ligações diretas com a acusação e, ao que consta, em alguns casos orientando os procuradores dos seus desejos e intenções.

Se isto ficar consolidado e comprovado, e se tiveram graves consequências diretas em algum processo, como ocorreu algumas negociações de delação premiada, aí não tem jeito. Precisará ser anulado. Juiz não pode apontar às partes o que deve ser feito. Juiz precisa ser isento. Esta a única opção do Estado de Direito, para a preservação da lei. Fora disso estaríamos à margem do Direito. 

Não adianta tapar o sol com a peneira. Embora a Lava Jato tenha os grandes méritos de desvelar a corrupção institucionalizada que imperava no financiamento do sistema político brasileiro, as conversas reveladas colocam sob suspeita algumas investigações e condenações originadas dos trabalhos da força-tarefa em Curitiba. 

Ainda não sabemos quais serão os efeitos práticos de tudo o que está ocorrendo e de possíveis novas denúncias que surgirão, mas o fato é que haverá questionamento dos trabalhos e poderá haver anulação de parte deles.

Não se pode colocar todos os trabalhos da Lava Jato sob suspeitas, como pregam as vozes radicais, para que tudo termine em pizza. Mas também não dá é para fingir que nada aconteceu, pois isto implicará em descrédito do Poder Judiciário.

Com as revelações de conversas comprometedoras, cada caso terá que ser analisado com lupa, para verificar aquilo que é aceitável nas conversas entre o juiz e os membros do Ministério Público, e aquilo que extrapolou o razoável e que pode levar à anulação de processo.

Uma simples opinião sobre a Reforma da Previdência

Esta não é uma análise sobre a reforma da Previdência, pois não sou especialista no assunto. São apenas observações gerais, de uma pessoa curiosa com os grandes temas de nosso país. 

Ninguém de bom senso duvida da necessidade da reforma da Previdência. Há décadas o Brasil está praticamente estagnado em termos de desenvolvimento econômico e esta é uma das reformas mais urgentes. Não é uma questão ideológica, mas sim lógica e matemática. 

Por outro lado, lamenta-se que o país não tenha tido condições de realizar uma reforma tributária, em paralelo com a reforma previdenciária, com aprovação conjunta. 

A reforma da Previdência, em trâmite, foi aprovada em primeiro turno na Câmara, com folga de votos. Não por virtude do governo Bolsonaro, que mais atrapalhou do que ajudou, mas pelo protagonismo do parlamento, sob a liderança de Rodrigo Maia.

É assim que deve ser numa democracia, com o protagonismo do parlamento, que faz a sua parte. Independentemente de ideologia, Maia tem se mostrado um competente líder parlamentar. Ele tem um bom tom conciliatório, necessário na política, sobretudo nos tempos atuais; vai se firmando com o um grande líder político, num país polarizado. 

Maia é um dos vencedores desta fase da reforma. Bolsonaro teve apenas o mérito de enviar a proposta ao Parlamento, mas não suou a camisa para a sua aprovação na Câmara; chegou a atrapalhar em muitos momentos, patrocinando diretamente os interesses dos policiais.

É claro que, como bom populista, depois do esforço dos demais, e após ter cedido à velha política e de liberar milhões em verbas orçamentárias para os deputados, dirá que foi um grande realizador da reforma.

O Centrão, constituído de políticos oportunistas, e que sempre representou o atraso da nossa política, continua forte no Parlamento. Foi decisivo para a grande vitória na aprovação na Câmara. Claro, como se disse, depois que o governo Bolsonaro, que falava em moralizar a política – e muita gente acreditou ser verdade – ter liberado R$ 2,5 bilhões em emendas antes da votação.

Liberar emendas orçamentárias como moeda de troca é de uma imoralidade sem tamanho. Mas enfim, esta é a velha política. Bolsonaro disse que seria a nova política, mas isto só existe na retórica de populistas.

Os servidores públicos em geral foram sacrificados. Alguns setores corporativos ganharam, principalmente os policiais (federais, rodoviários, legislativos, civis do Distrito Federal e agentes penitenciários), que mantiveram os seus privilégios e condições especiais, além dos militares, que foram separados num projeto à parte.

Nesta fase de votações, a esquerda foi derrotada. Muitos procuraram jogar a culpa em terceiros ao invés, também, de fazerem autocríticas. Faz tempo que a esquerda precisa fazer autocríticas.

Também não foi bom para os Estados e Municípios, que foram excluídos da reforma, e perderam a oportunidade de reencontrar, de vez, o caminho para melhorar os seus orçamentos, hoje com rombos gigantescos.

No mais, perderam os trabalhadores mais pobres, aqueles do regime geral. A reforma pretendeu combater privilégios, mas vai gerar mais desigualdades. Aumentou a desigualdade do acesso à aposentadoria. Os mais pobres, que começam a trabalhar desde criança, dificilmente conseguirão contribuir 40 anos para a aposentadoria integral; talvez nem os 15 anos para a aposentadoria parcial. Terão que suar a camisa para conseguir uma aposentadoria aos 65 anos. 

Portanto, se era para combater privilégios, tônica dada todo o tempo pelo Governo, o ideal é que o país realizasse em conjunto a reforma tributária. O Brasil, junto com a Eslováquia e a Estônia, é um país que não taxa dividendos. Isso é privilégio. Sim, o detentor do capital não paga impostos sobre sua renda em lucros e dividendos. O mesmo ocorre com quem presta serviço como pessoa jurídica. O Brasil é um paraíso pra que as grandes empresas, sobretudo as multinacionais, que faturam e enchem os bolsos em nosso país. Também não temos impostos sobre heranças e muitos outros privilégios espalhados por aí. 

Uma das formas de reduzir a desigualdade seria montar um sistema tributário que mantivesse o investimento produtivo e elevasse a arrecadação do Estado para permitir os gastos sociais e assegurar benefícios gerais. 

Não há dúvidas que com a reforma o país ganha em termos de crescimento econômico e desenvolvimento; ganha no conjunto e a longo prazo. A própria população tem reconhecido isto. Mas infelizmente o país continuará a proteger o mercado e as instituições financeiras, os verdadeiros privilegiados. O pobre, coitado, este sim, será abandonado à sua própria sorte. Ganhou o capital e perdeu o trabalhador brasileiro.

O Brasil continuará sendo um país injusto e desigual, como sempre. Para melhorar a justiça social não se pode somente retirar direitos. É preciso mexer nos privilégios. 

Lava Jato & Vaza Jato: a liberdade de imprensa e a democracia

O dever da imprensa é divulgar.

A liberdade de informação é sagrada numa democracia e o papel da imprensa é publicar, assegurado o sigilo da fonte, não importando se esta fonte obteve a informação de forma lícita ou ilícita. É assim que deve ser.

Quem conhece um pouco da nossa história e hoje ataca as divulgações do “The Intercept”, e de outros setores da imprensa, naquilo que se chamou de “Vaza Jato”, desconhece ou ignora, a importância da imprensa para a democracia, pois as divulgações do referido site são de evidente interesse público. Só não acredita quem não quer.

“Ah, mas as informações foram obtidas através de hackers!” Sim, mas se tais informações foram obtidas de forma ilícita, a fonte que as forneceu é que deve ser investigada, e eventualmente processada, não o órgão de imprensa que as divulgou. 

“Sim, mas tais notícias não servem como provas.” Tudo bem, mas continuam sendo notícias. 

O que não dá é para ameaçar, ou abrir investigações, ou fazer ataques contra o órgãos de imprensa, pois estaríamos dando mais um passo em direção ao arbítrio, ao Estado policial. 

Democracia é com liberdade e imprensa atuante.

“Ah, mas é mídia de esquerda e, portanto, tendenciosa.” Não importa. Seja mídia de esquerda ou de direita, o papel da imprensa é divulgar.

Se valesse o argumento de que o The Intercept é tendencioso por ser um veículo partidário da esquerda, o mesmo valeria para “O Antagonista”, que seria o veículo partidário da direita. 

O Antagonista, Brasil247, Diário do Centro do Mundo e tantos outros veículos que têm tendências políticas, goste-se ou não, são órgãos de imprensa e têm as suas relevantes importâncias para a democracia. Precisamos defender o seus direitos de liberdade de expressão. Não podem e não devem ser investigados. 

Um pouco de história de um presidente que afrontou a liberdade de imprensa.

No final de 1989, depois de quase três décadas, o Brasil vivia um momento histórico e elegia um presidente por meio de voto direto: Fernando Collor de Mello.

Como governador de Alagoas, Collor havia enfrentado alguns funcionários com super-salários e isto o tornara conhecido nacionalmente como o “caçador de marajás”.

Apesar de ser candidato por um partido inexpressivo, o Partido da Renovação Nacional (PRN), ele foi eleito com o seu discurso demagógico de livrar o país da corrupção e a promessa de modernizar a economia.

O então mais jovem presidente do Brasil tomou posse em janeiro de 1990. Como todo populista com ares autoritários, Collor tinha um problema: não gostava da imprensa livre. Começou o seu governo atacando a imprensa e considerava a Folha de S. Paulo um jornal inimigo.

Dias depois de tomar posse ele deu sinal verde para que a Receita e a Polícia Federal invadissem o jornal e meses depois processou alguns de seus jornalistas.

A invasão gerou intensa repercussão nacional e internacional, com notas de repúdio, pois todos sabiam que naquele processo de redemocratização que o país vivia, precisávamos de uma imprensa livre. 

O fato é que depois de muitos episódios conturbados em seu governo, logo começaram as denúncias de corrupção. E a imprensa, livre a atuante, teve um papel fundamental na divulgação das denúncias. 

Uma série de matérias investigativas levadas a cabo pela própria Folha de S. Paulo, e pelas revistas Veja e Isto é, mostraram o envolvimento de Collor em um esquema de corrupção organizado pelo seu ex-tesoureiro de campanha, Paulo César Farias. 

Uma das acusações contra Collor foi feita pelo seu irmão, Pedro Collor, e apontou a existência de um esquema de desvio de dinheiro para paraísos fiscais, montado por PC Farias. 

As ligações entre Collor e PC Farias foram comprovadas depois pelo depoimento do motorista Eriberto França, que confirmou que transportava os cheques das empresas de PC Farias, que pagavam as despesas pessoais de Collor e sua esposa. A prova definitiva veio com um cheque-fantasma utilizado por Collor para comprar um veículo Fiat Elba. 

As denúncias de corrupção, aliadas a uma desastrosa política econômica, geraram intensa indigação popular que levou o povo às ruas para protestar contra Collor. 

Pela primeira vez na história houve o desfecho de um processo de impeachment contra um presidente, e Collor renunciou pouco antes da sua condenação pelo Senado. 

O Brasil recém saíra do Regime Militar e muitos pensavam que a então jovem democracia não resistiria ao trauma de um impeachment. 

Resistiu e a imprensa livre teve um importante papel nequele processo.

Sob fogo cerrado.

Até agora não foi confirmada a suposta investigação contra o The Intercept ou o seu jornalista responsável. Se confirmada, podem ter certeza que o governo Bolsonaro em geral, e Moro em particular, vão arrumar uma legião de críticos por parte da imprensa e de órgãos defensores da liberdade de expressão, entre eles organismos internacionais. Consequentemente perderão ainda mais o apoio popular, cuja erosão já é nítida. 

Moro está sob fogo cerrado e as críticas contra ele, até de setores mais conservadores, têm aumentado a cada série de revelações. 

Não se sabe o que vai ocorrer. Pelo menos o lado bom de tudo isto é saber que a imprensa está funcionando no Brasil. Um democracia funciona bem com liberdade e com imprensa atuante.

A Tragédia de Sarriá

Trinta e sete anos da tragédia de Sarriá, ocorrida em 05 de julho de 1982. Passou rápido demais. Para quem não sabe, a tragédia de Sarriá se refere à derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982. Uma grande dor para o povo brasileiro.

Aquela foi a seleção das seleções, fez o show dos shows e a arte das artes, de um futebol que encantou o mundo.

Porém, nas “quartas de final” um tal Paolo Rossi, que ninguém conhecia, fez três gols e colocou água no chope na empolgação e na comemoração dos brasileiros: Itália 3 x 2 Brasil. O carrasco brasileiro tornou-se um herói italiano. 

Imagina uma seleção de craques? E quando falamos em craques não pensamos em qualquer um, mas sim em gênios do futebol, como Oscar, Toninho Cerezo, Sócrates, Zico, Falcão, todos que brilhavam naquela seleção.

Uma densa bruma naquela noite de inverno misturou-se com o desalento dos brasileiros, tornando aquele dia muito frio e triste, passando a sensação para os mais jovens, como éramos à época, de que a vida é sempre triste.

“Nunca uma seleção brilhara tanto numa Copa do Mundo”, diziam uns; perdemos por excesso de confiança”, diziam outros. 

Nunca entendi direito essa história de que o “excesso de confiança” faz alguém perder alguma coisa, mas que a derrota naquele ano foi uma marca indelével na alma dos brasileiros, isso foi. 

Que show minha gente! Assistam! A maior seleção de toda história.

Copa 1982

QUANDO ALGUÉM PERGUNTARse a seleção de 1982 jogava bem , mostre isso… Simplemente genial#SintomadeCultura

Publicado por Sintoma de Cultura em Domingo, 24 de junho de 2018

Meritocracia e protagonismo juvenil

Todos os dias vejo argumentos, nos grupos e nas redes sociais, de que o sucesso profissional depende exclusivamente dos esforços e dedicações pessoais de cada um. Fica a impressão de que basta lutar, trabalhar e estudar que todos vão  conseguir um lugar ao sol, arrumar um bom trabalho, etc. 

Esse preceito liberal, elevado às últimas consequências, não é uma verdade em nenhum lugar do mundo, muito menos aqui no Brasil, país historicamente marcado pela exclusão, desigualdade social, violência, patriarcalismo, machismo, racismo, homofobia, preconceito social e tudo o mais. 

Falam tantas bobagens por aí: que você pode começar do zero, que não é preciso esperar nada do Estado, que a sua situação social e a sua cor em nada interferem, que somos um país livre e por isso basta ter luta e fé. Ah, está bem! 

Esses argumentos são simplistas, reducionistas e buscam legitimar a ausência do Estado nos programas sociais. 

O discurso de que “você pode” e de que “todos nós podemos” é sempre muito relativo! É preciso combater este mito, esta falácia! 

É claro que estas constatações nada tem a ver com resiliência, fé, força de vontade, esperança e tudo o mais que se espera de cada um para conquistar êxitos pessoais ou profissionais.

Eu mesmo sou prova disso. Trabalhei desde os doze anos de idade: na roça, em padarias, em fábrica de blocos, etc, e somente fui fazer a faculdade aos 25 anos de idade, com crédito educativo, pois antes não tinha nenhuma condição financeira para tanto. Não fosse o apoio estatal eu não teria conseguido fazer o curso superior e jamais teria sido Promotor de Justiça.  

Com o apoio do Estado pude estudar; fazer a faculdade. Claro que, para passar no concurso, aí sim, houve um grande sacrifício pessoal e de toda a família. Foram intensos estudos ao longo de sete anos, desde o primeiro ano da faculdade, até o ingresso no Ministério Público.

Portanto, sou testemunha de que o protagonismo pessoal e a meritocracia até podem (co)existirem. Contudo, se não houver programas governamentais de inclusão escolar e social, os jovens pobres e excluídos das periferias jamais conseguirão sair do lugar. 

É surrado e simplista o discurso de protagonismo juvenil, de que tudo depende do esforço pessoal e que o mérito nos leva ao sucesso. Bolsonaristas liberais (e pouco informados) defendem estas ideias. Isto pode valer para uma meia dúzia de dedicados/sortudos, mas não vale para os nossos milhões de jovens excluídos da escola, da sociedade e à margem de tudo. E como estão à margem, serão sempre marginalizados (aqui marginais não no sentido pejorativo).

A desigualdade já começa com aqueles que nascem brancos e homens. Duvida? Basta olhar do lado e ver na sua organização quantos negros e mulheres estão no comando. Depois veja as estatísticas oficiais. Não precisa ir muito longe. 

Depois do nascimento a igualdade continua com aqueles que logo conseguem uma creche para estudar. Ou vão dizer que aquele que estudou em creche e pré-escola até os cinco anos não está em situação absurdamente desigual com aqueles outros que somente conseguem entrar na escola aos seis anos de idade? Se você for uma criança maltrapilha, negra ou com deficiência a sua situação será muito pior.

O discurso embasado na meritocracia, numa sociedade tão desigual e injusta, é elitista e desumanizante; desresponsabiliza o Estado, confunde virtude com conhecimento, estabelece que o sucesso só depende do esforço pessoal e coloca no indivíduo o peso da ausência de políticas públicas do Estado para as crianças e jovens. 

Mini-crônica de um momento de ternura

Estava no supermercado, com vários produtos para passar na fila do caixa e, de repente, chegou uma moça com apenas um volume nas mãos.

Olhei para ela e lhe disse para passar na minha frente, mas ela continuou imóvel. Gesticulei, falei novamente, e aí ela entendeu e passou na minha frente. 

Em seguida deu um pequeno grito. Foi quando percebi que ela era muda. 

Com dinheiro na mão, e com gestos, ela pagou a sua conta, olhou para mim e sorriu. Na sequência, com um misto de vergonha e coragem, ela veio até a mim e me deu um leve abraço de agradecimento; depois foi-se embora. 

Não sei por qual razão, mas fiquei sensibilizado com aquele abraço da moça. Foi um pequeno gesto, mas um grande momento de ternura! 

O mundo precisa de mais ternura!

Homenagem à Luna

Há 3 anos, quando a Luna faleceu, ficamos muito tristes. Foi uma grande choradeira para todos, pois foram muitos anos juntos; ela fazia parte de nós e nós fazíamos parte dela, da sua vida, dos seus olhares, dos seus amores e cuidados por nós. 

Colocamos ela no carro e fomos para a roça para sepultá-la. No caminho, paramos num canteiro de flores e compramos uma muda de Manacá da Serra. Ela seria enterrada e no mesmo lugar plantaríamos o Manacá. 

Plantamos. Era inverno e a muda de Manacá teve dificuldades para sobreviver. Ao final sobreviveu e ficou belíssimo, conforme esta foto que recebi hoje dos meus familiares. 

Luna foi para o céu dos bichos, mas a sua lembrança tornou-se eterna entre nós, seja pelas suas histórias ou pelo Manacá que ficou em seu lugar. 

E assim Luna continua a brilhar e a iluminar para sempre as nossas vidas. E o Manacá passou a fazer parte destas lembranças e desta história. 

Retrocessos no campo dos valores

O governo Bolsonaro orientou a diplomacia brasileira a frisar que “gênero” é apenas biológico, ignorando os avanços do mundo civilizado na luta contra as desigualdades e preconceitos. 

A posição do Brasil causou mal-estar e perplexidade na ONU esta semana.

Como relatou Jamil Chade, blogueiro do UOL e correspondente em Genebra, até aliados do governo Bolsonaro, como Israel e Chile, recusaram a apoiar a decisão brasileira. Os canadenses, escandinavos e países europeus dizem que o termo não pode ser eliminado. Só a Arábia Saudita apoiou a nova posição do governo brasileiro.

Sociedades e países avançados consolidaram o reconhecimento de que a espécie humana comporta toda uma gama de identidades de gênero. Os avanços da ciência e das liberdades individuais permitiram que “novas” caras e identidades ganhassem reconhecimento e representação. 

A sigla LGBTQI+, é um esforço para representar essas identidades e mostra a complexidade e as especificidades de cada ser humano, que abrange Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Queer, Intersexuais e a sigla +, que inclui tudo o mais, como assexualidade, agênero, andrógino, bigênero e outros. 

A diferença entre as pessoas não é somente cultural e inclui fatores genéticos, anatômicos, fisiológicos e hormonais. 

Os tabus e as proibições sempre empurraram as pessoas que transcendem a lógica binária homem-mulher para a clandestinidade, vítimas do preconceito e da discriminação. Por isso não é possível que tenhamos retrocessos. 

Contudo, o Brasil caminha na direção contrária e rapidamente vai rasgando a sua reputação diante do mundo civilizado. No campo dos valores vai se alinhando com os países mais retrógrados de nosso planeta.