Adeus Trump

Trump se foi. Uma terrível experiência se encerrou. Um alívio!

Quando populistas autoritários chegam ao poder causam estragos enormes para um país. Eles fomentam a guerra interna; dividem a nação; atacam a imprensa livre; degradam o debate público com mentiras; conspiram contra as organizações sociais; enfraquecem as redes comunitárias; aparelham as instituições, em suma, corroem a democracia.

Será difícil se desfazer desse período sombrio da história. Mas o fato é que os EUA já respiram a esperança.

No seu discurso de posse Biden falou em unidade, em respeito, em solidariedade, em construção coletiva e observou: “Juntos, podemos escrever uma história de esperança, não de medo; de unidade, não de divisão; de luz, não de escuridão”.

Biden comemorou a democracia: “a democracia é preciosa, é frágil, mas ela prevaleceu”. Ele traz a esperança de novos tempos para as democracias. 

Aqui ainda continuamos no escuro, com o nosso populista autoritário. Mas a nossa vez vai chegar. E tomara que venha logo. E esse é o lado positivo: eles passarão.

Quando Bolsonaro e o seu governo descerem pelo ralo da história, levaremos muitos anos para recuperar tudo o que estamos perdendo em termos de institucionalidade, de degradação do debate público, de organização social, de imagem e de integração do Brasil no mundo. 

É urgente o movimento pelo impeachment

Sabíamos que o governo Bolsonaro seria autoritário e antidemocrático, como tem sido, mas é difícil imaginar que pudéssemos ter um governo tão ruim, tão mentiroso, tão desumano, tão desorientado, tão sem projeto, tão sem nada.

A tragédia de Manaus é apenas mais um capítulo nesse show de horrores de negacionismos, de um governo inepto, sórdido e que não se preocupa com a vida.

Imagine ter o único presidente do mundo a fazer campanha contra vacinação?

É urgente o movimento pelo impeachment. Essa é uma obrigação histórica e moral do povo brasileiro.

Como observou a Mirim Leitão, em “O Globo”: “O comportamento do presidente durante esta pandemia não foi apenas execrável, foi criminoso. Ele deveria estar hoje respondendo a um processo de impeachment. Brasileiros morreram por causa da sua atitude e de suas decisões…”

Os líderes com coragem e as pessoas de boa vontade precisam agir. Não é só a nossa democracia que corre sérios riscos, mas também a vida de muitos brasileiros.
Não há nenhuma agenda mais importante neste ano que tirar Bolsonaro da presidência.

É preciso blindar a nossa democracia

Seis de janeiro entrará para história dos EUA como a primeira tentativa de golpe no país. A invasão do Capitólio nos EUA mostrou que a democracia precisa se blindar contra os novos bárbaros da extrema direita. 

Aqui no Brasil a situação com Bolsonaro não é e nem será diferente. E a nossa democracia é muito mais frágil que nos EUA. 

Há tempos o populista autoritário Bolsonaro e seguidores vêm plantando a desconfiança entre as instituições, conspirando contra os demais poderes e questionando expressamente as urnas eletrônicas.

Bolsonaro fala publicamente da necessidade de armar a população e tem feito campanha permanente nos quartéis, em cerimônias militares, fazendo discursos autoritários, sobretudo para praças e médias oficialidades, preparando militares para eventuais reações a seu favor. É apoiador das milícias digitais que produzem fakes news todo o tempo, a começar pelos seus filhos. 

É preciso reconhecer que o bolsonarismo foi um delírio coletivo e hoje representa um enorme perigo para a democracia no Brasil. Bolsonaro atenta permanentemente contra as instituições democráticas. 

Chega de falar que “as instituições estão funcionando”. Chega de passar pano e de cumplicidade. O período é sombrio para a democracia e reconhecê-lo é necessário.   

É necessário um movimento pelo impeachment de Bolsonaro. Ele não pode ficar até 2022. 

Como disse Biden em seu Twitter, a democracia é frágil e “para preservá-la são necessárias pessoas de boa vontade, líderes com coragem para se levantar, que se dediquem não a perseguir o poder e os interesses pessoais a qualquer custo, mas ao bem comum”.

Distraídos venceremos e 2021 será melhor

“Escutamos o barulho do carvalho que cai mas não escutamos o barulho da floresta que cresce” lembrou o filósofo Jean-Yves Leloup.
O ano que passou foi de muitas dificuldades causadas pela pandemia e por um presidente horroroso e autoritário, que protagonizou um festival de bobagens e de absurdos ao longo do ano.
Pior que o festival de imbecilidades e negacionismos do presidente, ele contou com apoiadores que desdenharam da pandemia e propagaram fake news. Entre eles, muitos médicos, que abandonaram a ciência e apoiaram o descaso genocida do governo federal e da sua política antivacina e anticiência.
Mas a metáfora da sintonia da floresta que cresce nos lembra que muita coisa boa também ocorreu.
Se em 2020 tivemos o pior da ciência, também tivemos o melhor. A pesquisa científica possibilitou, em tempo inédito, a descoberta das vacinas contra a Covid. Agora é torcer para que ela chegue o quanto antes para todos.
Em 2020 tivemos o fortalecimento do movimento negro, que vem marcando presença na luta por igualdade e direitos. Foi o ano da vitória da educação pública, com a aprovação do Fundeb, apesar das tentativas do governo Bolsonaro de rapinar boa parte do dinheiro para as escolas particulares e religiosas. E houve muito mais resistências invisíveis em vários campos.
Destaque-se que em 2020 foi o ano em que a democracia resistiu. Houve a derrota do autocrata Trump, uma ameaça real para as democracias, e aqui no Brasil as instituições democráticas resistiram ao populismo autoritário de Bolsonaro.
Muitos querem nos levar de volta ao atraso, mas a reação democrática tem conseguido enfrentar as forças da ignorância e trazer esperança para o mundo.
A noite não é eterna e por isso é preciso cantar o amanhecer. Forças invisíveis estão despertando. Sementes estão germinando. Distraídos venceremos, como diria o poeta Leminski. 2021 será melhor.

Quarenta anos da morte de Lennon

John Lennon faz muita falta, principalmente para nós que passamos a nossa juventude apaixonados pelos Beatles em geral, e por Lennon, em especial. 

Faz 40 anos que ele morreu. Uma morte que chocou o mundo e ainda deixa triste todos os seus fãs. 

Eu nunca o endeusei, mas ele era muito especial. As suas canções nos trazem de volta os sorrisos perdidos e as esperanças que se foram. 

Nesse mundão intolerante e conflituoso, o que seria de nós se não fosse a existência, ainda que breve, dos poetas, dos loucos, dos pacifistas e dos românticos, como John Lennon, um ser do outro mundo?

Que falta nos faz o John sonhador, que com o idealismo das suas letras ousava, provocava, ensinava e construía espaços e caminhos para um mundo mais pacífico. 

John trouxe luz para o mundo e elas ainda iluminam as noites sombrias.

“Quando a noite chegar
e a terra ficar escura
e o luar for a única luz que se vê,
não, não vou ter medo.
Oh, eu não vou ter medo,
enquanto você ficar comigo…”

À época, no trágico dia, eu era um jovem adolescente apaixonado pelos Beatles. Era difícil compreender o significado daquele acontecimento trágico, que foi o assassinato de Lennon na porta do seu prédio, o edifício Dakota, em Nova York. Lembro-me que muitos fãs suicidaram.

***

Elton John era amigo de John Lennon. Ele é padrinho de Sean, um dos filhos de Lennon. Ele traduziu a enorme perda na canção Empty Garden.

And I’ve been knocking, but no one answers. And I’ve been knocking, most all the day. Oh, and I’ve been calling “Hey, hey, Johnny!” Can’t you come out to play? “E eu estou batendo, mas ninguém responde/E eu estou batendo, a maior parte do dia/Oh, e eu estou chamando: “Ei, ei, Johnny!”/Você não pode sair para tocar?”

Saudades Lennon.

O elogio petista ao populismo autoritário de Maduro, na Venezuela

O governo Maduro é indefensável e governa uma Venezuela totalmente arruinada. Tenho amigos venezuelanos e os relatos do que se passa por lá são simplesmente assustadores.

O chavismo e o populismo autoritário de Maduro levaram aquele país ao caos. As perseguições políticas têm causado uma enorme tragédia imigratória e uma crise humanitária, com gravíssimas violações de direitos humanos. A economia da Venezuela está arruinada, com uma enorme hiperinflação. Atualmente mais de 80% das pessoas precisam da ajuda do Estado para sobreviver.

Fui colega de uma venezuelana que trabalhou comigo na OEA e ela produziu relatórios internos para a OEA sobre a situação de seu país. Tudo está muito dramático. O populismo ditatorial de Maduro faz manipulações eleitorais e eleições fajutas para se manter no poder. 

Bem, posto isso, é absolutamente inacreditável e incompreensível que o PT ainda apoie defenda e elogie oficialmente a ditadura de Maduro na Venezuela.

Em nota oficial, depois das eleições legislativas do último domingo (06/12), o Partido dos Trabalhadores expôs sua solidariedade ao governo do país vizinho. A presidente do partido Gleisi Hoffmann disse que “a realização das eleições é a resposta democrática aos golpistas que conspiram, dentro e fora do país, contra o governo constitucional e o processo de transformação iniciado pelo ex-presidente Hugo Chavez”.

Que horror! A que ponto chegou o PT. A ideologia é mesmo uma droga terrível. O PT está cultivando pretextos para que os seus partidários sejam acusados de extremistas, retroalimentando o discurso da simetria com Bolsonaro.

Enquanto isso, o Partido dos Trabalhadores continua em acelerado declínio.

Os perdedores das eleições municipais de 2020

O Partido dos Trabalhadores foi o grande perdedor nas eleições municipais. Levou uma surra, a maior da sua história. Não ganhou em nenhuma capital. Em número de prefeituras, ficou atrás de diversos partidos, como MDB, PP, PSD, PSDB, DEM, PL, PDT, PSB, PTB e Republicanos. 

Em todas as eleições municipais que disputou, desde a redemocratização, o PT sempre ganhou ao menos uma capital de estado. Em 2020 o PT não ganhou nenhuma (conforme quadro abaixo).

Em 2012, o PT elegeu mais de 5 mil vereadores pelo Brasil; em 2016, o número caiu para 2.815 e em 2020, foram 2.665.

Contra números tão evidentes não há argumentos. O PT se saiu muito enfraquecido. Recebeu o claro recado das urnas. Olhando de fora, é interessante que, ainda assim, o partido que elegeu quatro vezes um presidente, não se reinventa, nem faz autocrítica; parece que não pensa novas estratégias para esse cenário tão adverso.

Também continua enfraquecida a esquerda, de forma geral. Todos precisarão se reinventar, se quiserem reconquistar a confiança do povo. O fato é que vem diminuindo o espaço, nos tempos atuais, para a esquerda de matriz marxista-revolucionária, como o PT, o PSOL, os partidos com ideologias comunistas (PCO, PCdoB, PSTU, UP, PCB). Aliás, sejamos minimamente sensatos: possuir “comunista” no nome, em pleno século XXI, só afugenta as pessoas e municia os adversários. 

Outro ponto de equívocos da esquerda tradicional é aceitar e passar pano para os populismos autoritários de esquerda. Não se pode atacar os populismos-autoritários de extrema-direita, e tolerar, quando não elogiar, os neopopulismos de esquerda, como o regime de Maduro na Venezuela ou de Ortega na Nicarágua. Verdadeiros democratas são contra os populismos e ponto final. 

Contudo, nessas eleições o PT não foi o único perdedor. Jair Bolsonaro também perdeu como cabo eleitoral. A extrema-direita perdeu feio. Junto com ela, também perderam os discursos antipolítico e anti-sistema. A experiência de votar em malucos e aventureiros deu errado. Tivemos uma eleição normal, sem negacionismos, sem terraplanismos, sem a ideia de acabar com quem está aí. 

Quem usou a retórica bolsonarista perdeu e isso traz um certo alívio. O bolsonarismo ainda será visto como uma triste página de um momento delirante da cena política nacional. 

Nessas eleições tivemos o retorno do bom senso, do pragmatismo. E quem ganhou foram os partidos de direita, travestidos de partidos de centro. Goste-se ou não, houve o fortalecimento política tradicional.

Vitória de Biden e da democracia

“A Bíblia nos diz que para tudo existe uma estação, um tempo para construir, um tempo para colher, um tempo para semear e um tempo para curar. Este é o tempo para curar na América”, disse o presidente eleito Biden.

“Prometo ser um presidente que não vai dividir, mas unificar”, afirmou, sob o argumento de que é hora de deixar para trás uma era sombria no país. “…É hora de baixar a temperatura, de nos vermos, de nos ouvirmos… Para progredir, devemos parar de ver o oponente como inimigo. Eles não são nossos inimigos. Eles são americanos”, continuou Biden.

Com essas palavras, inspiradas no grande Mandela, Biden fez o discurso da vitória.  

A vitória de Biden e de Kamala representa enorme avanço da civilização contra a barbárie. Um importante momento de virada para os EUA e todo o planeta. 

A queda do radical Trump significa o enfraquecimento da extrema-direita e de todos os seus delírios alucinantes. Como representante da nação mais poderosa do planeta, o seu mandato deixou o mundo mais pobre de democracia, de humanidade, de dignidade, de simples padrões civilizatórios. 

Com a sua política de ódio e divisão, ele legitimou e empoderou as ações dos supremacistas brancos, dos homofóbicos, dos negacionistas, dos anti-vacinas, dos fundamentalistas, dos terraplanistas, dos antifeministas, dos ultranacionalistas, dos extremistas radicais (neofascistas, neonazistas), de todos os tipos de representantes da cultura patriarcal, e de tudo aquilo que há de mais tenebroso no mundo. 

A derrota de Trump é uma vitória da civilização contra o autoritarismo, a mentira, o ultranacionalismo cego, o isolacionismo, o negacionismo, a xenofobia.

A vitória de Biden e de Kamala será a retomada do diálogo entre as nações, do multilateralismo e da esperança de um mundo com mais democracia, civilidade e liberdade.

Pelé, o gênio reverenciado

O rei Pelé, nascido em 23 de outubro de 1940, fez 80 anos. Até o imortal Pelé envelhece…

Há alguns anos havia perdido o encanto pelo Edson Arantes do Nascimento, por conta dele nunca ter dado a mínima atenção para a sua filha Sandra, com quem ele travou longa batalha judicial, mesmo depois dela ter provado na Justiça que ele era o pai, num triste exemplo de abandono paterno.

Mas essa é outra história. Um é o Edson e outro é o Rei Pelé, autor de 1281 gols. Cada vez que vejo um gol dele, eu me apaixono mais pela leveza com a bola e com as habilidades do rei do futebol arte. Pelé, o nosso jogador majestoso que inspira milhões de jovens mundo afora. Pelé, símbolo do que sempre tivemos de melhor, que é o futebol-arte.

Lembrei-me de uma pequena história que certa vez ouvi sobre ele, em algum lugar.

Consta que em 1966 Pelé foi recebido pelo Papa Paulo VI, um papa muito conservador, que somente recebia Chefes de Estado, mas fez uma exceção para receber o “Rei do Futebol”.

Na recepção organizada pelo Vaticano, Pelé estava nervosíssimo e não conseguiu conter as suas emoções ao encontrar-se com Sua Santidade. 

Segundo a lenda, o Papa percebeu o nervosismo de Pelé, aproximou-se do então jovem rei do futebol e disse a ele algo assim: “não se preocupe e nem fique nervoso. Você não imagina como também estou feliz e emocionado em conhecê-lo”, concluiu o reservado Papa.

Rei é Rei… 

A vacina e os mentalmente infectados

Há cerca de duas décadas tive um caso na promotoria de uma família que se recusava a dar vacinas para os dois filhos pequenos. Os pais simplesmente alegavam que as vacinas faziam mal. 

Dialoguei com eles e nada. Apelei e dei o exemplo de um senhor que eu conhecia, que se arrastava pelas ruas com as mãos, depois das graves sequelas de uma paralisia infantil. Mas nada os convencia. Somente cederam depois da ameaça de serem legalmente responsabilizados pela negligência com os filhos.

De lá para cá o movimento antivacina cresceu, a ignorância ganhou vez e voz, e o negacionismo chegou ao poder, colocando sob suspeita uma das grandes conquistas científicas da humanidade no último século. 

Pela primeira vez, em quase 20 anos, o Brasil não atingiu a meta para nenhuma das principais vacinas indicadas a crianças de até um ano, conforme dados de 2019, do Programa Nacional de Imunizações.

Nesta semana Bolsonaro desautorizou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e declarou que não vai comprar a “vacina chinesa”, referindo-se à futura vacina Sinovac/Instituto Butantan. O Instituto Butantan é uma instituição com mais de 100 anos de sólidas pesquisas e sempre forneceu vacinas ao Ministério da Saúde.

Como sempre, é possível que seja mais uma bravata, e o presidente não cumpra a sua promessa. De qualquer forma, mais uma vez ele assume um posicionamento criminoso e insano. 

Tudo isso ocorre mais de um século depois da Revolta da Vacina, motim popular ocorrido em 1904 na então capital Rio de Janeiro. Esse motim popular tinha, além da questão da vacina, outras causas mais profundas, mas a que mais se destacou na história foi a revolta diante da obrigatoriedade da vacinação contra a varíola.

A história não se repete, mas deveria pelo menos ensinar. Mais de 100 anos depois, ainda são muitos os mentalmente infectados que se revoltam contra as vacinas. A começar pelo presidente, que mandou o povo ignorar a quarentena, recomendou remédio inútil e agora boicota a futura vacina contra a Covid.