Mãe, agora descanse


“Mãe, agora descanse. Sei que você se sente responsável por cada um de nós; sempre foi assim, mas é hora de repousar.

Você trabalhou a vida toda e nunca descansou. Você se lembra lá da roça? Depois de uma longa jornada diária, você era a última a dormir e ficava batendo o leite numa grande lata, para fazer manteiga para o nosso consumo e depois vender o que sobrava? Mãe não descansa, não é? 

Você sempre se preocupou muito conosco, até mesmo com coisas fora do seu alcance. Parece que as preocupações de mãe nunca se acabam!

Nos momentos mais dramáticos da sua vida você se mantinha forte e não chorava perto de nós, simplesmente para não nos fazer sofrer. Depois desmoronava num canto, sozinha, cheia de dor. As mães são muito fortes, não é? Agora descanse das suas dores. Chega de sofrer. As mães sofrem até pelos problemas que não existem.

Você era tão mãe, mas tão mãe, que cuidava também dos seus irmãos. Lembra-se? Guardava um dinheirinho para um, um presentinho para outro. Mãe é assim, cuida até dos irmãos.

Além de ensinar que o caminho mais importante da vida é o amor, você foi a melhor conselheira do planeta. Dava conselhos sábios, mesmo com pouca escolaridade. Eu me arrependi dos conselhos que você deu e não segui. Repouse, mãe! É a nossa vez! Agora os problemas são nossos. 

O seu colo faz muita falta quando estamos longe. Colo de mãe sempre faz falta, pois é insubstituível. Mas agora descanse e tenha a certeza que você cumpriu com dignidade e altivez o ciclo da vida. 

Sei que você está preocupada, principalmente com o seu filho Luiz, que anda doente, mas não se preocupe mais. Somos quatro irmãos unidos e cuidaremos uns dos outros.

Agora você está bastante debilitada e doente. Descanse maezinha. Vá em paz. Nós te amamos muito e nos encontraremos na eternidade!”
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Há pouco mais de três anos tive o privilégio de segurar as mãos da minha mãe e acompanhar os seus últimos suspiros. Ela insistia em ficar, para cuidar de nós. Fui falando, essas e outras palavras, para que ela descansasse em paz, após 87 anos intensamente vividos. Desculpem, se o texto é longo e com emoções, mas foi assim, e penso que a minha mãe representou o que representa cada uma de todas as mães. 
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Feliz dia das mães a todos: mães biológicas, mães de coração, avós, madrastas carinhosas, pais que fazem o intenso papel de mães, e todos aqueles que exercem a grande tarefa de cuidar das futuras gerações com o maior amor do mundo: o amor de mãe. ❤️🌹

O paraíso é um sorriso esperado

Esta foto é de Ahmad Sayed Rahman, menino afegão de cinco anos que perdeu a perna direita quando foi atingido por uma bala, no fogo cruzado de uma batalha. Aqui ele aparece dançando com a perna protética que ganhou, no hospital do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) para vítimas e deficientes de guerras.

Para comemorar a sua conquista – e para refletir – este fragmento do poema “Vi apenas uma vez”, do poeta checo Jaroslav Seifert, Nobel de Literatura de 1984, que fala sobre o paraíso: 

“…O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
por muito tempo esperado
e lábios
que murmuram o nosso nome
gerando assim um frágil instante fabuloso
quando depressa podemos nos esquecer
do inferno.”

Foto: Wakil Kohsar/AFP

“Uma geração constrói uma estrada por onde outra trafega”

“Uma geração constrói uma estrada por onde outra trafega”, disse Eleanor Roosevelt, que presidiu a Comissão das Nações Unidas para criar o documento mais importante do século XX: “A Declaração Universal dos Direitos do Homem”, aprovada em 1948, depois dos horrores da 2ª Guerra Mundial. 

Esta frase veio na memória ao ver o presidente Bolsonaro assinar o Decreto ampliando a posse de arma, sob aplausos e poses de arminhas de apoiadores.

Que estradas estamos construindo para as futuras gerações, se ao invés de Educação, educamos com armas? Libera-se armas para que cada um se eduque ou defenda-se por conta própria? 

O decreto é ilegal, pois a ampliação da posse de armas -praticamente liberando o porte – deveria ser regulada por lei. Também é irresponsável, pois libera armas para 20 categorias, além de armas de grosso calibre, que interessam somente a milícias e servem para armar mais os bandidos. Dos atuais 50 cartuchos, por ano, para armas de uso permitido, o decreto permite que este número suba para 5 mil. Alguém pode explicar para que tanto cartucho, se é somente para se defender? 

A Educação no Brasil corre riscos, mas agora a população também. 

Em épocas de Iluminismo versus obscurantismo, a frase de Eleanor sempre nos faz pensar num futuro de paz ou de barbárie. Quais legados esse governo e esses políticos querem deixar para as futuras gerações?

250 anos da nossa cidade imperial


Hoje a nossa cidade imperial faz 250 anos. Nasceu planejada, é bela, formosa, pacata e efervescente. Mistura natureza e vasta cultura popular. Possui grande riqueza arquitetônica, com centenas de prédios tombados, e por isso é majestosa, sem pompas. 

É terra de grandes estrelas da música e da arte. Pela sua singularidade e riqueza cultural, supera a beleza de muitas jóias européias.

São Luiz do Paraitinga é uma terra alegre, gigante na alma e no orgulho de seu povo. Viva!

Foto: A.O.

Burle Marx e a proteção da vida

Vi que o Sítio Burle Marx, no Rio, é candidato brasileiro a Patrimônio Cultural da Humanidade, da UNESCO, em 2020.

O que será que o nosso grande Burle Marx, amante da natureza, da vida e da sustentabilidade, pensaria deste momento em que o Brasil vive, com total desprezo governamental ao sistema de proteção do meio ambiente? 

Em pouco tempo estamos vendo os desmontes dos órgãos ambientais fiscalizadores, como Ibama e no ICMBio; mais venenos, com a liberação de 86 agrotóxicos, muitos proibidos em outros países; planos para acabar com a proteção das espécies aquáticas ameaçadas; a hostilização das políticas indigenistas, e agora há o projeto de lei de Flávio Bolsonaro para alterar o Código Florestal e eliminar o capítulo que prevê a criação da reserva legal de vegetação nativa nas propriedades rurais, uma das maiores conquistas das últimas décadas e que levaria em risco a proteção da Amazônia. 

Numa entrevista que Burle Marx deu à revista Veja, em setembro de 1973, republicada há algum tempo (link nos comentários), ele nos deixou um testemunho de amor à vida e preocupação com as futuras gerações. 

À época ele disse que “é tempo de o Brasil aprender a amar a natureza – as florestas, os rios, os lagos, os bichos, os pássaros”.

Enquanto muitos acreditam que patriotismo é enrolar-se numa bandeira do Brasil e gritar “Brasil acima de tudo”, Burle Marx nos deixou a grande lição: “Patriotismo para mim é proteger o nosso patrimônio, artístico, cultural, e a terra, que nos dá tudo isso”.

A verdade da mentira

Uma amiga me disse que chorou durante todo o filme “Avengers” e que viveu momentos mágicos.

Nada é tão belo como a ficção, principalmente quando a realidade está muito forte.

A ficção nos mostra que, além de racionais, somos seres bioquímicos, espirituais, emocionais…

A literatura, em particular, tem essa força sublime e estimulante para aflorar as emoções da vida, como nos mostra o poema “A verdade da mentira”, do espanhol Angel González (1925-2008): 

“Os olhos do leitor de repente se encheram de lágrimas,
E uma voz carinhosa sussurrou em seu ouvido:
– Por que choras, se tudo neste livro é de mentira?
E ele respondeu:
– Eu sei;
Mas o que eu sinto é de verdade”.

Filmar professores é inconstitucional e ilegal

“Sobre filmagens e gravações em salas de aula, sem o consentimento do Professor:

1 – Em nenhuma democracia liberal do mundo o professor pode ser filmado ou gravado em sala de aula, sem a sua anuência. 

2 – Escola não é ambiente para fiscalização e denuncismo. A qualidade do ensino melhora com diálogo, participação e parceria, caminhos necessários para a construção conjunta do saber. 

3 – Salas de aulas são espaços privados, mesmo que pertençam à rede pública, pois delas participam somente os funcionários credenciados nas escolas e os alunos matriculados. 

4 – Filmar ou gravar em espaços privados, sem a anuência dos interlocutores, é violação do direito à inviolabilidade da imagem, da vida privada e da honra das pessoas (art. 5, X, da CF), gerando o direito à indenização por dano material ou moral, em caso de exposição ampliada e indevida.

5 – As aulas e os materiais de apoio produzidos pelo professor lhe pertencem e não podem ser reproduzidos sem prévia autorização, sob pena de violação da lei dos direitos autorais previstos na Lei 9.610/98, sujeitando o infrator à indenização.

6 – As gravações ou filmagens, feitas com anuência, somente podem ser reproduzidas em ambientes privados, para fins de estudo. 

7 – Em situações de abusos, arrume as provas possíveis através de testemunhas e documentos das redes sociais, e faça um relatório para a Coordenação ou Direção da sua escola, para fins de conhecimento e preservação de provas. Guarde os documentos para ulteriores providências, em caso de necessidade. 

8 – Diante da violação de direitos, se necessário, o professor deve procurar a ajuda do seu Sindicato ou dos órgãos de garantias, como a Defensoria Pública e o Ministério Público. O Poder Judiciário só deve ser acionado em situações mais graves, como a ocorrência de crimes, danos morais e materiais, ou para cessar algum fato danoso em andamento.

9 – Sempre é importante dialogar, conscientizar e regulamentar, essas e outras questões, consensualmente com os alunos, pais e a comunidade escolar.

10 – Liberdade com responsabilidade, eis o caminho do equilíbrio. A Constituição garante a liberdade de manifestação do pensamento, da atividade intelectual e científica; a liberdade de cátedra e o pluralismo de ideias (Arts. 5 e 206 CF). A liberdade é o pilar básico da democracia!”

Saudações aos mestres. Paz e bem! Antonio Ozório.

Macartismo à brasileira

O Ministro da Educação disse que filmar professores em sala de aula é um direito dos alunos.

Pois bem. Temos mais de 2,5 milhões de professores que diariamente vão cedo para o chão das escolas lutar pelo ensino e Educação do nosso país. Enfrentam todas as adversidades possíveis, como baixos salários, chuva, frio, sol, violência.

Agora terão que se preocupar também com o patrulhamento e o denuncismo dos alunos, incentivados oficialmente pela maior autoridade da Educação, que ameaçou analisar os casos filmados.

Registre-se que em nenhuma democracia liberal do mundo o professor pode ser filmado, a menos que ele permita. É inconstitucional; é ilegal. Mas o ministro, que já disse que comunista precisa levar um tiro na cabeça, segue com as obsessões olavistas do anticomunismo e do combate ao marxismo cultural. 

Nos anos 1950 o senador McCarthy liderou uma campanha anticomunista nos EUA. Milhares de pessoas inocentes foram investigadas pelo FBI e tornaram-se vítimas de caça às bruxas, entre as quais Charles Chaplin. Os abusos foram tantos que a opinião pública se indignou e rebelou-se contra McCarthy, que morreu decadente e no ostracismo.

Ou reagimos todos, professores, sindicatos e população, contra este estado de coisas, ou viveremos nas escolas os tempos sombrios de um macartismo à brasileira.

O MEC e a divisão (e exclusão) dos saberes

Há algum tempo a Finlândia anunciou uma revolução: pretender acabar com as disciplinas nas escolas. O país é protagonista em educação de qualidade e deseja uma educação amplamente interdisciplinar, que agregue os conteúdos, ao invés de dividir o conhecimento em disciplinas.

O ousado exemplo mostra uma tendência adotada nas últimas décadas por todos países desenvolvidos: integrar o ensino das ciências humanas, exatas e da natureza. 

A integração das disciplinas tem levado séculos para ocorrer. O conhecimento tradicionalmente foi compartimentado e disciplinarizado em ramos da ciência; no interior de cada um deles, as disciplinas. Com isso, o saber sempre ficou fragmentado e isolado.

Entretanto, a partir do século XX, a divisão dos assuntos em disciplinas rígidas, levou a dificuldades para construir explicações da realidade, na qual as coisas estão conectadas, interdependentes e interligadas, a exigir soluções compartilhadas para lidar com as crescentes incertezas e complexidades. 

Diante dos problemas fundamentais do planeta, a união dos saberes passou a ser essencial. Décadas de pesquisas comprovaram que a integração entre as diferentes áreas de conhecimento é mais fecunda e produtiva socialmente do que a separação entre elas ou a exclusão de algumas delas.

Em qualquer nível de ensino, desde o básico até o superior, o caminho ideal do futuro será a inclusão e a integração das disciplinas, para construir solidamente o saber científico e gerar visões mais transdisciplinares.

No Brasil do atraso o caminho é inverso dos países evoluídos. Ao invés de integração e harmonização das ciências, fala-se em exclusão. O objetivo é dar menos prestígio, enfraquecer, ou mesmo excluir dos currículos as áreas de humanas, como filosofia, sociologia e ciência política.

Desde 1901 foram concedidos quase 600 Prêmios Nobel para dezenas de países. A Argentina tem 5 prêmios. Nós nunca ganhamos um e desse jeito nunca ganharemos.

O nosso subdesenvolvimento é o resultado dos grandes e incessantes investimentos em ignorância e precariedade, que sempre marcaram nossa história. A pergunta é sempre atual: que sociedade queremos ser?

O presidente e as suas polêmicas

Nos últimos anos trabalhei em São Paulo, capital, e morava em Taubaté. De vez em quando ficava hospedado em hotéis na capital. 

Havia uma época do ano em que eu ficava atento às reservas, pois elas eram escassas: era o período que antecedia e sucedia a “Parada Gay”. Os hotéis, desde os mais simples aos mais sofisticados, enchiam de turistas de vários lugares do mundo. 

Houve dias que cheguei a ficar sem hospedagem por conta das lotações e tive que voltar para o interior.

Curioso, à época procurei saber, e a Parada Gay era o segundo evento que mais movimentava a economia de São Paulo, depois da Fórmula 1. 

Durante estes eventos fiquei sabendo da importância do rentável, inofensivo e pacífico turismo gay; descobri que o Brasil é um dos países procurados pelos gays, pois sempre foi um ambiente agradável, aberto, respeitoso e receptivo ao público LGBT. 

Ao fazer uma breve pesquisa no Google vi que o turismo gay movimenta bilhões em todo o mundo, a ponto do Brasil e muitos outros países, como Israel, França, EUA, Canadá, Alemanha, sempre ter incentivado este tipo de turismo, como forma de aquecimento dos negócios.

Porém, diante das declarações do presidente, de que “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, (o Brasil) não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay”, vamos perder mais turistas e aumentar a nossa fama de país homofóbico. 

Enquanto o Brasil espera pelas reformas o presidente continua a se envolver em polêmicas e continuamos na contramão da história.