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O poeta que usava a palavra para compor seus silêncios

O admirável poeta Manoel de Barros (1916/2014) gostava de brincar com a língua e apreciava as grandiosas “pequenezas” do mundo.

 Ele “usava a palavra para compor seus silêncios”. Dizia que não era “bom entendedor das coisas grandes. Mas… menos ainda, das coisas pequenas.”

O “homem que permaneceu menino até a velhice” era um grande inventor da boa poesia e de frases geniais como “Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades.” Possuía uma das qualidades mais interessantes daqueles que sabem viver com sabedoria: a simplicidade. Abaixo o belo poema “A maior riqueza do homem”.

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

In: Retrato do artista quando coisa, Editora Record.

Aprender e praticar a democracia desde a primeira infância

Este é o primeiro texto sobre democracia deste espaço. Sempre que for possível vou escrever sobre sobre o tema, sem uma ordem sequencial.

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Fui convidado a colaborar com o livro “Primeira Infância no Sistema de Garantia de Direitos de Crianças e Adolescentes”, recentemente lançado pelo instituto Alana, e escrevi o capítulo chamado “A Gestão Participativa na Educação Infantil”.

Por que escrevi sobre a necessidade de participação democrática desde pequeno, lá na Educação Infantil? 

1 – Não somente porque é previsto em lei, mas porque democracia pressupõe o diálogo, a escuta e a participação, e estes valores precisam ser praticados desde o nascimento da criança, na família, na escola e na comunidade.

2 – Porque ambientes democráticos melhoram a qualidade do ensino e permitem grandes aprendizados dos valores da democracia, como o diálogo, a interatividade, a escuta, a paciência, a alteridade, a fraternidade, a liberdade, a tolerância, a igualdade de direitos, a prevalência da vontade da maioria, a participação, entre tantos outros. 

3 – Porque a experiência democrática é um constante aprendizado que aos  poucos vai se incorporando à prática escolar através da realização de assembleias, de rodas de conversa, da escolha de representantes, da formação de protagonistas, do aprendizado sobre legitimidade, democracia e a importância da mobilização social. Diálogo se aprende dialogando. 

4 – Porque democracia é prática e não discurso. Por isso é preciso fornecer os espaços participativos, os meios de comunicação, facilitar boas ambiências para o diálogo, criar rotinas de respeito a todos e construir projetos que sejam político-pedagógicos participativos.

5 – Porque quem aprende os valores da democracia será um cidadão melhor, mais altruísta e mais preocupado com os valores da sociedade; será um ser humano melhor, pois aprenderá a ouvir, a aceitar a opinião dos demais, a respeitar os seus familiares, cônjuge, filhos, amigos, e pessoas em geral.

Para os que tiverem interesse em conhecer um pouco mais sobre o diálogo, a participação e a escuta de crianças, abaixo segue o link do livro, cujo texto está a partir da página 145.

https://prioridadeabsoluta.org.br/wp-content/uploads/2019/06/primeira_infancia_no_sistema_de_garantia_de_direitos_de_criancas_adolescentes.pdf

Uma simples opinião sobre a Reforma da Previdência

Esta não é uma análise sobre a reforma da Previdência, pois não sou especialista no assunto. São apenas observações gerais, de uma pessoa curiosa com os grandes temas de nosso país. 

Ninguém de bom senso duvida da necessidade da reforma da Previdência. Há décadas o Brasil está praticamente estagnado em termos de desenvolvimento econômico e esta é uma das reformas mais urgentes. Não é uma questão ideológica, mas sim lógica e matemática. 

Por outro lado, lamenta-se que o país não tenha tido condições de realizar uma reforma tributária, em paralelo com a reforma previdenciária, com aprovação conjunta. Se o objetivo era também combater privilégios, isto precisava ser feito.

A reforma da Previdência, em trâmite, foi aprovada em primeiro turno na Câmara, com folga de votos. Não por virtude do governo Bolsonaro, que mais atrapalhou do que ajudou, mas pelo protagonismo do parlamento, sob a liderança de Rodrigo Maia.

É assim que deve ser numa democracia, com o protagonismo do parlamento, que faz a sua parte. Independentemente de ideologia, Maia tem se mostrado um competente líder parlamentar. Ele tem um bom tom conciliatório, necessário na política, sobretudo nos tempos atuais; vai se firmando com o um grande líder político, num país polarizado. 

Maia é um dos vencedores desta fase da reforma. Bolsonaro teve apenas o mérito de enviar a proposta ao Parlamento, mas não suou a camisa para a sua aprovação na Câmara; chegou a atrapalhar em muitos momentos, patrocinando diretamente os interesses dos policiais.

É claro que, como bom populista, depois do esforço dos demais, e após ter cedido à velha política e de liberar milhões em verbas orçamentárias para os deputados, dirá que foi um grande realizador da reforma.

O Centrão, constituído de políticos oportunistas, e que sempre representou o atraso da nossa política, continua forte no Parlamento. Foi decisivo para a grande vitória na aprovação na Câmara. Claro, como se disse, depois que o governo Bolsonaro, que falava em moralizar a política – e muita gente acreditou ser verdade – ter liberado R$ 2,5 bilhões em emendas antes da votação.

Liberar emendas orçamentárias como moeda de troca é de uma imoralidade sem tamanho. Mas enfim, esta é a velha política. Bolsonaro disse que seria a nova política, mas isto só existe na retórica de populistas.

Os servidores públicos em geral foram sacrificados. Alguns setores corporativos ganharam, principalmente os policiais (federais, rodoviários, legislativos, civis do Distrito Federal e agentes penitenciários), que mantiveram os seus privilégios e condições especiais, além dos militares, que foram separados num projeto à parte.

Nesta fase de votações, a esquerda foi derrotada. Muitos procuraram jogar a culpa em terceiros ao invés, também, de fazerem autocríticas. Faz tempo que a esquerda precisa fazer autocríticas.

Também não foi bom para os Estados e Municípios, que foram excluídos da reforma, e perderam a oportunidade de reencontrar, de vez, o caminho para melhorar os seus orçamentos, hoje com rombos gigantescos.

No mais, perderam os trabalhadores mais pobres, aqueles do regime geral. A reforma pretendeu combater privilégios, mas vai gerar mais desigualdades. Aumentou a desigualdade do acesso à aposentadoria. Os mais pobres, que começam a trabalhar desde criança, dificilmente conseguirão contribuir 40 anos para a aposentadoria integral; talvez nem os 15 anos para a aposentadoria parcial. Terão que suar a camisa para conseguir uma aposentadoria aos 65 anos. 

Portanto, se era para combater privilégios, tônica dada todo o tempo pelo Governo, o ideal é que o país realizasse em conjunto a reforma tributária. O Brasil, junto com a Eslováquia e a Estônia, é um país que não taxa dividendos. Isso é privilégio. Sim, o detentor do capital não paga impostos sobre sua renda em lucros e dividendos. O mesmo ocorre com quem presta serviço como pessoa jurídica. O Brasil é um paraíso pra que as grandes empresas, sobretudo as multinacionais, que faturam e enchem os bolsos em nosso país. Também não temos impostos sobre heranças e muitos outros privilégios espalhados por aí. 

Uma das formas de reduzir a desigualdade seria montar um sistema tributário que mantivesse o investimento produtivo e elevasse a arrecadação do Estado, taxando a renda e o patrimônio das camadas mais ricas, para permitir os gastos sociais e assegurar benefícios gerais. 

Não há dúvidas que com a reforma o país ganha em termos de crescimento econômico e desenvolvimento; ganha no conjunto e a longo prazo. A própria população tem reconhecido isto. Mas infelizmente o país continuará a proteger o mercado e as instituições financeiras, os verdadeiros privilegiados. O pobre, coitado, este sim, será abandonado à sua própria sorte. Ganhou o capital e perdeu o trabalhador brasileiro.

O Brasil continuará sendo um país injusto e desigual, como sempre. Para melhorar a justiça social não se pode somente retirar direitos. É preciso mexer nos privilégios. 

Lava Jato & Vaza Jato: a liberdade de imprensa e a democracia

O dever da imprensa é divulgar.

A liberdade de informação é sagrada numa democracia e o papel da imprensa é publicar, assegurado o sigilo da fonte, não importando se esta fonte obteve a informação de forma lícita ou ilícita. É assim que deve ser.

Quem conhece um pouco da nossa história e hoje ataca as divulgações do “The Intercept”, e de outros setores da imprensa, naquilo que se chamou de “Vaza Jato”, desconhece ou ignora, a importância da imprensa para a democracia, pois as divulgações do referido site são de evidente interesse público. Só não acredita quem não quer.

“Ah, mas as informações foram obtidas através de hackers!” Sim, mas se tais informações foram obtidas de forma ilícita, a fonte que as forneceu é que deve ser investigada, e eventualmente processada, não o órgão de imprensa que as divulgou. 

“Sim, mas tais notícias não servem como provas.” Tudo bem, mas continuam sendo notícias. 

O que não dá é para ameaçar, ou abrir investigações, ou fazer ataques contra o órgãos de imprensa, pois estaríamos dando mais um passo em direção ao arbítrio, ao Estado policial. 

Democracia é com liberdade e imprensa atuante.

“Ah, mas é mídia de esquerda e, portanto, tendenciosa.” Não importa. Seja mídia de esquerda ou de direita, o papel da imprensa é divulgar.

Se valesse o argumento de que o The Intercept é tendencioso por ser um veículo partidário da esquerda, o mesmo valeria para “O Antagonista”, que seria o veículo partidário da direita. 

O Antagonista, Brasil247, Diário do Centro do Mundo e tantos outros veículos que têm tendências políticas, goste-se ou não, são órgãos de imprensa e têm as suas relevantes importâncias para a democracia. Precisamos defender o seus direitos de liberdade de expressão. Não podem e não devem ser investigados. 

Um pouco de história de um presidente que afrontou a liberdade de imprensa.

No final de 1989, depois de quase três décadas, o Brasil vivia um momento histórico e elegia um presidente por meio de voto direto: Fernando Collor de Mello.

Como governador de Alagoas, Collor havia enfrentado alguns funcionários com super-salários e isto o tornara conhecido nacionalmente como o “caçador de marajás”.

Apesar de ser candidato por um partido inexpressivo, o Partido da Renovação Nacional (PRN), ele foi eleito com o seu discurso demagógico de livrar o país da corrupção e a promessa de modernizar a economia.

O então mais jovem presidente do Brasil tomou posse em janeiro de 1990. Como todo populista com ares autoritários, Collor tinha um problema: não gostava da imprensa livre. Começou o seu governo atacando a imprensa e considerava a Folha de S. Paulo um jornal inimigo.

Dias depois de tomar posse ele deu sinal verde para que a Receita e a Polícia Federal invadissem o jornal e meses depois processou alguns de seus jornalistas.

A invasão gerou intensa repercussão nacional e internacional, com notas de repúdio, pois todos sabiam que naquele processo de redemocratização que o país vivia, precisávamos de uma imprensa livre. 

O fato é que depois de muitos episódios conturbados em seu governo, logo começaram as denúncias de corrupção. E a imprensa, livre a atuante, teve um papel fundamental na divulgação das denúncias. 

Uma série de matérias investigativas levadas a cabo pela própria Folha de S. Paulo, e pelas revistas Veja e Isto é, mostraram o envolvimento de Collor em um esquema de corrupção organizado pelo seu ex-tesoureiro de campanha, Paulo César Farias. 

Uma das acusações contra Collor foi feita pelo seu irmão, Pedro Collor, e apontou a existência de um esquema de desvio de dinheiro para paraísos fiscais, montado por PC Farias. 

As ligações entre Collor e PC Farias foram comprovadas depois pelo depoimento do motorista Eriberto França, que confirmou que transportava os cheques das empresas de PC Farias, que pagavam as despesas pessoais de Collor e sua esposa. A prova definitiva veio com um cheque-fantasma utilizado por Collor para comprar um veículo Fiat Elba. 

As denúncias de corrupção, aliadas a uma desastrosa política econômica, geraram intensa indigação popular que levou o povo às ruas para protestar contra Collor. 

Pela primeira vez na história houve o desfecho de um processo de impeachment contra um presidente, e Collor renunciou pouco antes da sua condenação pelo Senado. 

O Brasil recém saíra do Regime Militar e muitos pensavam que a então jovem democracia não resistiria ao trauma de um impeachment. 

Resistiu e a imprensa livre teve um importante papel nequele processo.

Sob fogo cerrado.

Até agora não foi confirmada a suposta investigação contra o The Intercept ou o seu jornalista responsável. Se confirmada, podem ter certeza que o governo Bolsonaro em geral, e Moro em particular, vão arrumar uma legião de críticos por parte da imprensa e de órgãos defensores da liberdade de expressão, entre eles organismos internacionais. Consequentemente perderão ainda mais o apoio popular, cuja erosão já é nítida. 

Moro está sob fogo cerrado e as críticas contra ele, até de setores mais conservadores, têm aumentado a cada série de revelações. 

Não se sabe o que vai ocorrer. Pelo menos o lado bom de tudo isto é saber que a imprensa está funcionando no Brasil. Um democracia funciona bem com liberdade e com imprensa atuante.

A Tragédia de Sarriá

Trinta e sete anos da tragédia de Sarriá, ocorrida em 05 de julho de 1982. Passou rápido demais. Para quem não sabe, a tragédia de Sarriá se refere à derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982. Uma grande dor para o povo brasileiro.

Aquela foi a seleção das seleções, fez o show dos shows e a arte das artes, de um futebol que encantou o mundo.

Porém, nas “quartas de final” um tal Paolo Rossi, que ninguém conhecia, fez três gols e colocou água no chope na empolgação e na comemoração dos brasileiros: Itália 3 x 2 Brasil. O carrasco brasileiro tornou-se um herói italiano. 

Imagina uma seleção de craques? E quando falamos em craques não pensamos em qualquer um, mas sim em gênios do futebol, como Oscar, Toninho Cerezo, Sócrates, Zico, Falcão, todos que brilhavam naquela seleção.

Uma densa bruma naquela noite de inverno misturou-se com o desalento dos brasileiros, tornando aquele dia muito frio e triste, passando a sensação para os mais jovens, como éramos à época, de que a vida é sempre triste.

“Nunca uma seleção brilhara tanto numa Copa do Mundo”, diziam uns; perdemos por excesso de confiança”, diziam outros. 

Nunca entendi direito essa história de que o “excesso de confiança” faz alguém perder alguma coisa, mas que a derrota naquele ano foi uma marca indelével na alma dos brasileiros, isso foi. 

Que show minha gente! Assistam! A maior seleção de toda história.

Copa 1982

QUANDO ALGUÉM PERGUNTARse a seleção de 1982 jogava bem , mostre isso… Simplemente genial#SintomadeCultura

Publicado por Sintoma de Cultura em Domingo, 24 de junho de 2018

Meritocracia e protagonismo juvenil

Todos os dias vejo argumentos, nos grupos e nas redes sociais, de que o sucesso profissional depende exclusivamente dos esforços e dedicações pessoais de cada um. Fica a impressão de que basta lutar, trabalhar e estudar que todos vão  conseguir um lugar ao sol, arrumar um bom trabalho, etc. 

Esse preceito liberal, elevado às últimas consequências, não é uma verdade em nenhum lugar do mundo, muito menos aqui no Brasil, país historicamente marcado pela exclusão, desigualdade social, violência, patriarcalismo, machismo, racismo, homofobia, preconceito social e tudo o mais. 

Falam tantas bobagens por aí: que você pode começar do zero, que não é preciso esperar nada do Estado, que a sua situação social e a sua cor em nada interferem, que somos um país livre e por isso basta ter luta e fé. Ah, está bem! 

Esses argumentos são simplistas, reducionistas e buscam legitimar a ausência do Estado nos programas sociais. 

O discurso de que “você pode” e de que “todos nós podemos” é sempre muito relativo! É preciso combater este mito, esta falácia! 

É claro que estas constatações nada tem a ver com resiliência, fé, força de vontade, esperança e tudo o mais que se espera de cada um para conquistar êxitos pessoais ou profissionais.

Eu mesmo sou prova disso. Trabalhei desde os doze anos de idade: na roça, em padarias, em fábrica de blocos, etc, e somente fui fazer a faculdade aos 25 anos de idade, com crédito educativo, pois antes não tinha nenhuma condição financeira para tanto. Não fosse o apoio estatal eu não teria conseguido fazer o curso superior e jamais teria sido Promotor de Justiça.  

Com o apoio do Estado pude estudar; fazer a faculdade. Claro que, para passar no concurso, aí sim, houve um grande sacrifício pessoal e de toda a família. Foram intensos estudos ao longo de sete anos, desde o primeiro ano da faculdade, até o ingresso no Ministério Público.

Portanto, sou testemunha de que o protagonismo pessoal e a meritocracia até podem (co)existirem. Contudo, se não houver programas governamentais de inclusão escolar e social, os jovens pobres e excluídos das periferias jamais conseguirão sair do lugar. 

É surrado e simplista o discurso de protagonismo juvenil, de que tudo depende do esforço pessoal e que o mérito nos leva ao sucesso. Bolsonaristas liberais (e pouco informados) defendem estas ideias. Isto pode valer para uma meia dúzia de dedicados/sortudos, mas não vale para os nossos milhões de jovens excluídos da escola, da sociedade e à margem de tudo. E como estão à margem, serão sempre marginalizados (aqui marginais não no sentido pejorativo).

A desigualdade já começa com aqueles que nascem brancos e homens. Duvida? Basta olhar do lado e ver na sua organização quantos negros e mulheres estão no comando. Depois veja as estatísticas oficiais. Não precisa ir muito longe. 

Depois do nascimento a igualdade continua com aqueles que logo conseguem uma creche para estudar. Ou vão dizer que aquele que estudou em creche e pré-escola até os cinco anos não está em situação absurdamente desigual com aqueles outros que somente conseguem entrar na escola aos seis anos de idade? Se você for uma criança maltrapilha, negra ou com deficiência a sua situação será muito pior.

O discurso embasado na meritocracia, numa sociedade tão desigual e injusta, é elitista e desumanizante; desresponsabiliza o Estado, confunde virtude com conhecimento, estabelece que o sucesso só depende do esforço pessoal e coloca no indivíduo o peso da ausência de políticas públicas do Estado para as crianças e jovens. 

Mini-crônica de um momento de ternura

Estava no supermercado, com vários produtos para passar na fila do caixa e, de repente, chegou uma moça com apenas um volume nas mãos.

Olhei para ela e lhe disse para passar na minha frente, mas ela continuou imóvel. Gesticulei, falei novamente, e aí ela entendeu e passou na minha frente. 

Em seguida deu um pequeno grito. Foi quando percebi que ela era muda. 

Com dinheiro na mão, e com gestos, ela pagou a sua conta, olhou para mim e sorriu. Na sequência, com um misto de vergonha e coragem, ela veio até a mim e me deu um leve abraço de agradecimento; depois foi-se embora. 

Não sei por qual razão, mas fiquei sensibilizado com aquele abraço da moça. Foi um pequeno gesto, mas um grande momento de ternura! 

O mundo precisa de mais ternura!

Homenagem à Luna

Há 3 anos, quando a Luna faleceu, ficamos muito tristes. Foi uma grande choradeira para todos, pois foram muitos anos juntos; ela fazia parte de nós e nós fazíamos parte dela, da sua vida, dos seus olhares, dos seus amores e cuidados por nós. 

Colocamos ela no carro e fomos para a roça para sepultá-la. No caminho, paramos num canteiro de flores e compramos uma muda de Manacá da Serra. Ela seria enterrada e no mesmo lugar plantaríamos o Manacá. 

Plantamos. Era inverno e a muda de Manacá teve dificuldades para sobreviver. Ao final sobreviveu e ficou belíssimo, conforme esta foto que recebi hoje dos meus familiares. 

Luna foi para o céu dos bichos, mas a sua lembrança tornou-se eterna entre nós, seja pelas suas histórias ou pelo Manacá que ficou em seu lugar. 

E assim Luna continua a brilhar e a iluminar para sempre as nossas vidas. E o Manacá passou a fazer parte destas lembranças e desta história. 

Retrocessos no campo dos valores

O governo Bolsonaro orientou a diplomacia brasileira a frisar que “gênero” é apenas biológico, ignorando os avanços do mundo civilizado na luta contra as desigualdades e preconceitos. 

A posição do Brasil causou mal-estar e perplexidade na ONU esta semana.

Como relatou Jamil Chade, blogueiro do UOL e correspondente em Genebra, até aliados do governo Bolsonaro, como Israel e Chile, recusaram a apoiar a decisão brasileira. Os canadenses, escandinavos e países europeus dizem que o termo não pode ser eliminado. Só a Arábia Saudita apoiou a nova posição do governo brasileiro.

Sociedades e países avançados consolidaram o reconhecimento de que a espécie humana comporta toda uma gama de identidades de gênero. Os avanços da ciência e das liberdades individuais permitiram que “novas” caras e identidades ganhassem reconhecimento e representação. 

A sigla LGBTQI+, é um esforço para representar essas identidades e mostra a complexidade e as especificidades de cada ser humano, que abrange Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Queer, Intersexuais e a sigla +, que inclui tudo o mais, como assexualidade, agênero, andrógino, bigênero e outros. 

A diferença entre as pessoas não é somente cultural e inclui fatores genéticos, anatômicos, fisiológicos e hormonais. 

Os tabus e as proibições sempre empurraram as pessoas que transcendem a lógica binária homem-mulher para a clandestinidade, vítimas do preconceito e da discriminação. Por isso não é possível que tenhamos retrocessos. 

Contudo, o Brasil caminha na direção contrária e rapidamente vai rasgando a sua reputação diante do mundo civilizado. No campo dos valores vai se alinhando com os países mais retrógrados de nosso planeta.

O poder da fotografia

Entre as fotos mais famosas da história está a da “Mãe Migrante”, de Florence Thompson, feita pela fotógrafa Dorothea Lange, em 1936, durante a Grande Depressão Americana.

A então mamãe Florence, com 32 anos de idade e sete filhos para criar, perdera o marido e trabalhava no campo, na região de Nopono, Califórnia. Andavam famintos e desesperados, vivendo de vegetais e pássaros que as crianças matavam. 

Foi então que a fotógrafa Dorothea, que viajava pelo país para registrar otrabalho dos migrantes e imigrantes, aproximou-se e fez um conjunto de fotos que entraram para a história. 

O que mais marcou nas fotos da Mãe Migrante foi o desalento no olhar daquela mãe. Apesar da crueza das fotos, elas serviram para trazer mais esperança de dias melhores; motivaram uma ajuda alimentar emergencial aos trabalhadores rurais do país e mostraram ao mundo o enorme impacto da Grande Depressão na vida dos trabalhadores rurais.

A fotografia está ligada ao momento, ao instante, e depois se liga à eternidade. Muitas outras fotografias ajudaram a mudar o mundo! 

Não será diferente com a fotografia do papai Óscar (25) e sua filha Angie (02), feita pela repórter Julia Le Duc, que chocou o planeta e doeu na alma de todos. 

A foto chamou a atenção até do Papa, mobilizou as organizações internacionais e sensibilizou os políticos mundo afora, incluindo o insensível Trump. 

Esperemos que a impactante foto mude o olhar de todos sobre os dramas humanos que envolvem a imigração. 

O mundo que mata crianças precisa ser melhor; não se pode pensar só em dinheiro e em poder. Precisamos de um mundo mais humano.

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Foto 01: Dorothea Lange; foto 02: Julia Le Duc