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Tempo do fazer e do ter x tempo do ser e do estar.

Antes da pandemia estávamos acostumados ao tempo do “fazer” e do “ter”. Tudo mudou durante o isolamento. Desacelerados, o tempo já não é mais medido como antes. 

Que dia é hoje? Que horas são? As horas são confusas e os dias se atropelam entre ontem, hoje e amanhã. A noção do tempo se mistura. 

Perdemos as rotinas daquelas atividades que separavam os fins de semana dos dias normais. Às vezes fica a impressão que não há fins de semana ou dias úteis.

A alteração da rotina tem gerado mudanças nas nossas vidas. Desacostumados com o tempo disponível, ficamos desorientados e nos perdemos; às vezes até levamos mais tempo para concluir as nossas tarefas. 

Tenho aproveitado toda essa situação para refletir sobre o real valor do tempo na minha vida. Paro, penso e faço perguntas a mim mesmo: por que não temos tempo para fazer as coisas que gostamos? O que tem acontecido com o tempo? Quais são e quais serão as prioridades na minha vida? O que me falta? 

Depois que tudo passar, como conduzirei melhor o tempo? Quais leituras vou priorizar? Quais músicas quero ouvir? Vou meditar mais? Vou ter mais paciência com a espera? E com as pessoas? Com quem quero me relacionar mais e melhor? Como vou sentir melhor o tempo?

Eu sei que estamos acostumados ao tempo do “fazer” e do “ter”. É difícil mudar hábitos de vida. Mas a pandemia está nos trazendo uma oportunidade única e preciosa de priorizarmos as nossas escolhas. É um momento de aprendizados e, quem sabe, de reintegrarmos às nossas vidas o tempo do “ser” e do “estar”. Ainda há tempo!

Renascer e renascer até a morte.

Os velhinhos fazem parte das emocionantes imagens daqueles que se recuperam da Covid-19. Aplaudidos por médicos, enfermeiros e cuidadores, a cada dia eles saem dos hospitais, de volta ao show da vida.

Numa rápida busca no Google dá para ver vários velhinhos centenários que sobreviveram, destacando-se o mais idoso William Lapschier, de 104 anos, do Oregon, EUA.

Nesta semana foi a vez de Julia Dewilde, de 100 anos, que teve alta na Bélgica, e da brasileira Dona Nair Torres Santos.

Entre os que se recuperam estão os centenários, nonagenários, octogenários e idosos em geral. Voltarão para a vida normal e para a convivência familiar. E alguém duvida que muitos continuarão na vida social, com os seus trabalhos e pesquisas?

Como já citei em outro post, dos 15 vencedores do Prêmio Nobel de 2019, 9 eram idosos: três sexagenários, quatro septuagenários, um octogenário e o recordista John Goodenough, Prêmio de Física, com os seus incríveis 97 anos. 

Não sabemos se chegaremos lá, mas a força e o entusiamo de muitos idosos são inspiradores.

O pensador Edgar Morin com os seus 99 anos continua dando palestras e anunciou nesta semana a publicação de um livro de mais de 700 páginas. Morin é um farol neste mundo tão desafiador. 

É também o mestre Morin quem nos ensina que a vida é feita de constantes recomeços e renascimentos. Uma de suas máximas preferidas, citada no livro “Meu Caminho”, é plena de significados: é preciso “renascer e renascer até a morte”.

Julia Dewilde, de 100 anos, que teve alta na Bélgica.
A brasileira Nair Torres Santos.

E daí?

No mesmo dia em que a pandemia batia recorde no Brasil e multidões se aglomeravam nas longas filas da Caixa para escapar da fome, Bolsonaro fazia tiro ao alvo. Ao ser indagado sobre o recorde do número de mortos, ele perguntou: “E daí?”.

E daí que Bolsonaro não está preocupado com aqueles que choram os mortos. Não tem empatia e nem compaixão. Não consegue palavras espontâneas de conforto às famílias das vítimas. 

O mal já está tão impregnado nas suas falas e condutas que virou rotina. Poses de arminhas, elogios a torturadores, deboches sobre a pandemia, comentários atrozes, ataques contra o isolamento social, nada mais lhe parece ser o mal, que já se tornou banal. É o mal como causa do mal, de que nos fala a filósofa Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém”, livro no qual, ao analisar o comportamento insensível do carrasco nazista, ela desenvolveu o conceito de “banalidade do mal”, a face superficial da condição humana. 

E daí? E daí que é preciso intensificar o movimento pelo impeachment, ainda que no meio da pandemia. É preciso parar o inconsequente, o insensível, e o autoritário Bolsonaro. A continuidade de um presidente assim está sendo e será um enorme perigo para o país.

Ajudar nas tarefas da cozinha

Combinei com minha esposa Dani que vou cozinhar mais em casa. Sei das minhas limitações, mas procuro ser colaborativo e senti a necessidade de ajudar mais diretamente na cozinha. Além disso, cozinhar é uma boa terapia em épocas de nervos à flor da pele.

Desde crianças eu e a minha irmã trabalhávamos fora e dávamos os nossos pulos para ter comida em casa. Sempre ajudei como pude. 

Ao longo da vida, morei muito tempo sozinho e fazia a minha própria comida. 

Mas confesso que cozinhar definitivamente é uma arte e nunca foi o meu forte. 

Certa vez deixei o feijão cozinhando na panela de pressão e fui para a escola. Eu tinha uns 13 anos. Ao final do dia, quando voltei, toda a vizinhança estava impressionada e falando alto sobre um cheiro de amendoim torrado que invadia toda a rua. Cheguei em casa e a panela de pressão estava uma imensa bola incandescente, toda queimada, depois de horas com o fogo ligado.

Por várias vezes deixava a água fervendo, saía para a rua, e quando voltava o fundo da caneca estava derretido, com um imenso furo embaixo.

Minha história de cozinheiro é cheia de contratempos, dissabores e muitas histórias. 

Atualmente ficou mais fácil porque a internet ajuda muito, com as receitas e os tutoriais. 

De qualquer forma, decidido a cumprir bem a minha promessa eu tirei um velho e manchado livro da estante, que já me socorreu bastante nos velhos tempos. Chama-se “Guia para a sobrevivência do homem na cozinha”. Ensina até a fritar ovos. Agora vai!😁😉

Tudo já foi dito, mas é preciso dizer de novo

Dia da Terra. Foi o cientista inglês James Lovelock que elaborou a hipótese Gaia segundo a qual o planeta Terra é um imenso organismo vivo, onde todos os elementos interagem-se uns com os outros. Não vivo como nós somos, seres vivos, mas como um sistema complexo, adaptativo e auto-organizado. O nome Gaia é em homenagem à deusa grega, mãe da Terra e dos seres vivos.

Tudo está ligado a tudo, desde um microcosmo quântico até a imensidão do espaço. O homem sempre entendeu que é dono da natureza e que pode dominá-la, mas não é assim. A natureza se vinga de nós, da nossa ciência, da nossa tecnologia e do nosso poder.

Toda vez que há uma catástrofe, voltamos, o nosso olhar para a natureza. Sabemos que nossa forma de explorar a Terra como planeta vivo é nociva. A pandemia do coronavírus é um desses momentos que deveriam trazer muitas lições. 

Não somos apartados da natureza. Ao ser explorada mais do que ela pode dar, a Terra perde o equilíbrio dinâmico e dá sinais de esgotamento, retaliando através de respostas fortes, como nos mostram o aquecimento global; as grandes catástrofes naturais, cada vez mais frequentes, e as pandemias.

Faz tempo que a Terra tem dado esses sinais. O homem conhece a fragilidade planetária, mas mesmo assim continua destruindo sem limites. 

A Amazônia brasileira, por exemplo, nunca foi tão destruída, depois que a extrema-direita chegou ao poder, com os desmontes dos órgãos de fiscalização, num governo que cala e consente com as ações predatórias.

Já deveríamos ter aprendido as lições com as nossas dores e sofrimentos. Infelizmente não aprendemos. Como disse o filósofo francês André Guide, “tudo já foi dito, mas, como ninguém ouve, é preciso dizer de novo”.

Um ataque direto contra a democracia

O presidente ultrapassou todos os limites ao participar de um comício favorável a um golpe militar? Será que ele lançou a sorte e, como Júlio César, cruzou o Rubicão? O rio Rubicão separa a Gália e a Itália. Na Roma antiga o Senado proibia a todo general transpor esta fronteira sem autorização. Em 49 a.C. Julio César violou a lei de Roma, declarou guerra ao Senado, atravessou o Rubicão e lançou-se à sorte: ou colocaria fim à sua carreira política ou tomaria o poder. Júlio César gerou guerra, caos, confusão e tomou o poder. 

Qualquer pessoa com mínimas noções de democracia sabe que o presidente ultrapassou todos os limites ao participar de um comício favorável a um golpe militar. 

Depois ele recuou e disse que não era nada contra a democracia. Sempre faz isso: diz e depois desdiz. Morde e assopra. Ultrapassa limites e recua. Vai medindo o terreno. De crise em crise ele avança nas táticas paulatinas de enfraquecimento e destruição da democracia que já foram usadas por Maduro, Orban e tantos outros autocratas. 

Depois ele disse com cinismo: “já estou no poder. Então estou conspirando contra quem?”. Ora, contra os demais poderes, óbvio. O que ele quer é o poder total e absoluto.

Governar a seu bel prazer lhe permitiria tudo, como falsificar números de mortos da pandemia, ditar as políticas autoritárias, censurar a imprensa, controlar os cidadãos. Esse é o sonho de todo autocrata. 

Para reforçar o seu perfil autocrata ele disse “eu sou a Constituição”, de Carl Schmitt, negando a legitimidade constitucional, como se fosse um profeta do povo, confirmando abertamente o seu desejo de ter todos os poderes centralizados nele.

O contexto da pandemia é um campo fértil para avançarmos de vez ao autoritarismo pleno. Bolsonaro é o líder propício para as forças do caos e da normalização do absurdo. 

As instituições estão acuadas e omissas. Limitam-se a fazer “notas de repúdio” que ninguém lê. O inquérito aberto pelo STF não diz muita coisa nesse contexto. 

O povo, por sua vez, está preocupado com as suas vidas e com o futuro; quer tranquilidade, paz e união. Ninguém quer discutir política numa hora dessas. 

Estamos num grande impasse. Mas é preciso acreditar que uma hora o povo brasileiro e as nossas instituições terão forças para interromper o pesadelo do autoritarismo que nos ronda. Não pode demorar. Em jogo estão a liberdade e a democracia, os nossos valores mais absolutos. 

Três registros fotográficos do dia 19/04/2020, que entrará para a história do país como a infame data em que um presidente participou diretamente de um comício contra a democracia, gerando mais instabilidade e pânico para a sociedade brasileira, no meio de uma pandemia com centenas de mortes por dia:

– Foto 1: Bolsonaro participa do protesto contra a democracia, diante do quartel-general do Exército (!), em Brasília. Nas faixas e cartazes os dizeres “Intervenção já, com Bolsonaro no poder”, ou seja, um golpe a favor de Bolsonaro ditador. (foto de Gabriela Biló/Estadão).

Foto: Bolsonaro na participação do protesto contra a democracia, diante do quartel-general do Exército, em Brasília. Nas faixas e cartazes os dizeres “Intervenção já, com Bolsonaro no poder”, ou seja, um golpe a favor do próprio Bolsonaro como ditador. (foto de Gabriela Biló/Estadão)
Foto: Protestos de bolsonaristas a favor da ditadura, na Av. Paulista, fechando passagem para ambulâncias (Foto de Nilton Fukuda, Estadão).

Campeões do achismo e do opinionismo

O Brasil sofre do antigo mal do “achismo” e do “opinionismo”, que apresentam soluções simples – e ineficientes – para problemas complexos. As opiniões são feitas com a vaidade de um pavão e a profundidade de um pires. 

Quando o assunto é futebol, política, e outros temas, até que tudo bem. O problema é quando se refere à vida das pessoas. 

Pessoas que nunca leem, nem estudam e nem pesquisam querem dar palpites e achar soluções para tudo. As opiniões tomam o lugar dos estudos, da ciência e do conhecimento. São pitacos por todos os lados. 

Os políticos populistas sempre arrumam remédios milagrosos, dentro da lógica do imediatismo e da esperteza. Renegam a ciência e o bom senso. 

Machado de Assis nunca esteve tão atual com as suas histórias e contos cheios de ironia e humor. 

Quem leu Memórias póstumas de Brás Cubas conhece o seu Emplasto Brás Cubas (capítulo 2), um medicamento ilusório para enganar as pessoas e “aliviar a nossa melancólica humanidade”. 

É dele também o genial conto “A Teoria do Medalhão” (está na internet e é pequeno). É a história de um pai que vai orientar o filho, que completou 21 anos, a viver. 

O objetivo é fazer o jovem sair da “obscuridade comum” para se tornar um medalhão. Mas ao invés de ensinar ao filho a importância do conhecimento e dos valores, ele o ensina a ser competitivo e esperto. 

Nada de “ideias”, “livros”, “filosofia” ou “imaginação”. O filho precisa aprender a “vencer na vida” e para isso precisa ser esperto, decorar “frases feitas”, “ter visibilidade”; a pertencer à política, mesmo sem ter ideias. 

O conto é uma sátira incrível à mediocridade intelectual e social em que vivemos. É a malícia versus inteligência; a esperteza e a obtusidade contra o conhecimento. Esse primitivismo mental leva ao desprezo pelo outro e pela vida… 

Estamos vendo que além do coronavírus ainda temos que enfrentar o mal da estupidez, que tanto nos assola.

Remédios populistas

Na mitologia grega Panaceia era deusa da cura e conseguia ter remédio para todas as enfermidades. Por isso usamos o termo para designar a cura para todos os males. 

A panaceia é o remédio preferido dos populistas. Bolsonaro, também chamado Messias, se sente um verdadeiro criador de seitas medicinais que ferem a saúde pública. Já falou da fosfoetanolamina, a pílula do câncer, e agora inventou o milagre para o coronavírus: a hidroxicloroquina. Populistas atentam contra o bom senso e contra a saúde pública.

Os brasileiros estariam mais confortáveis se tivessem na presidência uma liderança minimamente preparada e inteligente. Nem precisaria ser um estadista, mas alguém com pelo menos um pouco de bom senso. Infelizmente não temos. Isso torna o enfrentamento à pandemia terrivelmente mais penoso, instável e arriscado.

Desde o início Bolsonaro despreza o distanciamento social recomendado pela OMS, pela maioria dos cientistas, pelo seu ministério da Saúde e pelos chefes de Estado de todo o mundo. Chamou a pandemia de “gripezinha”, “resfriadinho”.

Também não é novidade que os pronunciamentos de Bolsonaro desinformam e jogam fora os esforços nacionais de levar a quarentena mais a sério, única medida capaz de evitar um verdadeiro genocídio na população brasileira. Ele boicota, ele sai para a rua, ele desafia até o bom senso.

Bolsonaro tem apostado no milagroso remédio da cloroquina para o tratamento do covid-19. Em pronunciamento citou o cardiologista Roberto Kalil que tomou cloroquina em seu tratamento contra a doença. 

Quem leu Memórias póstumas de Brás Cubas, do genial Machado de Assis, conhece o seu Emplasto Brás Cubas (capítulo 2), um medicamento ilusório para enganar as pessoas e “aliviar a nossa melancólica humanidade”.

Não dá para apostar que a cloroquina será a solução para a pandemia. Estudos científicos estão sendo realizados em várias partes do mundo e não há comprovação científica de sua eficácia. O CDC americano, órgão responsável pelo controle da epidemia, recuou nas recomendações no uso da droga. 

Ninguém é contra remédios que possam salvar vidas. Se os médicos recomendam a cloroquina (e outros), e se os pacientes consentem, eles devem ser usados, ainda que de forma experimental.

Mas sem comprovação científica não é possível a recomendação em larga escala. A ciência não vive de crenças e ilusões. Precisa de pesquisas sérias, trabalho duro, experimentações e evidências que demonstrem a eficácia do tratamento, antes de recomendá-lo para todos. Isto leva tempo. 

O que não dá é para alimentar a falsa esperança de que foi encontrada a cura para uma pandemia que ainda está longe do pico, e trazer para a população brasileira o risco de uma falsa crença de normalidade, como infelizmente já está começando a acontecer. Isso coloca em gravíssimo risco a saúde pública. A estupidez agora pode ser ainda mais letal.

Esperançosos e realistas

A pandemia se alastra com bastante velocidade. Demorou mais de 3 meses para atingir 1 milhão de casos no mundo, em 02/04, e dobrou em apenas 13 dias, chegando a 2 milhões de casos no dia 15/04, conforme dados da Universidade Johns Hopkins, dos EUA.

– Por falta de testes, os casos no Brasil estão subnotificados. O primeiro estudo sobre o alcance das infecções, feito pela Universidade Federal de Pelotas e pelo governo gaúcho, e divulgado recentemente, indicou que o número de infectados é pelo menos sete vezes maior do que aquele registrado oficialmente. 

– Segundo especialistas, ainda estamos longe do pico, que deve ocorrer entre maio e junho; e os hospitais públicos de São Paulo e do Rio já estão com os seus leitos de UTI com mais de 70% de ocupação pela Covid-19;

– Os doutores negacionistas, sem analisar as complexidades e todas as variáveis, disseram que o vírus não suporta o calor. No momento estamos com o quentíssimo estado do Amazonas entrando em colapso pelo Covid-19. 

– Acreditava-se que o grupo de risco era só das pessoas maiores de 60 anos, principalmente daquelas com comorbidades. Para contrariar, o vírus mostrou que 25% dos óbitos são de pessoas fora dos “grupos de risco” da doença.

– Os negacionistas fazem muitas comparações com países evoluídos que não adotaram as mesmas medidas restritivas que nós, mas ignoram que eles têm melhor estrutura e adotam outras medidas preventivas, como testes e monitoramentos contínuos, além da conscientização de toda a população.

– No momento as medidas de distanciamento social estão funcionando bem e representam a única maneira de ganharmos mais tempo, para que os sistemas de saúde se estruturem melhor; também para mudar os nossos hábitos e preparar a economia para enfrentar os desafios posteriores. 

– Não dá para iludir que teremos rápido “retorno à vida normal”, nem mesmo no melhor cenário. Vai demorar e nem sabemos como será esse futuro. As medidas de distanciamento serão relaxadas gradualmente pelas autoridades, conforme a existência de testes e do acompanhamento da evolução da pandemia. 

– Quem pode, tem o dever de ficar em casa. Precisamos cair na real de que estamos enfrentando uma realidade de guerra para a qual nunca imaginamos. Isso exigirá muito esforço e resiliência para enfrentarmos os desafios que virão. 

– Enquanto isso temos que acreditar nos estudos científicos. Nem otimismo exagerado, nem pessimismo exagerado. O melhor é ser “cético esperançoso”, já dizia o mestre Suassuna. Sejamos realistas esperançosos

Os ombros suportam o mundo

Para fugir um pouco das notícias abro a minha velha e amarelada “Antologia Poética”, de Carlos Drummond, o nosso poeta maior. 

Leio e releio maravilhas. No meio delas encontro uma preciosidade: o poema “Os ombros suportam o mundo”. O poema foi escrito no período que precedeu a Segunda Guerra, uma época de desânimo com a ascensão dos regimes totalitários. Mesmo diante do irremediável, de uma realidade nua e crua, o poeta tem o dom de nos trazer uma espécie de gratidão pela existência.

O poema enaltece a vida que precisa ser vivida, sem fugas, nem subterfúgios. A brutalidade precisa virar luz. O peso deve virar leveza. A dor se transformar em força, em coragem. Afinal, “os ombros suportam o mundo”. Vale cada verso. 

Os ombros suportam o mundo

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

(Os Ombros Suportam o Mundo – Carlos Drummond de Andrade – Antologia Poética, Ed. José Olympio, 1976, pag. 127)