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Vitória de Biden e da democracia

“A Bíblia nos diz que para tudo existe uma estação, um tempo para construir, um tempo para colher, um tempo para semear e um tempo para curar. Este é o tempo para curar na América”, disse o presidente eleito Biden.

“Prometo ser um presidente que não vai dividir, mas unificar”, afirmou, sob o argumento de que é hora de deixar para trás uma era sombria no país. “…É hora de baixar a temperatura, de nos vermos, de nos ouvirmos… Para progredir, devemos parar de ver o oponente como inimigo. Eles não são nossos inimigos. Eles são americanos”, continuou Biden.

Com essas palavras, inspiradas no grande Mandela, Biden fez o discurso da vitória.  

A vitória de Biden e de Kamala representa enorme avanço da civilização contra a barbárie. Um importante momento de virada para os EUA e todo o planeta. 

A queda do radical Trump significa o enfraquecimento da extrema-direita e de todos os seus delírios alucinantes. Como representante da nação mais poderosa do planeta, o seu mandato deixou o mundo mais pobre de democracia, de humanidade, de dignidade, de simples padrões civilizatórios. 

Com a sua política de ódio e divisão, ele legitimou e empoderou as ações dos supremacistas brancos, dos homofóbicos, dos negacionistas, dos anti-vacinas, dos fundamentalistas, dos terraplanistas, dos antifeministas, dos ultranacionalistas, dos extremistas radicais (neofascistas, neonazistas), de todos os tipos de representantes da cultura patriarcal, e de tudo aquilo que há de mais tenebroso no mundo. 

A derrota de Trump é uma vitória da civilização contra o autoritarismo, a mentira, o ultranacionalismo cego, o isolacionismo, o negacionismo, a xenofobia.

A vitória de Biden e de Kamala será a retomada do diálogo entre as nações, do multilateralismo e da esperança de um mundo com mais democracia, civilidade e liberdade.

Pelé, o gênio reverenciado

O rei Pelé, nascido em 23 de outubro de 1940, fez 80 anos. Até o imortal Pelé envelhece…

Há alguns anos havia perdido o encanto pelo Edson Arantes do Nascimento, por conta dele nunca ter dado a mínima atenção para a sua filha Sandra, com quem ele travou longa batalha judicial, mesmo depois dela ter provado na Justiça que ele era o pai, num triste exemplo de abandono paterno.

Mas essa é outra história. Um é o Edson e outro é o Rei Pelé, autor de 1281 gols. Cada vez que vejo um gol dele, eu me apaixono mais pela leveza com a bola e com as habilidades do rei do futebol arte. Pelé, o nosso jogador majestoso que inspira milhões de jovens mundo afora. Pelé, símbolo do que sempre tivemos de melhor, que é o futebol-arte.

Lembrei-me de uma pequena história que certa vez ouvi sobre ele, em algum lugar.

Consta que em 1966 Pelé foi recebido pelo Papa Paulo VI, um papa muito conservador, que somente recebia Chefes de Estado, mas fez uma exceção para receber o “Rei do Futebol”.

Na recepção organizada pelo Vaticano, Pelé estava nervosíssimo e não conseguiu conter as suas emoções ao encontrar-se com Sua Santidade. 

Segundo a lenda, o Papa percebeu o nervosismo de Pelé, aproximou-se do então jovem rei do futebol e disse a ele algo assim: “não se preocupe e nem fique nervoso. Você não imagina como também estou feliz e emocionado em conhecê-lo”, concluiu o reservado Papa.

Rei é Rei… 

A vacina e os mentalmente infectados

Há cerca de duas décadas tive um caso na promotoria de uma família que se recusava a dar vacinas para os dois filhos pequenos. Os pais simplesmente alegavam que as vacinas faziam mal. 

Dialoguei com eles e nada. Apelei e dei o exemplo de um senhor que eu conhecia, que se arrastava pelas ruas com as mãos, depois das graves sequelas de uma paralisia infantil. Mas nada os convencia. Somente cederam depois da ameaça de serem legalmente responsabilizados pela negligência com os filhos.

De lá para cá o movimento antivacina cresceu, a ignorância ganhou vez e voz, e o negacionismo chegou ao poder, colocando sob suspeita uma das grandes conquistas científicas da humanidade no último século. 

Pela primeira vez, em quase 20 anos, o Brasil não atingiu a meta para nenhuma das principais vacinas indicadas a crianças de até um ano, conforme dados de 2019, do Programa Nacional de Imunizações.

Nesta semana Bolsonaro desautorizou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e declarou que não vai comprar a “vacina chinesa”, referindo-se à futura vacina Sinovac/Instituto Butantan. O Instituto Butantan é uma instituição com mais de 100 anos de sólidas pesquisas e sempre forneceu vacinas ao Ministério da Saúde.

Como sempre, é possível que seja mais uma bravata, e o presidente não cumpra a sua promessa. De qualquer forma, mais uma vez ele assume um posicionamento criminoso e insano. 

Tudo isso ocorre mais de um século depois da Revolta da Vacina, motim popular ocorrido em 1904 na então capital Rio de Janeiro. Esse motim popular tinha, além da questão da vacina, outras causas mais profundas, mas a que mais se destacou na história foi a revolta diante da obrigatoriedade da vacinação contra a varíola.

A história não se repete, mas deveria pelo menos ensinar. Mais de 100 anos depois, ainda são muitos os mentalmente infectados que se revoltam contra as vacinas. A começar pelo presidente, que mandou o povo ignorar a quarentena, recomendou remédio inútil e agora boicota a futura vacina contra a Covid.

Bolsonaro disse que acabou com a Lava-Jato

“Eu acabei com a Lava Lato, porque não tem mais corrupção no governo” disse há alguns dias o presidente. É mais um comentário da série “me engana que eu gosto”, do presidente que se elegeu no embalo da Lavajato.

Tudo bem que o lavajatismo tem lá os seus problemas e excessos, mas o que Bolsonaro tem feito é desmontar ou enfraquecer as estruturas estatais. 

Bolsonaro nomeou um PGR fora da lista tríplice e alinhado com a política de enfraquecimento das investigações; tem feito o controle político da Polícia Federal; desmontou o COAF; faz interferências na Receita Federal; nomeou um ministro do STF indicado pelo Centrão e está numa ótima fase com Tóffoli e Gilmar Mendes. 

O pessoal do Centrão, que também rima com Mensalão e Petrolão, está feliz da vida. Até Renan Calheiros (quem diria) tem defendido a atitude de Bolsonaro. Novidades? Claro que não. Bolsonaro veio do baixíssimo clero e conhece bem como funciona a velha política do familismo, do nepotismo, das rachadinhas, das boquinhas públicas, dos assessores fantasmas, dos laranjais, dos diplomas falsificados, dos pagamentos em espécie. 

Para o bolsonarismo esses práticas não significam corrupção. Para o Código Penal sim. Lá estão os verdadeiros significados: corrupção, peculato, desvio de dinheiro, lavagem de dinheiro, organização criminosa.

Uma lição de sabedoria

“Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio” disse o Bobo ao velho – e bobalhão – Rei Lear. Na peça, Shakespeare nos ensina que a vaidade excessiva torna o homem velho bobo e patético. 

Lembrei-me desta preciosa lição shakespereana em razão de dois encontros que tive na minha visita ao mercado, um dos poucos prazeres dessa época de isolamento.

O primeiro encontro foi com um velho conhecido, cujo nome não vou dizer, mas que sempre foi excessivamente vaidoso e arrogante. Mesmo na maturidade, não aprendeu com os chacoalhões da vida; não melhorou. Soberbo e afetado, é daqueles que está sempre com a razão. Eu o avistei de longe, falando alto e pavoneando, e até fingi que não o vi.

Na sequência de compras na feira eu me encontrei com Vanda, uma velha conhecida, e que trabalha numa das bancas. Gosto de conversar com ela. Pessoa simples, mas com essência. O seu cãozinho faleceu e ela estava profundamente triste. Sem saber, comentou verdadeiras lições filosóficas. Disse que a vida é sofrimento e desse sofrimento é que surge a alegria. Segundo ela, tudo na vida é alternado entre altos e baixos, ou seja os opostos: noite e dia, vida e morte, dor e felicidade. Com os olhos marejados pela perda do cãozinho, ela concluiu que tudo na vida passa. 

Fui para casa pensando nesses dois perfis e nos ensinamentos shakespereanos. A maturidade e os rigores da vida trazem, ou devem trazer, muitos aprendizados. 

É provável que o vaidoso exagerado será aquele velho chato, daqueles que ninguém vai querer por perto. Está envelhecendo e ainda se comporta como se fosse um jovem imaturo. Ignora as lições trazidas pelo tempo. Provavelmente se tornará velho, mas talvez não encontrará a sabedoria da vida. 

Vanda, ao contrário, vai se tornando mais interessante na medida que envelhece. Vai melhorando. A sua humildade e o seu modo de ver as coisas a faz enxergar vida de uma forma mais leve. Ela sabe que tudo na vida é breve e passageiro. 

Pessoas humildes como a Vanda envelhecem bem. Sem o peso da arrogância, ou da vaidade desnecessária, tornam-se mais sábias.

Empréstimos de livros

Na minha juventude, nos anos 80, por um período fui guia turístico, e trabalhei no estado de Goiás, principalmente na Pousada do Rio Quente, hoje Rio Quente Resorts. 

Numa das viagens comprei uma raridade, encontrada numa das lojinhas lá do complexo: um exemplar do belo livro “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, da goiana Cora Coralina, autografado pela autora. 

Tempos depois, um amigo esporádico, que era jornalista e morava em São Paulo, pediu-me o livro emprestado, pois queria fazer uma matéria para um jornal semanal, no qual era colaborador. 

Já era… Nunca mais vi o livro. 

Depois de alguns meses, ao me reencontrar com o tal amigo, ele me pediu desculpas e disse que havia perdido o livro. Que chateação!

Lembrei-me desse fato ao ver essa advertência inscrita num azulejo português: “um bom livro só se empresta a um bom amigo”; “um bom amigo nunca pede um livro emprestado”.
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E.T. Na verdade trata-se de uma brincadeirinha, pois acho bom que os livros circulem. Mas há exceções, como o raro livro que emprestei e perdi.

Uma conversa inusitada

Estava no quintal e sem querer escutei uma conversa entre dois pintores da casa do meu vizinho. Eles falavam alto e o diálogo foi mais ou menos assim:

– “Não era amor nada; era picaretagem! Ela só estava interessada no dinheiro dele. Ele dizia para as suas filhas que era amor, mas elas sempre disseram que não era nada. Afinal, ele era 40 anos mais velho e estava bem “acabadinho” para ela, que era vistosa e bonita… E foi aí que surgiu o problema…” 

– “O que houve? Ela arrumou outro?”

– “Nada. Ela fingiu amor durante todo o tempo, ele ficou iludido, e ela tirou quase todo o dinheiro que ele tinha aplicado. Quando as filhas perceberam, ficaram loucas da vida, foram lá e a fizeram ir embora, a tapas. Foi o maior barraco; ela foi embora com a roupa do corpo.” 

Ao ouvir esse diálogo fiquei imaginando a confusão… Na vida forense vemos muitas histórias desse tipo. É encrenca na certa. 

Depois fiquei pensando cá com os meus botões: assanhadinho ele, não? 

E ela, por sua vez, “amou” como Marcela, a primeira paixão de Brás Cubas, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Marcela era, digamos, uma “garota de programa”; tinha o corpo esbelto e ondulante, e o seu amor era proporcional aos preços dos presentes que recebia. 

O próprio Brás Cubas resumiu esse amor em uma frase, no início do capítulo 17: “Marcela amou-me durante 11 meses e 15 contos de réis; nada menos”.

O animal mais perigoso do mundo

No zoológico do Bronx, em Nova York, há um pavilhão destinado aos primatas onde é possível ver chimpanzés, gorilas, saguis, orangotangos e tantos outros macacos de todo o mundo. No fundo do recinto há uma jaula separada. Quando o visitante se aproxima, há um letreiro que diz: “O animal mais perigoso do mundo”. 

Atraídos pelo letreiro, os visitantes chegam cuidadosamente para ver dentro da jaula. Para surpresa de quem olha, ao observar por entre as grades, a pessoa enxerga o próprio rosto. A jaula é um grande espelho e há um letreiro mostrando que o homem é a única criatura que já matou mais espécies inteiras de outros animais e alcançou o poder de exterminar toda a vida na Terra. 

As pessoas que visitam o local têm a oportunidade de olhar a sua imagem no espelho e tomar consciência da cegueira planetária que nos domina; da falta de cuidado com os ecossistemas e com o planeta Terra. 

Aqui nestes tristes trópicos é indescritível o que está acontecendo com o Pantanal, o maior bioma úmido do mundo. As imagens da destruição são devastadoras. E com a Amazônia não é diferente. 

São vários os fatores geradores, em temas tão complexos. Fazendeiros e grileiros impunes, que expandem as suas áreas de pastagens através de queimadas estratégicas; um governo ecocida e negacionista, que vem desmantelando os órgãos ambientais, e cortou 58% da verba para contratação de profissionais para prevenção e controle de incêndios florestais entre 2019 e 2020; temos a seca; o aquecimento global. Mas, em em última análise, o responsável é sempre o mesmo: o ser humano, que não consegue cuidar dele próprio e dos seus tesouros. 

Há alguns dias a ONU advertiu no relatório “Global Biodiversity Outlook 5” que a humanidade está numa encruzilhada histórica, pois não está conseguindo impedir a destruição da natureza.

Enquanto o coração arde de tristeza, fico pensando: entre a vida e a morte, qual o caminho que vamos escolher para o futuro da nossa humanidade? 

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Foto de Lalo Almeida/Folhapress: Onça pintada descansa em área queimada, às margens do rio Três Irmãos, no Parque Estadual Encontro das Águas, em Porto Jofre.

Um programa tranquilo para tempos difíceis

Sentimos falta de boas notícias. Os nossos corações estão bem sofridos com tanto tempo de isolamento, com as queimadas devastadoras, com a fragilidade da economia, e com os políticos populistas e demagogos de sempre. 

Procuro driblar o meu desalento próximo dos meus livros, ora lendo uma boa literatura, ora pesquisando e escrevendo. 

Aproveitamos o domingo preguiçoso e de calor para fazer um programa bem leve. Assistimos ao filme “Um lindo dia na vizinhança”, que alugamos no Youtube. Queríamos um filme tranquilo e feliz.

O filme é baseado na história real da amizade entre o jornalista Tom Junod e Mister Rogers (Tom Hanks), criador de um programa infantil de TV, muito popular nos EUA, nos anos 60. Durante as entrevistas ambos iniciam uma relação de amizade muito inspiradora. 

O filme tem alguns clichês, mas traz muitas mensagens que precisamos nos tempos atuais. Fala do amor, do perdão, da amizade, da reconexão conosco mesmos e com as demais pessoas, da necessidade de falarmos sobre os nossos sentimentos.

Faz uma boa reflexão sobre o valor da escuta; da importância de ouvirmos mais as pessoas com quem nos relacionamos; de fazermos mais escutas compassivas. Afinal, como disse Mister Rogers, “Ouvir é onde começa o amor: ouvir a nós mesmos e depois os próximos”.

Fundeb permanente: conquista histórica do povo brasileiro

A aprovação do novo Fundeb é a melhor notícia deste ano, tão difícil. 

Apesar da resistência do governo Bolsonaro e do quadro adverso para as políticas de direitos sociais, a aprovação dessa política essencial para a educação pública foi uma vitória do Congresso Nacional e do povo brasileiro. 

O Fundeb é uma política essencial para a redução das desigualdades na Educação e agora será permanente, incorporado de vez no texto constitucional. 

Entre outras mudanças, haverá mais que o dobro de gastos da União na educação básica, com complementação dos atuais 10% para 23%; teremos mais investimento mínimo por aluno; uma política mais redistributiva dos recursos; e foi incluído o conceito de Custo Aluno Qualidade (CAQ) que visa o padrão mínimo de qualidade das escolas, garantindo-se condições mais adequadas para o processo de aprendizagem. O quadro abaixo traz um panorama das mudanças, que serão inéditas, pois pela primeira vez escolas nos cantões mais recônditos do país poderão ter uma melhor estrutura, como biblioteca, laboratórios, quadras, alimentação e transporte escolar adequado.

O novo Fundeb é uma grande vitória da educação pública brasileira e daqueles que lutam pelo direito à educação de qualidade para todos.