As mentiras nos currículos

A falsidade nos currículos tem sido assunto nos últimos tempos. Muitos brasileiros conhecidos tornaram-se centro do debate nacional por conta de declarações falsas em seus currículos. Exemplos não faltam, como Dilma Rousseff, Deltan Dallagnol, Wilson Witzel, Ricardo Salles, entre outros.

O episódio mais recente envolveu Carlos Decotelli, que foi nomeado para ser ministro da Educação e teve que renunciar, antes da posse, porque havia muitas inconsistências no seu currículo e isso gerou uma intensa intensa repercussão negativa. Há quem diga que o racismo velado, pelo fato dele ser negro, contribuiu para a sua queda.

Há algum tempo um levantamento publicado na Exame mostrou que 7 em cada 10 profissionais brasileiros mentiram em seus currículos. Em 2019 levantamento da DNA Outplacement mostrou que 75% dos CVs enviados aos RHs de 500 empresas no Brasil continham inverdades.

Mentir no currículo é muito grave, desmoraliza a pessoa, e pode constituir conduta criminosa. Além do mais, com a internet, a burla é facilmente detectável mediante uma análise mais atenta aos documentos apresentados ao público.

O melhor é não mentir. De que vale o currículo acadêmico, por si só, se na prática ele não for realmente acompanhado da verdade, da inteligência, da sabedoria?

As distinções acadências são importantes, desde que alcançadas com mérito, claro, mas efetivamente não representam tudo. 

Ao longo das décadas demos mais destaques ao conhecimento formal e acadêmico, aos diplomas e currículos, e fomos nos esquecendo de outros valores, como aqueles adquiridos com a experiência, com a sabedoria da vida, com o potencial da pessoa de criar, de fazer projetos, de realizar ações e protagonizar iniciativas que não necessitam de um currículo formal.

Atualmente muitas empresas querem saber mais do potencial que o candidato tem de criar, de inovar, de adaptar-se às dificuldades, de relacionar-se em equipes, de agregar valor, entre outros atributos mais ligados à sua personalidade e subjetividade. Muitas vezes o currículo é considerado apenas como acessório e não mais, necessariamente, o principal.

Como, por exemplo, não admirar as pessoas simples da roça, que aprendem sozinhas muitos assuntos, entre eles a previsão do tempo simplesmente observando o vento, a lua e as nuvens? Como não admirar os autodidatas brilhantes?

A sabedoria da pessoa, da roça ou cidade, depende do que ela aprende do mundo e o que faz desse aprendizado.

Ao longo da existência todos nós formamos o nosso currículo da vida, no qual acumulamos as histórias e experiências. A sabedoria vem dessas lições da vida; dos erros e acertos; das observações do mundo e das nossas percepções e intuições.

O currículo acadêmico pode valer bastante, mas na prática é preciso saber se o conhecimento adquirido deixou a pessoa mais apta para o seu ofício, com visão sistêmica do mundo e com mais sensibilidade para entender sobre o ser humano e a vida.

Em se tratando de governantes, também é preciso indagar se aquele conhecimento deixou a pessoa mais hábil, mais ética e melhor para fazer coisas boas para o seu povo, a humanidade e as futuras gerações. 

Em suma, o currículo acadêmico é importante, mas somente será legitimado se com ele a pessoa ficou mais inteligente, mais sábia, e se é capaz de aplicar melhor os seus aprendizados para o bem comum. Afinal, a árvore se conhece pelos frutos.

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