As infâmias do nosso passado escravocrata

A Globo News fez um programa “Em Pauta” especial sobre o racismo, só com comentaristas negros. Em dado momento a Maju Coutinho comentou que muitas mulheres negras têm medo de ter filhos por conta do racismo. 

Este relato me fez lembrar de uma história bastante triste: a das mães escravas reprodutoras. Desculpem, mas histórias tristes precisam ser contadas, pois só as lições do passado nos ajudam a pensar um futuro mais promissor.

Depois da Lei Eusébio de Queirós, em 1850, que proibiu o tráfico de escravos no Brasil, algumas fazendas passaram a procriar escravos. 

Na cidade natal dos meus pais, em Santa Rita do Jacutinga-MG, há uma dessas fazendas, a belíssima fazenda Santa Clara, uma imensa construção colonial com 52 quartos (um para cada semana do ano) e 365 janelas (uma para cada dia do ano). 

A beleza da fazenda esconde as tristes marcas de um passado que não se apaga. Na visita que lá fizemos, a guia nos levou a um enorme salão, totalmente fechado, que funcionava como uma incubadora, um centro reprodutor de escravos. 

Segundo a guia, ali naquele salão ficavam as escravas “parideiras”, especialmente selecionadas para reproduzir escravos. Semanas depois que as crianças nasciam, eram retiradas das mães, e estas já se preparavam para reproduzir mais. Um verdadeiro horror…

Essa história horrenda foi contada na própria fazenda, embora a nossa história, oficialmente, não registre casos de reprodução sistemática de escravos para fins de tráfico.

De qualquer forma, o nosso passado escravocrata é cheio de infâmias, abusos e humilhações. A escravidão foi um hediondo crime contra a humanidade. 

O braço escravo ajudou a construir a riqueza do Brasil que temos hoje, mas a inclusão social dos negros e descendentes (53,6% da nossa população – IBGE, 2014) ainda é um imenso desafio do nosso país. 

Lamentável é o posicionamento da extrema-direita, com a sua retórica atrasada, cheia de cinismo e hipocrisia, enaltecendo a simples meritocracia e combatendo as políticas de inclusão racial. Parece que às vezes somos os mesmos e vivemos como no século XIX.

As transformações dessa dura realidade e das ações antirracistas dependem de políticas de inclusão e do fortalecimento da educação pública para todos. Há um longo caminho a trilhar. 

Foto da Fazenda Santa Clara.

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