A pandemia das incertezas

“Não podemos escapar das incertezas” (Edgar Morin”

A pandemia do coronavírus nos traz um quadro assombroso de incertezas e nos desafia a cada momento. 

Não sabemos como e até quando a epidemia se alastrará em cada país; não sabemos, depois que ela acabar, se haverá ou não novas ondas da epidemia; desconhecemos a cura para a doença, e nem sabemos quando vamos obtê-la.

Tampouco imaginamos quais serão as consequências políticas, econômicas e sociais da crise. As projeções preliminares é de que elas serão brutais, com cenários de recessão, redução da atividade econômica, altas taxas de desemprego, aumento da pobreza, endividamentos, entre outras tantas, todas desafiadoras para o futuro.

Tudo é incerteza em relação ao futuro, seja próximo ou mais distante, e enfrentar as incertezas do amanhã é um grande desafio. A nossa cultura sempre está em busca de certezas. Sempre temos dificuldades em aceitar as incertezas e em analisar as complexidades dos fenômenos, com todas as suas implicações; não sabemos como lidar com crises multifacetadas. 

As dificuldades em analisar as incertezas fazem parte da nossa eterna crise de percepção, já analisada por muitos pensadores. Mas, como nos lembra  Edgar Morin, o grande mestre da complexidade: “não podemos escapar das incertezas”.

No Brasil, infelizmente a crise trouxe uma certeza: a da demora

No campo da tomada de decisões tudo também foi marcado por incertezas no Brasil. Demoramos preciosos dias para decidir se fazíamos ou não a quarentena. Ainda bem que estamos num estado federativo que permite decisões autônomas e descentralizadas, pois o presidente da República relutava em decidir a favor da quarentena. Foi intenso o (falso) dilema entre escolher saúde ou economia para fazer ou não o isolamento social; acentuaram-se as discussões sobre isolamento vertical ou horizontal, entre tantas outras. 

Felizmente, mesmo perdendo tempo, o sistema federativo permitiu que houvesse consensos na tomada de decisões e conseguimos ganhar precioso tempo para o início da quarentena em quase todos os estados antes mesmo do dia 25/03.

Todas essas dicotomias foram desafiadoras num primeiro momento, sobretudo por conta do despreparo, da ignorância e das disputas políticas. Mas não deveriam ter sido, pois fizeram o Brasil perder precioso tempo para um diálogo entre o governo federal, os governos dos estados e os municípios visando buscar soluções coordenadas e conjuntas para enfrentar emergencialmente a crise. 

Vejamos suscintamente o desenrolar desse período de indecisões e incertezas: 

1) Muitos estados e municípios entraram em quarentena a partir da segunda quinzena de março, sobretudo a partir do dia 20. O quadro a seguir, publicado na Folha de S. Paulo, mostra que a maioria dos estados da federação fecharam as escolas antes do dia 20/03. Mostra ainda que até o dia 25/03 em todos os estados o comércio já estava fechado. 

Essas quarentenas, decretadas pelas administrações estaduais e municipais, foram entendidas como fundamentais para evitar os picos das internações no sistema de saúde, que poderia entrar em colapso ainda no começo da epidemia. 

2) O problema foi no Governo Federal, apesar da atuação muito boa do Ministério da Saúde. A conduta do presidente da República foi lamentável em todos os sentidos. 

Em pronunciamento em cadeia nacional, no dia 24/03, ele chamou a grave epidemia de “gripezinha”, de “resfriadinho” e comentou que as escolas poderiam funcionar normalmente; depois, no dia 29/03 o presidente foi passear publicamente junto a populares, em Brasília. Em quase todos os dias ele questionava a necessidade da quarentena. gerando crise política e incertezas

Esses e outros episódios dificultaram uma organização coordenada e centralizada para o enfrentamento rápido da crise. Também atrapalharam a conscientização de grande parte da população para a necessidade rápida do isolamento. 

Faltou por parte da presidência a visão de que, o que ocorreria na saúde pública, se não houvesse o isolamento social, traria impactos brutais também na economia. Afinal não se trata de uma “gripezinha”. 

3) A mudança no tom presidencial somente veio no dia 31/03, em novo pronunciamento em cadeia nacional, após grande reprovação popular, com panelaços ressoando Brasil afora. Até que enfim, depois de perder muito tempo, a presidência reconheceu que a melhor medida seria o isolamento pleno como emergência sanitária.

Mas infelizmente durou pouco, pois logo em seguida o presidente publicou em suas redes sociais elogios à ditadura; no dia seguinte criticou governadores e depois voltou a criticar as medidas de isolamento recomendadas pela OMS e adotadas pelo mundo inteiro. No dia 02/04 ele criticou o próprio ministro Mandetta, que tem gerenciado bem a crise sanitária. Ou seja, temos um presidente gerador de crises, ao invés de buscar o diálogo para solucioná-las.

4) Contudo, em paralelo, com a parada súbita da economia e o vácuo deixado pelo setor privado, também faltou, emergencialmente, por parte da equipe econômica do Governo Federal, a criação rápida de uma grande rede protetiva para a área social. Somente no início de abril é que o Governo Federal tomou providências para fornecer uma ajuda emergencial e auxiliar pessoas economicamente vulneráveis a atravessar a crise sanitária. 

Não bastasse a demora do Governo Federal em criar o benefício do auxílio emergencial, depois houve a demora para destravar e liberar tal benefício, gerando crítica dos demais poderes da República, entidades e de especialistas. Houvesse uma coordenação conjunta, além de consciência e vontade política, o Governo Federal teria tomado tais decisões, entre outras, bem antes, através de mecanismos permitidos pela própria Constituição Federal em situações de guerra e extrema urgência. 

Como observou a economista Monica de Bolle, no El País, no dia 02/04, “É um caminhão de coisas que estão faltando, porque o Governo não fez quase nada, está em uma inércia absoluta… Hoje, dane-se o Estado mínimo, você precisa gastar. É preciso errar pelo lado do excesso não para o lado da cautela numa crise desse tipo.”

5) Segundo a grande imprensa, Bolsonaro chegou ao ponto de ficar, até o dia 31 de março, entre os três governantes no mundo que teimavam em reconhecer a gravidade da pandemia, quando na verdade a OMS já havia decretado a pandemia global lá atrás, no dia 11 de março. Na sua solitária opinião, estava acompanhado apenas dos ditadores Daniel Ortega, da Nicarágua, e Alexander Lukashenko, da Belarus. 

6) Faltou a liderança do presidente para unir o país e aproveitar a cooperação entre os estados e municípios, para dar um pouco de segurança ao povo brasileiro. Foi uma enorme inércia governamental, com a perda de um precioso tempo para a tomada de decisões efetivas, devido a rápida progressão da epidemia e da crise social que se seguia. 

Por incrível que pareça, esta demora para cair a ficha do Governo Federal e as indefinições que se seguiram, atrapalharam até o Ministério da Saúde, que tem conduzido bem a crise. Foi o que ocorreu com o fato de o ministério ter esperado que a transmissão do vírus se tornasse comunitária para fazer a compra e a massificação dos testes, um erro lamentável.

Quadro publicado na Folha de S. Paulo no dia 03/04/2020

Algumas lições:

É muito cedo para saber quais serão as consequências da crise. Diante das incertezas e das rápidas mudanças, ainda temos muitas perguntas e poucas respostas. Sabemos que o mundo nunca mais será o mesmo. Temos muitas lições preliminares. Destaco algumas que me ocorrem, entre tantas outras:

1) Para todas as crises agudas e desafiadoras, em todos os contextos (políticos, sociais, militares, empresariais), um bom fator para conduzir e levar a uma boa navegação em águas turbulentas é a qualidade do líder. 

O teimoso Bolsonaro titubeou, esperou, blefou e não tomou rápidas e eficientes decisões. Ao contrário, é um presidente gerador de crises. Ficou à mercê das opiniões do seu “gabinete de ódio” e não ouviu, porque não quis, as vozes lúcidas de um gabinete integrado de Ministros. A Folha de S. Paulo chegou a fazer um editorial “Procura-se estadista” sobre o vácuo no poder de um presidente tão despreparado e autoritário. Voto tem consequências. 

2) O líder precisa ter equilíbrio. Uma das grandes lições em tempos de absoluta incerteza e crise, para governantes e todos nós, é o de buscar o equilíbrio. É preciso uma visão mais abrangente para decisões mais equilibradas. Somos muito dominados pelo pensamento dualista do oito ou oitenta, fruto da pouca reflexão e da incapacidade de análise dos fenômenos complexos.

As dicotomias, principalmente as ideologizadas, são estúpidas e danosas. É difícil para os políticos entender realidades tão óbvias, principalmente para aqueles dominados por ideologias atrasadas, impregnadas de negacionismos da ciência (e da realidade), como rejeição à vacinas, terraplanismos e tantas outras. 

3) Faltou (e está faltando) ousadia e agilidade. Em situações complexas frequentemente o conhecimento dos especialistas é insuficiente para superar os desafios. Os nossos representantes do típico Estado liberal ignoraram a regra básica e essencial que em situação de guerra não é Estado Mínimo. Precisa ser Estado Máximo, para fazer frente às emergências protetivas. E para ontem. 

4) Por enquanto temos apenas a certeza de que a pandemia trará gravíssimas consequências sociais, econômicas e em todos os campos da vida humana. Muitas tomadas de decisão deverão ser feitas a todo momento. Neste cenário, todos devem aprender com as lições.

Diante de tantas incertezas, os governantes precisarão rever as suas condições, aprender com os erros, escutar mais as equipes e os gabinetes integrados, tentar entender mais a complexidade das coisas, cooperar mais e tomar decisões conjuntas e transparentes.

Na vida, e sobretudo diante das incertezas, nem tudo é preto no branco ou branco no preto. Entre os extremos há muitos tons de cinza e são eles que ajudam a buscar os equilíbrios para a tomada de decisões.

É preciso deixar a teimosia de lado. Afinal, como nos lembra Edgar Morin: “A certeza de estar certo nos leva aos piores erros…. ” 

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