Uma lição de sabedoria

“Tu não devias ter ficado velho antes de ter ficado sábio” disse o Bobo ao velho – e bobalhão – Rei Lear. Na peça, Shakespeare nos ensina que a vaidade excessiva torna o homem velho bobo e patético. 

Lembrei-me desta preciosa lição shakespereana em razão de dois encontros que tive na minha visita ao mercado, um dos poucos prazeres dessa época de isolamento.

O primeiro encontro foi com um velho conhecido, cujo nome não vou dizer, mas que sempre foi excessivamente vaidoso e arrogante. Mesmo na maturidade, não aprendeu com os chacoalhões da vida; não melhorou. Soberbo e afetado, é daqueles que está sempre com a razão. Eu o avistei de longe, falando alto e pavoneando, e até fingi que não o vi.

Na sequência de compras na feira eu me encontrei com Vanda, uma velha conhecida, e que trabalha numa das bancas. Gosto de conversar com ela. Pessoa simples, mas com essência. O seu cãozinho faleceu e ela estava profundamente triste. Sem saber, comentou verdadeiras lições filosóficas. Disse que a vida é sofrimento e desse sofrimento é que surge a alegria. Segundo ela, tudo na vida é alternado entre altos e baixos, ou seja os opostos: noite e dia, vida e morte, dor e felicidade. Com os olhos marejados pela perda do cãozinho, ela concluiu que tudo na vida passa. 

Fui para casa pensando nesses dois perfis e nos ensinamentos shakespereanos. A maturidade e os rigores da vida trazem, ou devem trazer, muitos aprendizados. 

É provável que o vaidoso exagerado será aquele velho chato, daqueles que ninguém vai querer por perto. Está envelhecendo e ainda se comporta como se fosse um jovem imaturo. Ignora as lições trazidas pelo tempo. Provavelmente se tornará velho, mas talvez não encontrará a sabedoria da vida. 

Vanda, ao contrário, vai se tornando mais interessante na medida que envelhece. Vai melhorando. A sua humildade e o seu modo de ver as coisas a faz enxergar vida de uma forma mais leve. Ela sabe que tudo na vida é breve e passageiro. 

Pessoas humildes como a Vanda envelhecem bem. Sem o peso da arrogância, ou da vaidade desnecessária, tornam-se mais sábias.

Empréstimos de livros

Na minha juventude, nos anos 80, por um período fui guia turístico, e trabalhei no estado de Goiás, principalmente na Pousada do Rio Quente, hoje Rio Quente Resorts. 

Numa das viagens comprei uma raridade, encontrada numa das lojinhas lá do complexo: um exemplar do belo livro “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, da goiana Cora Coralina, autografado pela autora. 

Tempos depois, um amigo esporádico, que era jornalista e morava em São Paulo, pediu-me o livro emprestado, pois queria fazer uma matéria para um jornal semanal, no qual era colaborador. 

Já era… Nunca mais vi o livro. 

Depois de alguns meses, ao me reencontrar com o tal amigo, ele me pediu desculpas e disse que havia perdido o livro. Que chateação!

Lembrei-me desse fato ao ver essa advertência inscrita num azulejo português: “um bom livro só se empresta a um bom amigo”; “um bom amigo nunca pede um livro emprestado”.
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E.T. Na verdade trata-se de uma brincadeirinha, pois acho bom que os livros circulem. Mas há exceções, como o raro livro que emprestei e perdi.

Uma conversa inusitada

Estava no quintal e sem querer escutei uma conversa entre dois pintores da casa do meu vizinho. Eles falavam alto e o diálogo foi mais ou menos assim:

– “Não era amor nada; era picaretagem! Ela só estava interessada no dinheiro dele. Ele dizia para as suas filhas que era amor, mas elas sempre disseram que não era nada. Afinal, ele era 40 anos mais velho e estava bem “acabadinho” para ela, que era vistosa e bonita… E foi aí que surgiu o problema…” 

– “O que houve? Ela arrumou outro?”

– “Nada. Ela fingiu amor durante todo o tempo, ele ficou iludido, e ela tirou quase todo o dinheiro que ele tinha aplicado. Quando as filhas perceberam, ficaram loucas da vida, foram lá e a fizeram ir embora, a tapas. Foi o maior barraco; ela foi embora com a roupa do corpo.” 

Ao ouvir esse diálogo fiquei imaginando a confusão… Na vida forense vemos muitas histórias desse tipo. É encrenca na certa. 

Depois fiquei pensando cá com os meus botões: assanhadinho ele, não? 

E ela, por sua vez, “amou” como Marcela, a primeira paixão de Brás Cubas, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Marcela era, digamos, uma “garota de programa”; tinha o corpo esbelto e ondulante, e o seu amor era proporcional aos preços dos presentes que recebia. 

O próprio Brás Cubas resumiu esse amor em uma frase, no início do capítulo 17: “Marcela amou-me durante 11 meses e 15 contos de réis; nada menos”.

O animal mais perigoso do mundo

No zoológico do Bronx, em Nova York, há um pavilhão destinado aos primatas onde é possível ver chimpanzés, gorilas, saguis, orangotangos e tantos outros macacos de todo o mundo. No fundo do recinto há uma jaula separada. Quando o visitante se aproxima, há um letreiro que diz: “O animal mais perigoso do mundo”. 

Atraídos pelo letreiro, os visitantes chegam cuidadosamente para ver dentro da jaula. Para surpresa de quem olha, ao observar por entre as grades, a pessoa enxerga o próprio rosto. A jaula é um grande espelho e há um letreiro mostrando que o homem é a única criatura que já matou mais espécies inteiras de outros animais e alcançou o poder de exterminar toda a vida na Terra. 

As pessoas que visitam o local têm a oportunidade de olhar a sua imagem no espelho e tomar consciência da cegueira planetária que nos domina; da falta de cuidado com os ecossistemas e com o planeta Terra. 

Aqui nestes tristes trópicos é indescritível o que está acontecendo com o Pantanal, o maior bioma úmido do mundo. As imagens da destruição são devastadoras. E com a Amazônia não é diferente. 

São vários os fatores geradores, em temas tão complexos. Fazendeiros e grileiros impunes, que expandem as suas áreas de pastagens através de queimadas estratégicas; um governo ecocida e negacionista, que vem desmantelando os órgãos ambientais, e cortou 58% da verba para contratação de profissionais para prevenção e controle de incêndios florestais entre 2019 e 2020; temos a seca; o aquecimento global. Mas, em em última análise, o responsável é sempre o mesmo: o ser humano, que não consegue cuidar dele próprio e dos seus tesouros. 

Há alguns dias a ONU advertiu no relatório “Global Biodiversity Outlook 5” que a humanidade está numa encruzilhada histórica, pois não está conseguindo impedir a destruição da natureza.

Enquanto o coração arde de tristeza, fico pensando: entre a vida e a morte, qual o caminho que vamos escolher para o futuro da nossa humanidade? 

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Foto de Lalo Almeida/Folhapress: Onça pintada descansa em área queimada, às margens do rio Três Irmãos, no Parque Estadual Encontro das Águas, em Porto Jofre.

Um programa tranquilo para tempos difíceis

Sentimos falta de boas notícias. Os nossos corações estão bem sofridos com tanto tempo de isolamento, com as queimadas devastadoras, com a fragilidade da economia, e com os políticos populistas e demagogos de sempre. 

Procuro driblar o meu desalento próximo dos meus livros, ora lendo uma boa literatura, ora pesquisando e escrevendo. 

Aproveitamos o domingo preguiçoso e de calor para fazer um programa bem leve. Assistimos ao filme “Um lindo dia na vizinhança”, que alugamos no Youtube. Queríamos um filme tranquilo e feliz.

O filme é baseado na história real da amizade entre o jornalista Tom Junod e Mister Rogers (Tom Hanks), criador de um programa infantil de TV, muito popular nos EUA, nos anos 60. Durante as entrevistas ambos iniciam uma relação de amizade muito inspiradora. 

O filme tem alguns clichês, mas traz muitas mensagens que precisamos nos tempos atuais. Fala do amor, do perdão, da amizade, da reconexão conosco mesmos e com as demais pessoas, da necessidade de falarmos sobre os nossos sentimentos.

Faz uma boa reflexão sobre o valor da escuta; da importância de ouvirmos mais as pessoas com quem nos relacionamos; de fazermos mais escutas compassivas. Afinal, como disse Mister Rogers, “Ouvir é onde começa o amor: ouvir a nós mesmos e depois os próximos”.