Fundeb permanente: conquista histórica do povo brasileiro

A aprovação do novo Fundeb é a melhor notícia deste ano, tão difícil. 

Apesar da resistência do governo Bolsonaro e do quadro adverso para as políticas de direitos sociais, a aprovação dessa política essencial para a educação pública foi uma vitória do Congresso Nacional e do povo brasileiro. 

O Fundeb é uma política essencial para a redução das desigualdades na Educação e agora será permanente, incorporado de vez no texto constitucional. 

Entre outras mudanças, haverá mais que o dobro de gastos da União na educação básica, com complementação dos atuais 10% para 23%; teremos mais investimento mínimo por aluno; uma política mais redistributiva dos recursos; e foi incluído o conceito de Custo Aluno Qualidade (CAQ) que visa o padrão mínimo de qualidade das escolas, garantindo-se condições mais adequadas para o processo de aprendizagem. O quadro abaixo traz um panorama das mudanças, que serão inéditas, pois pela primeira vez escolas nos cantões mais recônditos do país poderão ter uma melhor estrutura, como biblioteca, laboratórios, quadras, alimentação e transporte escolar adequado.

O novo Fundeb é uma grande vitória da educação pública brasileira e daqueles que lutam pelo direito à educação de qualidade para todos.

Ser ou não ser?

Sabe aquele dia em que sair da cama é difícil? Ou aquele em que, após acordar, dá vontade de dormir de novo? Isso ocorre muitas vezes. Contudo, o itinerário de viver é necessário e obrigatório, apesar das complexidades e adversidades do mundo.

Vivemos em uma era que a felicidade está na ordem do dia e parece que ser feliz é uma verdadeira obrigação. Precisamos acordar feliz; sentimos que não há outro caminho, e nos esquecemos que a felicidade convive com a tristeza, a alegria com a dor, a esperança com a desesperança. A nossa condição humana é feita de contrastes; a vida é assim, com as suas ambiguidades e incertezas. Temos que conviver com as dualidades e os paradoxos da existência.

Gosto dos solilóquios de Hamlet, o príncipe melancólico da Dinamarca. Como todos sabem, Hamlet é a obra-prima de Shakespeare, e representa não só o príncipe, mas o humano, a pessoa que tem o mundo a sua volta. Hamlet e os sete seus solilóquios nos iluminam, seguram a vela que clareia a noite escura.

Muito se poderia falar da tragédia de Hamlet. A peça como um todo mostra a tentativa do Príncipe Hamlet em vingar a morte de seu pai, o Rei Hamlet da Dinamarca.  Muitas questões da alma humana são trazidas à tona na história, como a apatia, a tristeza, os dilemas, as angústias pessoais. Vale a pena a releitura da obra, ou a leitura, para quem ainda não a fez.

Destacamos o Ato III, cena I, que nos remete ao “sim ou não” da vida, ao “ser ou não ser”. Este ato nos convida a escalarmos ou não as profundezas da nossa consciência. Neste ato, na cena I, Hamlet dá voz aos seus próprios dilemas e enfoca o ser ou não ser, o viver ou o morrer. É melhor “preferir suportar males que já temos, a fugirmos para outros que desconhecemos?” 

Eis o belíssimo poema do trecho do ato III, Cena I, (tradução de Millôr Fernandes):

Ser ou não ser – eis a questão
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra um mar de angústias –
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sonho da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Não obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mundo, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis.
Podendo ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem aguentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –
O pais não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outro que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento,
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação.

O “ser” se refere à vida e aos nossos atos, enquanto o “não ser” relaciona-se com a apatia e a morte. E aí, o que fazer? Ficar ou lutar, buscar algo melhor, procurar alguma coisa que condiz mais com os nossos sonhos? Suportar uma situação ruim ou lutar pela transformação? 

Esse pequeno e profundo trecho filosófico belamente nos remete ao yin e o yang que abrangem as polaridades encontradas em toda vida: luz e sombra, verdadeiro e falso, corajoso e covarde, belo e o feio, a harmonia e o conflito, movimento e repouso. Evidencia as nossas angústias, mas alegremente nos faz pensar sobre as nossas escolhas. Nós nos reinventamos todos os dias, sejam eles tristes ou felizes. E sempre seremos criadores do nosso destino e dos rumos da nossa vida.