“Felicidade é só questão de ser”

Neste domingo ensolarado eu estava tomando café e ouvindo o Globo Rural, quando em dado momento um trabalhador rural disse com convicção: “sou o homem mais rico do mundo sem ter dinheiro”.

Parei, olhei melhor aquela pessoa simples, e fiquei pensando na sua felicidade rotineira, escutando os pássaros, sentindo o vento, ouvindo o barulho da chuva, vendo as nuvens, acompanhando o crescimento das plantas, conversando com os animais. Enfim, tendo outros olhares e sensações do mundo que não sejam através do dinheiro ou das coisas materiais, mas que trazem felicidade. Até me lembrei dos versos de Ricardo Reis (FP): “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”.

Penso que temos uma ideia muito deturpada de construção de felicidade. Desde pequenos somos perguntados sobre o que vamos ser e o que queremos ter. Crescemos com a ideia de que para ser feliz precisamos ter sucesso; ter poder; acumular bens; ser “alguém na vida” (que horrível isso!) e ser importante, seja lá o que isso quer dizer.

Somos condicionados a dar valor às roupas de marcas, a modelos de carros, a viagens caras e outras coisas mais. Mas ao final, todos vamos ver que a felicidade está (ou não) em nós mesmos, no nosso interior, e naquilo que somos, para nós e para o mundo. 

Amigos, essa é só uma pensata matinal. Mas parece que a felicidade custa muito pouco e depende só de nós mesmos.

A democracia brasileira resiste

Nos últimos dias os ventos mudaram no país e aconteceram coisas boas para a democracia brasileira. 

Depois de tantos meses convivendo com as ameaças bolsonaristas de um golpe de Estado, as instituições e a sociedade civil passaram a reagir com mais força.

No STF houve o avanço dos inquéritos que investigam os atos antidemocráticos e as fake news, com importantes diligências na raiz das estruturas olavobolsonaristas de ataques às instituições democráticas. 

Foi desmontado o acampamento dos grupos fascistóides em Brasília e o cerco se fechou contra eles. 

A prisão do Queiroz na casa do advogado dos Bolsonaros foi muito impactante no bolsonarismo. Causou enorme constrangimento e silêncio entre todos, principalmente nos militares governistas. Há medo do que está para ser revelado.

O Tribunal de Contas da União está fazendo um mapeamento dos militares ocupando cargos civis no governo, e isso é muito positivo. O TCU quer saber se há uma ‘militarização excessiva do serviço público civil’. “Considero importante que a sociedade saiba exatamente quantos militares, ativos e inativos, ocupam atualmente cargos civis, dados os riscos de desvirtuamento das Forças Armadas que isso pode representar”, explicou o ministro Bruno Dantas. O bolsonarismo já causou um estrago nas Forças Armadas. Aliás, os militares participarem do governo já é um disparate. 

A queda do olavista Ministro da Educação também foi sintomática em todo este contexto de mudanças.

Diante dos acontecimentos, o presidente parou de atacar e de criar confusões para se defender. Sabe que o seu mandato está em jogo. É questão de tempo. 

No cenário atual as Forças Armadas não apoiariam a aventura bolsonarista de um golpe contra a democracia. 

Enfim, no meio das dificuldades e tragédias que estamos vivendo, pelo menos saber que a democracia está resistindo nos traz um grande ânimo.

Os protestos coletivos e a destruição de estátuas

O sociólogo português Boaventura de Souza Santos conta que na Ilha de Moçambique, em Moçambique, na África, há uma estátua de Luís de Camões colocada no tempo colonial. Com o movimento de independência do país, em 1975, a estátua foi retirada e guardada num galpão.

Por incrível coincidência, por anos a fio a ilha ficou sem chuva, e então os sábios da ilha chegaram à conclusão de que a falta de chuva talvez se devesse à retirada da estátua. Pediram às autoridades e a estátua foi reposta no seu lugar de origem.

Até hoje lá está a estátua de Camões, olhando para o mar e trazendo chuva. O local é um dos pontos turísticos da ilha.

Com o movimento “vidas negras que importam” muitas estátuas, principalmente de escravagistas, estão sendo destruídas ou danificadas em protestos coletivos. Tudo isso como reação ao assassinato covarde do negro Georges Floyd por um policial branco nos Estados Unidos. 

Cada época pode questionar as homenagens. Mas há um exagero e não me parece haver justa causa para a destruição de estátuas. Se por um lado o racismo é gravíssimo, não podemos apagar o passado. Essas estátuas atacadas podem ser de pessoas que fizeram mal ou praticaram atrocidades no passado, mas são parte da história. Precisam ser lembradas, estudadas e questionadas pelo que essas pessoas foram e fizeram. 

É claro que não precisamos tratar protagonistas bárbaros como se fossem heróis, em locais de pompa. Essas estátuas devem ser transferidas para museus ou locais próprios de visitação. Mas jamais devem ser destruídas. Fazem parte do patrimônio público e histórico de determinada sociedade.

Não se pode apagar o passado. O que se deve, é aprender com o passado e olhar para o futuro procurando homenagear os heróis desconhecidos ou marginalizados, como os negros, as mulheres e os povos indígenas. 

As injustiças do passado e que permanecem no presente, como o racismo e as formas de dominação patriarcal e colonial, devem ser enfrentadas com os meios possíveis, com lutas e Educação, para mudar o futuro. Mas sem apagar o passado.

Estátua de Luis de Camões na Ilha de Moçambique, Mocambique, África.

As infâmias do nosso passado escravocrata

A Globo News fez um programa “Em Pauta” especial sobre o racismo, só com comentaristas negros. Em dado momento a Maju Coutinho comentou que muitas mulheres negras têm medo de ter filhos por conta do racismo. 

Este relato me fez lembrar de uma história bastante triste: a das mães escravas reprodutoras. Desculpem, mas histórias tristes precisam ser contadas, pois só as lições do passado nos ajudam a pensar um futuro mais promissor.

Depois da Lei Eusébio de Queirós, em 1850, que proibiu o tráfico de escravos no Brasil, algumas fazendas passaram a procriar escravos. 

Na cidade natal dos meus pais, em Santa Rita do Jacutinga-MG, há uma dessas fazendas, a belíssima fazenda Santa Clara, uma imensa construção colonial com 52 quartos (um para cada semana do ano) e 365 janelas (uma para cada dia do ano). 

A beleza da fazenda esconde as tristes marcas de um passado que não se apaga. Na visita que lá fizemos, a guia nos levou a um enorme salão, totalmente fechado, que funcionava como uma incubadora, um centro reprodutor de escravos. 

Segundo a guia, ali naquele salão ficavam as escravas “parideiras”, especialmente selecionadas para reproduzir escravos. Semanas depois que as crianças nasciam, eram retiradas das mães, e estas já se preparavam para reproduzir mais. Um verdadeiro horror…

Essa história horrenda foi contada na própria fazenda, embora a nossa história, oficialmente, não registre casos de reprodução sistemática de escravos para fins de tráfico.

De qualquer forma, o nosso passado escravocrata é cheio de infâmias, abusos e humilhações. A escravidão foi um hediondo crime contra a humanidade. 

O braço escravo ajudou a construir a riqueza do Brasil que temos hoje, mas a inclusão social dos negros e descendentes (53,6% da nossa população – IBGE, 2014) ainda é um imenso desafio do nosso país. 

Lamentável é o posicionamento da extrema-direita, com a sua retórica atrasada, cheia de cinismo e hipocrisia, enaltecendo a simples meritocracia e combatendo as políticas de inclusão racial. Parece que às vezes somos os mesmos e vivemos como no século XIX.

As transformações dessa dura realidade e das ações antirracistas dependem de políticas de inclusão e do fortalecimento da educação pública para todos. Há um longo caminho a trilhar. 

Foto da Fazenda Santa Clara.