Hong Kong, um exemplo em prol da democracia.

Hong Kong tem sido um exemplo da luta pela liberdade e democracia.

Em 1997, Hong Kong passou a ser novamente território chinês, após 156 anos de colonização britânica. Havia uma condição no acordo: uma cláusula que permitiria a Hong Kong desfrutar durante 50 anos, até 2047, de um regime de direitos e liberdades iguais a qualquer democracia.

Estive em Hong Kong por duas vezes. A cidade é moderna e bela, com grandes prédios e é praticamente um centro de conexão de toda a Ásia. Portanto um centro estratégico para os interesses geopolíticos e econômicos da China.

Anos depois da anexação, o regime ditatorial chinês passou a fazer pressões sobre Hong Kong. Começou a apertar o controle, com perseguições aos adversários, a desqualificação de parlamentares pró-democracia, e ameaças de extradição de inimigos políticos. 

Mas a resistência democrática tem sido grande. O povo foi para as ruas em 2014, com a chamada Revolução dos Guarda-Chuvas (que servem como escudos), e nos últimos dias protestos levaram dois milhões de habitantes para as ruas, algo impressionante num local de pouco mais de 7 milhões de pessoas. 

Os cidadãos de Hong Kong sabem que, com o fim da democracia, a perda da liberdade vem em primeiro lugar. E eles já disseram que preferem ganhar menos e ter o mais importante valor para uma sociedade: a liberdade. 

O pensador John Stuart Mill, autor do clássico “Sobre a liberdade”, já dizia isso. Uma sociedade feliz exige pessoas felizes e um dos princípios para a felicidade é a liberdade. 

Numa democracia você é livre para ser de esquerda ou de direita; ter ou não uma religião; criticar ou elogiar o governante; ser conservador ou liberal; ou seja, viver a vida como você quer. 

Há uma verdadeira resistência democrática e pacífica em Hong Kong em prol da democracia e da liberdade. Um exemplo para todo o mundo, e para o Brasil, onde as instituições democráticas têm sofrido constantes ataques.

Photograph: Anthony Kwan, sobre os protestos em Hong Kong no último fim de semana. 

O dom de viver nos faz sorrir

Estava saindo do supermercado e me deparei com um mendigo vindo em sentido contrário. 

Era um senhor com roupas esfarrapadas, expressão fechada e olhos distantes. Dava a sensação que olhava para o nada, para o infinito.

Estava sujo da cabeça aos pés e parecia cansado; talvez cansado da vida e das tolices do mundo. 

Ele olhou para mim e resmungou alguma coisa. Não entendi, mas eu o cumprimentei e ele me respondeu “buenos días”. 

Em seguida aproximou-se de mim, esticou a sua mão direita e nos cumprimentamos novamente. Sem nenhum nexo ele disse “forever, siempre”. 

Mesmo sem entender o que ele queria dizer, eu respondi “forever, siempre”. Foi então que ele abandonou a indefinível expressão de tristeza e abriu um enorme sorriso, sem os dentes. 

Saí dali com a sensação de que toda tristeza da vida pode ser eliminada com um único sorriso. Apesar de todos os dramas do mundo, o dom de viver nos faz sorrir.

Bolsonaro e os ataques à democracia

Todos os dias Bolsonaro faz ataques às instituições democráticas e tijolo por tijolo o seu governo vai desmoronando os alicerces da nossa frágil democracia. 

Exemplos não faltam: retaliações à imprensa; transferências compulsórias de comandos e interferências nos órgãos públicos, incluindo a Polícia Federal; manipulações à verdade; manutenção da guerra na política que divide o país; negacionismo ou adulteração de fatos históricos; enfraquecimento à participação cidadã, através das destituições dos conselhos; imposição de retrocessos nas políticas de direitos humanos, meio ambiente, e muito mais.

Não, os tanques não chegarão às ruas para dar o golpe. Não é mais assim. 

Os novos regimes autoritários, que os cientistas políticos chamam de democracia iliberal, são construídos lentamente, dia após dia, com o enfraquecimento das instituições e das estruturas democráticas. 

Basta olhar o que ocorreu em outros países como Nicarágua, Venezuela, Turquia, Hungria, Rússia, Polônia. 

Nesses locais a democracia ainda existe formalmente, mas há o enfraquecimento das organizações sociais e uma desigualdade na relação entre os poderes, a ponto de afetar as suas independências. Prevalece o governo e a tirania do autocrata. 

O Messias não tem nada de salvador. Ele faz ataques frontais às instituições e é uma séria ameaça à democracia. 

Não é muita novidade que tudo isso ia acontecer. Mas são preocupantes o olhar complacente a este desmonte, por parte de grande imprensa, e a desmobilização dos brasileiros. 

Resta saber se o Congresso Nacional, o STF (que os bolsonaristas ideólogos querem fechar), o Ministério Público, e demais instituições democráticas terão resiliência para colocar limites em Bolsonaro. Antes que seja tarde.

Saudoso Dia dos Pais na roça

Lá na roça comemorávamos o Dia dos Pais, e outras datas importantes, com um bom almoço. Almoço da roça, sem preocupações com luxo ou fineza.

No dia a dia da roça quase não havia comida requintada. 
Era sempre arroz, feijão e alguma “mistura” que podia ser um ovo, frango caipira, batata ou mandioca frita. Junto uma salada de alface e tomate. Não havia nada mais além disso. 

O que mudava era tempero. Às vezes tinha um torresmo ou um jabá no feijão e isto já deixava a comida diferente, com mais sabor.

Não havia beterraba, cenoura, espinafre e essas outras coisas importantes. O povo da roça não gosta de coisas muito diferentes. O melhor mesmo é a comida do dia a dia. 

A diferença ficava por conta dos domingos. A minha mãe sempre fazia um macarrão especial e um frango cozido. Era o máximo de prazer. 

A grande exceção ficava por conta das datas importantes, como o Dia dos Pais. Aí sim, tinha um frango especial, recheado com farofa; ou então carne de porco na lata, uma das coisas mais deliciosas da culinária caipira. 

Certa vez recebemos um famoso político da cidade. A minha mãe fez para ele a carne na lata. Ele adorou e disse que aquilo não era “carne na lata”, conforme falávamos. Era “confit”, como se chama o método de conservação da carne em imersão na gordura. 

Até entendemos bem, mas “confit” parecia coisa de rico, e na roça as pessoas são simples e não gostam nem de falar bonito. Para nós, aquela delícia continuou a se chamar “carne na lata”. 

Bons e velhos tempos. A vida era humilde, mas éramos felizes, muito felizes!

Quem teve um cão não pode ficar sem outro cão

Quem teve um cão, nunca mais pode ficar sem outro cão. O cão nos preenche com algo misterioso, quase inexplicável de uma essência de viver. 

O cão traz sentidos para muitas coisas da vida. Parece que a energia e o olhar de um cão confortam a nossa alma. 

Com tanta loucura que estamos vendo; com palmas para a barbárie, e até elogios à tortura, só um cão nos salva na aridez do dia a dia. Nem a literatura, a poesia, a música e a filosofia dão mais conta de tanta carga pesada. 

Quando li pela primeira vez que o poeta Lord Byron havia feito um epitáfio para o seu cão Boatswain achei um exagero. Hoje tenho certeza que ele estava cheio de razões para homenagear eternamente o seu cão. 

Só um cão nos dá vida e sobrevida neste tempo histórico desintegrado de valores. Só um cão nos conforta!

Preciso ter outro cão. Pode ser exagero, mas em tempos sombrios, só um cão pode nos salvar; ou acalmar a nossa alma. 

Byron escreveu um poema para o seu cão e este trecho foi colocado no epitáfio:

“Aqui descansam os restos daquele que possuía beleza sem vaidade/Força sem insolência/ Coragem sem Ferocidade/todas as virtudes do homem e nenhum dos seus defeitos”.

Foto: Túmulo do cão Boatswain.

O que Bolsonaro falou hoje?

“O que Bolsonaro falou hoje?” é a pergunta que os 2/3 de brasileiros, atônitos e indignados, fazem todos os dias. 

Dois terços porque levantamentos do Data Folha mostraram que 1/3 da população apoia e pensa como Bolsonaro, sobre as frases agressivas. 

Vale dizer: aqueles que perderam o pudor e saíram do armário ideológico estão deitando e rolando de alegria com o desatino verbal do Presidente. 

Perguntado sobre a indicação do filho Eduardo para ser o embaixador, o presidente falou: “a imprensa tem que entender que eu ganhei. Eu, Johnny Bravo, Jair Bolsonaro, ganhou, porra! Ganhou, porra! Vamos entender isso.”

Depois, defendendo a lei da selva no trabalho policial, disse: “Os caras vão morrer na rua igual barata, pô, e tem que ser assim”. 

Na última polêmica, perguntado por um deputado se está “virando cabra da peste”, disse que “Só tá faltando crescer um pouquinho a cabeça”, mais uma vez se referindo pejorativamente aos nordestinos. 

Imaginem o que as crianças brasileiras não pensam, ao ouvirem o Presidente da República fazendo tais declarações?

Juro que tenho vontade de publicar coisas mais leves por aqui, como gosto de fazer. Mas como ter ânimo diante de um presidente destes, que governa com ódio e mina as nossas esperanças?

É preciso parar Bolsonaro. Por tudo o que está fazendo e falando. Antes que seja tarde.

O familismo do clã Bolsonaro e o familismo no Brasil

O jornal “O Globo” publicou que, em 28 anos, o clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares.

Ao ser questionado pela reportagem, Bolsonaro respondeu: “Já nomeei parente sim. Qual é o problema?”

Para muitos, ainda que sejam (falsos) moralistas, não parece um problema porque no Brasil o familismo sempre foi comum. 

O familismo na política é uma vergonha histórica, com os Sarney, Lobão, Magalhães, Cunha Lima, Barbalho, e tantas outras dinastias de famílias, donas do poder há décadas ou séculos, com as suas aristocracias transmitidas aos filhos e netos. 

Na política da sua cidade você provavelmente encontrará a mesma coisa. Basta fazer uma genealogia dos grupos familiares passados. 

Mas não é só na política. As redes de nepotismo estão presentes em todos os Poderes. Muitas vezes estendem os seus tentáculos ao setor privado. 

O familismo produz e reproduz desigualdades históricas e é um desrespeito à meritocracia. 

É verdade que melhoramos muito nas últimas décadas, com os concursos públicos e o enfrentamento ao nepotismo. Mas ele insiste em passar de geração para geração.

O nepotismo é um desprezo à moralidade e por isso é considerado improbidade, uma forma de corrupção. Sem contar que muitos dos nomeados recebem e nunca vão trabalhar. 

Como cidadãos nos resta a capacidade de indignação, de não-conformismo. E é claro, sempre desconfiar de políticos populistas e (falsos) moralistas.

Menina do nariz arrebitado

Por esses dias vi a expressão “menina de nariz arrebitado”, que também é o nome de um livro de Monteiro Lobato. Lembrei-me do início da minha adolescência, nos anos 70, em São Luiz do Paraitinga. 

Naquela época, arrumar uma paquera ou namoradinha era um grande desafio, principalmente para quem era da roça, como eu. 

Éramos feios de doer. Tímidos e desajeitados, vestíamos mal, e as “gatinhas” – assim eram chamadas as mocinhas – davam mais bola para os rapazes da cidade, que eram mais desinibidos e “estilozinhos”. 

Para agravar a situação, contávamos com as dificuldades próprias de uma pequena cidade do interior. Íamos todos para a praça, as meninas andavam de um lado e os meninos de outro; paquerávamos apenas com o cantinho do olhar e com pequenos sorrisos. 

Chegar junto à paquera era uma enorme dificuldade. Aguardávamos ansiosos os fins de semana, planejávamos atentamente como íamos abordar a “gatinha” e puxar uma conversa. Mas, invariavelmente, os planos não davam certo; rodávamos o tempo todo na praça e nada. Íamos embora frustrados. Éramos tímidos. 

Dar uma ou duas voltinhas com a paquera era sempre uma grande conquista; passar uma sessão de cinema juntos, nas matinês de domingo, apenas dando carinhos com as mãos, era uma conquista enorme.

Beijo, beijo de verdade, somente depois de alguns encontros. Ainda assim eram beijos inibidos, apenas com os lábios. Para beijar firme, com forte vibração dos hormônios, demorava muito tempo. 

Mas voltando ao assunto, nestas paqueras, dando voltas na praça, quando a gatinha nunca nos dava bola e nem olhava para nós, dizíamos com todo vigor: “essa é uma menina do nariz arrebitado”.

Os retrógrados e adversários da democracia

Estive uns dias no Brasil. Reencontrei familiares e amigos. Fiz coisas simples e boas. Comi pão francês, pão de queijo e doce de leite. Matei um pouco as saudades e proseei bastante com as pessoas. 

Pude sentir de perto o pesado clima político. As pessoas estão divididas, amedrontadas e assustadas com o que está acontecendo no país e com o desprezo pelos direitos das pessoas. 

Fui ao banco. À espera do atendimento sentei-me com uma pessoa que eu conhecia e que fazia tempo que eu não reencontrava. Pessoa com boa formação. Bolsonarista convicto. Não é aquele sujeito que votou em Bolsonaro contra o PT; votou em Bolsonaro porque acredita que ele é “o mito”, “o salvador da pátria”.

Foi uma conversa difícil porque o sujeito revelou-se um extremista. Defendeu o fechamento do Congresso e do STF; sustentou a necessidade da mentira para derrotar o inimigo comunista, seja lá o que isto significa; disse que para o país crescer é preciso explorar ao máximo o agronegócio na Amazônia e que é bobagem essa história de aquecimento global. 

Eu o conhecia de outros tempos e fiquei assustado com o seu radicalismo atual. Tentei contrapor algumas coisas, mas não consegui. 

Interessante é que antes as pessoas tinham escrúpulos para expressar as suas opiniões radicais, mas agora perderam a vergonha. Reafirmam preconceitos do patriarcado e revelam os seus DNAs autoritários, autocráticos. Destilam a intolerância, o machismo, a homofobia, o radicalismo, o antidiálogo. 

É preciso deixar bem claro: estas pessoas não são somente conservadoras; são retrógradas. Espalham a guerra e a mentira, armas possantes do fanatismo político. 

Esse meu conhecido, saudoso da ditadura, é o puro reflexo deste governo maléfico e repugnante. 

São todos contra os melhores valores que transmitimos às futuras gerações. São adversários da democracia.