Mini-crônica de um momento de ternura

Estava no supermercado, com vários produtos para passar na fila do caixa e, de repente, chegou uma moça com apenas um volume nas mãos.

Olhei para ela e lhe disse para passar na minha frente, mas ela continuou imóvel. Gesticulei, falei novamente, e aí ela entendeu e passou na minha frente. 

Em seguida deu um pequeno grito. Foi quando percebi que ela era muda. 

Com dinheiro na mão, e com gestos, ela pagou a sua conta, olhou para mim e sorriu. Na sequência, com um misto de vergonha e coragem, ela veio até a mim e me deu um leve abraço de agradecimento; depois foi-se embora. 

Não sei por qual razão, mas fiquei sensibilizado com aquele abraço da moça. Foi um pequeno gesto, mas um grande momento de ternura! 

O mundo precisa de mais ternura!

Homenagem à Luna

Há 3 anos, quando a Luna faleceu, ficamos muito tristes. Foi uma grande choradeira para todos, pois foram muitos anos juntos; ela fazia parte de nós e nós fazíamos parte dela, da sua vida, dos seus olhares, dos seus amores e cuidados por nós. 

Colocamos ela no carro e fomos para a roça para sepultá-la. No caminho, paramos num canteiro de flores e compramos uma muda de Manacá da Serra. Ela seria enterrada e no mesmo lugar plantaríamos o Manacá. 

Plantamos. Era inverno e a muda de Manacá teve dificuldades para sobreviver. Ao final sobreviveu e ficou belíssimo, conforme esta foto que recebi hoje dos meus familiares. 

Luna foi para o céu dos bichos, mas a sua lembrança tornou-se eterna entre nós, seja pelas suas histórias ou pelo Manacá que ficou em seu lugar. 

E assim Luna continua a brilhar e a iluminar para sempre as nossas vidas. E o Manacá passou a fazer parte destas lembranças e desta história. 

Retrocessos no campo dos valores

O governo Bolsonaro orientou a diplomacia brasileira a frisar que “gênero” é apenas biológico, ignorando os avanços do mundo civilizado na luta contra as desigualdades e preconceitos. 

A posição do Brasil causou mal-estar e perplexidade na ONU esta semana.

Como relatou Jamil Chade, blogueiro do UOL e correspondente em Genebra, até aliados do governo Bolsonaro, como Israel e Chile, recusaram a apoiar a decisão brasileira. Os canadenses, escandinavos e países europeus dizem que o termo não pode ser eliminado. Só a Arábia Saudita apoiou a nova posição do governo brasileiro.

Sociedades e países avançados consolidaram o reconhecimento de que a espécie humana comporta toda uma gama de identidades de gênero. Os avanços da ciência e das liberdades individuais permitiram que “novas” caras e identidades ganhassem reconhecimento e representação. 

A sigla LGBTQI+, é um esforço para representar essas identidades e mostra a complexidade e as especificidades de cada ser humano, que abrange Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Queer, Intersexuais e a sigla +, que inclui tudo o mais, como assexualidade, agênero, andrógino, bigênero e outros. 

A diferença entre as pessoas não é somente cultural e inclui fatores genéticos, anatômicos, fisiológicos e hormonais. 

Os tabus e as proibições sempre empurraram as pessoas que transcendem a lógica binária homem-mulher para a clandestinidade, vítimas do preconceito e da discriminação. Por isso não é possível que tenhamos retrocessos. 

Contudo, o Brasil caminha na direção contrária e rapidamente vai rasgando a sua reputação diante do mundo civilizado. No campo dos valores vai se alinhando com os países mais retrógrados de nosso planeta.

O poder da fotografia

Entre as fotos mais famosas da história está a da “Mãe Migrante”, de Florence Thompson, feita pela fotógrafa Dorothea Lange, em 1936, durante a Grande Depressão Americana.

A então mamãe Florence, com 32 anos de idade e sete filhos para criar, perdera o marido e trabalhava no campo, na região de Nopono, Califórnia. Andavam famintos e desesperados, vivendo de vegetais e pássaros que as crianças matavam. 

Foi então que a fotógrafa Dorothea, que viajava pelo país para registrar otrabalho dos migrantes e imigrantes, aproximou-se e fez um conjunto de fotos que entraram para a história. 

O que mais marcou nas fotos da Mãe Migrante foi o desalento no olhar daquela mãe. Apesar da crueza das fotos, elas serviram para trazer mais esperança de dias melhores; motivaram uma ajuda alimentar emergencial aos trabalhadores rurais do país e mostraram ao mundo o enorme impacto da Grande Depressão na vida dos trabalhadores rurais.

A fotografia está ligada ao momento, ao instante, e depois se liga à eternidade. Muitas outras fotografias ajudaram a mudar o mundo! 

Não será diferente com a fotografia do papai Óscar (25) e sua filha Angie (02), feita pela repórter Julia Le Duc, que chocou o planeta e doeu na alma de todos. 

A foto chamou a atenção até do Papa, mobilizou as organizações internacionais e sensibilizou os políticos mundo afora, incluindo o insensível Trump. 

Esperemos que a impactante foto mude o olhar de todos sobre os dramas humanos que envolvem a imigração. 

O mundo que mata crianças precisa ser melhor; não se pode pensar só em dinheiro e em poder. Precisamos de um mundo mais humano.

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Foto 01: Dorothea Lange; foto 02: Julia Le Duc

Cristo jamais apoiaria a pose de arminha

Para além do Cristo da fé e da pessoa humilde que convivia com ladrões, doentes e prostitutas, o que mais encanta em Jesus é que ele foi um admirável mestre e pacificador.

Jesus fazia as suas pregações através de longas caminhadas e ensinava os seus discípulos passeando nos campos. Ele adotava o método peripatético, utilizado por Aristóteles, que é ensinar caminhando. 

Nos seus ensinamentos ele encantava as pessoas com as suas parábolas e histórias de paz, tolerância e harmonia na vida social.

Grande líder da paz, ele disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”. 

Jesus jamais apoiaria a defesa das armas e nem faria pose de arminha. Um horror!


Creme para evitar o envelhecimento

Estava num shopping, um sujeito me abordou e me ofereceu um creme milagroso para tirar as rugas e as bolsas embaixo dos olhos.

Respondi a ele que essas coisas são normais com a idade e que não me preocupo muito com o envelhecimento.

Ele insistiu na magia do seu creme. Disse que estava bombando no mercado e custava apenas 7 dólares; segundo ele, depois de passar o creme eu ia ficar mais jovem.

Agradeci, mas eu lhe disse que busco envelhecer sem remorsos ou fazer mágicas para rejuvenescimento, mantendo vida intensa e ativa…

Depois eu pensei, e o fato é que não aceitamos bem o envelhecimento; muitos vão contra ele numa luta sem fim.

Na literatura, o jovem Dorian Gray, na obra de Oscar Wilde, com medo da velhice e da morte, chegou a vender a alma para o diabo para ter a juventude de volta e permanecer sempre jovem. 

Não deu certo. Ele depositou na pintura escondida a fuga para que a sua aparência exterior fosse mantida jovem e bonita, mas o seu retrato passou a ter transformações horríveis e ele o escondeu no sótão.

Na realidade envelhecer não é simples e não adianta esconder ou disfarçar muito, pois o tempo chega de qualquer jeito e é inexorável.

Enquanto isso vamos seguindo firmes e fortes, sem ter tempo de pensar na morte.

Perdemos Clovis Rossi


Quando o assunto é morte perdemos um pouco o brilho no olhar. 

Muito triste a morte de Clóvis Rossi, 76 anos, um dos maiores jornalistas do Brasil e decano da Folha de S. Paulo.

Há mais de 30 anos sou assinante da Folha e gostava das suas reportagens e análises inteligentes, com doses de ironia, mas com bom senso e equilíbrio. 

Era um gigante do jornalismo, sobretudo nas grandes questões internacionais; um profissional ético e preocupado com um Brasil melhor. Sempre foi uma pedra no sapato de políticos populistas. 

Morreu num momento em que o Brasil precisava de jornalistas como ele.

Que descanse em paz e continue a inspirar as novas gerações para o bom jornalismo.

Dia de Santo Antonio

Uma amiga me lembrou que hoje é dia de Santo Antonio, segundo ela, “um arquétipo do homem de coragem e fé”.

Ando pouco católico, mas sempre gostei de Santo Antonio, por conta do meu nome. E também porque ele é reconhecido como um santo culto, virtuoso em generosidade, fraternidade, e é protetor de todos aqueles que o procuram.

Por conta de tantas virtudes, nunca entendi muito as razões dele ser tão maltratado.

Pela fama de casamenteiro, lá na roça, desde sempre, acompanhei o seu martírio. Tem os pedidos simples, com velas e orações; mas tem as simpatias que torturam o santo, como enterrá-lo de cabeça para baixo atrás da bananeira; retirar o Menino Jesus da imagem e prometer ao pobre santo que somente o devolverá quando a pessoa encontrar um par, entre tantas outras. 

Soube até de um caso em que uma imagem do santo foi subtraída de uma capela e a pessoa deixou uma calcinha em seu lugar, na esperança de arrumar a alma gêmea.

Não sei, mas penso que ele atende melhor as simpatias ou orações menos radicais, como aquela em que a pessoa pega duas agulhas iguais, coloca num prato fundo com água e açúcar. Se no dia segunte as agulhas estiverem juntas, pode se preparar que o casamento é certo.

Sei lá… De qualquer forma, nesta data o meu pedido é que Santo Antonio proteja todo mundo, principalmente as crianças; que ajude aqueles que ainda não têm, a ter um grande amor; que proteja os casais, os namorados e todos os amantes deste mundão. Viva Santo Antonio!

Guerra de ideologias

Pensei em falar aqui no face sobre os episódios envolvendo a Lava Jato, mas controlei o meu ímpeto. 

Queria apenas dar uma opinião, aquela que penso ser mais razoável, pois quanto mais a idade passa, mais quero ser aristotélico e sair dos extremos.

Faz um bom tempo que faço este exercício e tento fugir das polarizações. Para tanto eu controlo os meus impulsos, procuro ouvir com calma o outro lado, vejo se não estou exagerando nas minhas convicções, e assim busco tomar a ponderação e o justo meio como norte para a minha vida. 

Parece simples, não é? 

O problema é que no Brasil até o meio termo está gerando confusões. Não existem posições razoáveis, não há equilíbrios: ou você está de um lado, ou de outro; se não está de lado nenhum também apanha. 

Direita contra esquerda, ideologias contra ideologias. O ambiente é antidemocrático e de incessante patrulhamento, excluindo qualquer diálogo racional.

No avesso dessa guerra em estado bruto, estão os milhões de brasileiros que sonham com um Brasil mais unido, com um olhar comum de sociedade.

E assim, enquanto retroalimentamos a guerra e as divisões, o Brasil continua, como diria Millor, um país “condenado à esperança”.

Correr riscos e aprender a viver

Na bela crônica “Aprendendo a Viver”, do livro com o mesmo nome, Clarice Lispector traz uma mensagem clara: “não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe”.

Clarice nos convida a fazer um exame de consciência, lembrando-nos de quantos “agoras” que foram perdidos e que não voltarão mais. Segundo ela, “há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito… há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.”

Na sua reflexão ela ressalta que muitos pensam, economizam e poupam pensando somente no futuro. Está certo pensar um pouco no futuro, mas é necessário melhorar o presente, pelo fato de estarmos vivos. 

A pergunta que se faz é: por que não mudamos quando é preciso mudar? 

A escritora lembra que o medo é a causa da ruína dos nossos momentos presentes: “qual é o agora que queremos fazer e não temos coragem?”

Ela cita o filósofo Thoreau e comenta: “Creio que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força”. 

Ao final Clarice conclui que para mudar é preciso arriscar mais e fazer o que queremos fazer: “A salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena.”