Pensar sempre no valor da vida

Era madrugada quando tudo começou a chacoalhar. Demorou uns 40 segundos e o mundo parece que girou de um lado para o outro. No 8º andar do prédio onde moramos tudo pareceu mais intenso; subitamente acordei pensando na vida. 

O terremoto foi forte, de magnitude 6. 6., mas sem vítimas ou danos. Foi distante, no Oceano Pacífico, mas o tremor foi sentido em toda a região, atingindo mais El Salvador.

Curioso é que aqui em Honduras as pessoas nem discutem sobre tremor de terra, mas sim sobre a chegada de 18 furacões previstos para o próximo semestre, vindos do Pacífico e do Caribe; eles são normais na região e vêm fracos, mas já houve furacões destruidores por aqui.

Amigos, não sei porque estou falando deste assunto sem importância, mas quando ocorre um forte fenômeno da natureza, fico a pensar na fragilidade da vida, que pode acabar, mesmo quando estamos num lugar seguro e com os pés no chão.

Ao pensar na arriscada aventura da nossa existência aprendemos a amar, ainda mais, a bela luz da vida; a refletir de que adianta o orgulho, a arrogância, se tudo é um sopro de vida e se esvai no tempo que passa.

Foi bom! Mesmo quando estamos distraídos da morte, faz bem pensar no valor da vida.

Perdi o meu cartão de débito, e agora?

Fui pagar uma conta no período da manhã, abri a carteira, e… cadê o cartão de débito? Sabe aquele imediato frio no estômago? 

Na sequência, procurei rapidamente no carro, e nada; parei, conferi o meu saldo bancário e estava intacto.

Lembrei-me que no dia anterior havia sacado dinheiro num caixa externo de um banco daqui. A melhor hipótese era que tivesse esquecido o cartão no caixa, pois aqui a máquina trava o cartão até o final da operação. 

Logo pensei: “Antes de bloquear o cartão, vou ao banco. Apesar de ser uma agência muito grande, quem sabe uma pessoa honesta, uma alma bondosa, achou o cartão e o entregou a alguém do estabelecimento?”

Fui ao banco, identifiquei-me e perguntei sobre o meu cartão. O guarda que me atendeu passou os dados pelo rádio e, em instantes, apareceu Alan, um guarda todo humilde, franzino, dentes tortos e me disse: “eu encontrei e aqui está o seu cartão”. 

Feliz, comecei a agradecê-lo. Ele logo me interrompeu dizendo que não fez mais que a obrigação, que sempre guarda os cartões que encontra até que alguém os procure. Depois concluiu: “quando fazemos o bem, colhemos o bem e o mundo fica melhor”. 

Sim, Alan. Exemplos dignificantes como o seu nos reanimam na jornada da vida e na crença de um mundo melhor.

A mentira nos currículos

A mentira nos currículos tem sido assunto nos últimos tempos e envolveu ministros de Estado, o governador do Rio e outros. 

Levantamento publicado na Exame mostra que 7 em cada 10 profissionais brasileiros mentem em seus currículos. 

De que vale o currículo acadêmico se na prática ele não for realmente acompanhado da verdade, da inteligência e sabedoria?

Ao longo das décadas demos mais destaques ao conhecimento formal e acadêmico, aos diplomas e currículos, e fomos nos esquecendo de outros valores, como aqueles adquiridos com a sabedoria da vida. 

Como, por exemplo, não admirar as pessoas simples da roça, que aprendem sozinhos muitos assuntos, entre eles a previsão do tempo simplesmente observando o vento, a lua e as nuvens? Como não admirar os autodidatas brilhantes?

A sabedoria da pessoa, da roça ou cidade, depende do que ela aprende do mundo e o que faz desse aprendizado.

Ao longo da existência todos nós formamos o nosso currículo da vida, no qual acumulamos as histórias e experiências. A sabedoria vem dessas lições da vida; dos erros e acertos; das observações do mundo e das nossas percepções e intuições.

O currículo acadêmico pode valer muito, mas na prática é preciso saber se o conhecimento adquirido deixou a pessoa mais apta para o seu ofício, com visão sistêmica do mundo e com mais sensibilidade para entender sobre o ser humano e a vida.

Em se tratando de governantes, também é preciso indagar se aquele conhecimento deixou a pessoa mais hábil e melhor para fazer coisas boas para o seu povo, a humanidade e as futuras gerações. 

Em suma, o currículo acadêmico é importante, mas somente será legitimado se com ele a pessoa ficou mais inteligente, mais sábia e aplicar melhor os seus aprendizados para o bem comum. Afinal, a árvore se conhece pelos frutos.

A voz da sensatez contra o decreto de armas

Governadores de 14 estados assinaram uma carta contra o decreto de Bolsonaro que ampliou a posse de armas. Ainda bem que vozes começam a lutar contra o decreto de armas e esse é um dever de todas as pessoas sensatas do país. 

Estima-se que o Brasil já possui 100 milhões de armas de fogo em circulação. Cálculos do Instituto Sou da Paz demonstram que o infame decreto de Bolsonaro amplia o acesso de armas para 19 milhões de pessoas. 

Esses números são assustadores, para um país que tem a cultura da violência. O aumento das armas, inclusive com artefatos de guerra, gerará um grande impacto na sociedade, municiando ainda mais os criminosos.

Até os anos 90 o Brasil comercializava armas de fogo. Dados do Ministério da Saúde e do IPEA mostram que entre 1980 a 2003 houve o alarmante aumento de 8% ao ano nas taxas de homicídios. Em 1983 o Brasil possuía 14 homicídios por 100 mil habitantes; vinte anos depois, até a vigência do Estatuto do Desarmamento, este índice subiu para 36,1 mortes por 100.000. Atualmente a taxa está em 29,9.

Os números mostram que, se o desarmamento não reduziu sensivelmente os índices de homicídios, pelos menos estabilizou as mortes por arma de fogo, sobretudo entre os jovens, que são os mais vulneráveis.

É um erro acreditar que mais armas tornam a sociedade mais segura. Teremos mais crimes, principalmente entre as pessoas que não são criminosas e que podem matar em momentos de ímpeto e raiva, como em brigas de trânsito, em festas, em relações de vizinhança, entre casais.

O Estatuto do Desarmamento (lei n.10.826, de dezembro de 2003) já permite a posse regular de armas. Cabe ao Congresso revisar o decreto para ajustá-lo aos limites legais e constitucionais, levando o tema a ser discutido de forma equilibrada, analisando-se as peculiaridades e as necessidades da população.

Dados mostram que 72% dos assassinatos no Brasil ocorrem com armas de fogo, representando mais que o dobro da média mundial, de 35%. Vamos aumentar ainda mais esses índices vergonhosos?

Arma de fogo raramente é usada com eficiência para a defesa; em regra é usada para matar. Os especialistas não divergem: mais armas, mais homicídios.

Prêmio Camões para o Chico

Foi excelente a notícia do Prêmio Camões para o Chico, nosso compositor versátil, grande poeta e um dos maiores artistas de todos os tempos! 

Sem dúvidas ele é o maior compositor brasileiro e um dos maiores do mundo.

Chico nos ensinou a sonhar sonhos impossíveis: “Sonhar/Mais um sonho impossível/Lutar/Quando é fácil ceder/Vencer/O inimigo invencível/ Negar/ Quando a regra é vender…”

Segundo Chico o “sanatório geral vai passar…”

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Retrato do cantor e compositor Chico Buarque feito em 1972 por Di Cavalcanti e publicado na fotobiografia “Revela-te, Chico”.

Orquídea, um suspiro que a terra exala

Sei que o assunto mais importante do momento é a crise de governabilidade envolvendo o nosso presidente, mas vou falar de uma orquídea. 

Há alguns anos eu cultivava orquídeas lá na roça. Uma grande enchente destruiu parte do orquidário e eu desisti delas. 

A partir de então a minha irmã assumiu o cuidado com as orquídeas e elas sempre nos presenteiam com flores vivas, espalhadas pelas árvores e vasos. 

A orquídea é uma inefável expressão da selva virgem, um suspiro que a terra exala, um exuberante presente da natureza, a enriquecer o nosso mundo. 

Saudoso da roça, hoje a minha irmã mandou a foto desta bela orquídea. 

Sim amigos, apesar de tudo, as flores ainda nos dão a certeza de que a vida é bela.

O cheiro bom da chuva

Depois de uma longa e sofrida temporada de seca a chuva chegou hoje à tarde e veio forte. Com a chuva, a energia da vida, o cheiro gostoso de terra quente e as lembranças das emoções esquecidas da infância.

Necessitávamos de chuva e há tempos eu não me emocionava tanto com uma chuva. Tem chovido pouco e metade da população da capital Tegucigalpa – cerca de 500 mil pessoas – não tem água, o bem mais precioso da vida. Há alguns dias o The Guardian publicou uma matéria e uma foto sobre o reservatório da capital, totalmente seco (foto 1, Orlando Sierra/AFP). 

Mas afinal ela veio! Que bom sentir o frescor da chuva renovando a vida e nos levando às emoções da infância, às brincadeiras nas poças d’águas, às cambalhotas ao vento e aos sonhos de um mundo alegre.

Afinal, quem nunca amou uma tarde de chuva?

O povo nas ruas contra o obscurantismo

As manifestações que levaram o povo às ruas representam um movimento amplo contra o retrocesso, a ignorância e o obscurantismo na Educação. Não foram só “idiotas úteis”, como disse o presidente. 

Dados mostram que 2 em 3 alunos de universidades federais são das classes D e E, ou seja, alunos pobres, cujas únicas esperanças de melhorarem na vida é através da Educação.

Hoje temos 2 milhões de estudantes em instituições públicas de ensino superior, algo em torno de 1% da população brasileira. É um número considerável e impactante.

Os avanços na Educação pública não permitem retrocessos. Também não toleram ataques levianos, ameaças de filmar professores, e mentiras em relação às escolas e universidades como supostos locais de nudez, de marxismo cultural, de comunismo e outros exageros que não enganam as pessoas minimamente esclarecidas. 

Não existem discursos do governo para unir o povo, com tons mais moderados. O que temos são ataques, discursos ideológicos e confusões. 

Em breve tempo de governo e o povo foi para as ruas. É um recorde! Aos poucos o governo vai perdendo o seu capital eleitoral junto ao povo e enfraquecendo a sua base de governo no Congresso, com sérios riscos de não aprovar as reformas. 

Ulisses Guimarães já dizia: “Só o povo nas ruas mete medo em político”. A grande advertência foi feita! E de forma pacífica e com humor. 

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Fotos G1

Mãe, agora descanse


“Mãe, agora descanse. Sei que você se sente responsável por cada um de nós; sempre foi assim, mas é hora de repousar.

Você trabalhou a vida toda e nunca descansou. Você se lembra lá da roça? Depois de uma longa jornada diária, você era a última a dormir e ficava batendo o leite numa grande lata, para fazer manteiga para o nosso consumo e depois vender o que sobrava? Mãe não descansa, não é? 

Você sempre se preocupou muito conosco, até mesmo com coisas fora do seu alcance. Parece que as preocupações de mãe nunca se acabam!

Nos momentos mais dramáticos da sua vida você se mantinha forte e não chorava perto de nós, simplesmente para não nos fazer sofrer. Depois desmoronava num canto, sozinha, cheia de dor. As mães são muito fortes, não é? Agora descanse das suas dores. Chega de sofrer. As mães sofrem até pelos problemas que não existem.

Você era tão mãe, mas tão mãe, que cuidava também dos seus irmãos. Lembra-se? Guardava um dinheirinho para um, um presentinho para outro. Mãe é assim, cuida até dos irmãos.

Além de ensinar que o caminho mais importante da vida é o amor, você foi a melhor conselheira do planeta. Dava conselhos sábios, mesmo com pouca escolaridade. Eu me arrependi dos conselhos que você deu e não segui. Repouse, mãe! É a nossa vez! Agora os problemas são nossos. 

O seu colo faz muita falta quando estamos longe. Colo de mãe sempre faz falta, pois é insubstituível. Mas agora descanse e tenha a certeza que você cumpriu com dignidade e altivez o ciclo da vida. 

Sei que você está preocupada, principalmente com o seu filho Luiz, que anda doente, mas não se preocupe mais. Somos quatro irmãos unidos e cuidaremos uns dos outros.

Agora você está bastante debilitada e doente. Descanse maezinha. Vá em paz. Nós te amamos muito e nos encontraremos na eternidade!”
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Há pouco mais de três anos tive o privilégio de segurar as mãos da minha mãe e acompanhar os seus últimos suspiros. Ela insistia em ficar, para cuidar de nós. Fui falando, essas e outras palavras, para que ela descansasse em paz, após 87 anos intensamente vividos. Desculpem, se o texto é longo e com emoções, mas foi assim, e penso que a minha mãe representou o que representa cada uma de todas as mães. 
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Feliz dia das mães a todos: mães biológicas, mães de coração, avós, madrastas carinhosas, pais que fazem o intenso papel de mães, e todos aqueles que exercem a grande tarefa de cuidar das futuras gerações com o maior amor do mundo: o amor de mãe. ❤️?

O paraíso é um sorriso esperado

Esta foto é de Ahmad Sayed Rahman, menino afegão de cinco anos que perdeu a perna direita quando foi atingido por uma bala, no fogo cruzado de uma batalha. Aqui ele aparece dançando com a perna protética que ganhou, no hospital do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) para vítimas e deficientes de guerras.

Para comemorar a sua conquista – e para refletir – este fragmento do poema “Vi apenas uma vez”, do poeta checo Jaroslav Seifert, Nobel de Literatura de 1984, que fala sobre o paraíso: 

“…O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
por muito tempo esperado
e lábios
que murmuram o nosso nome
gerando assim um frágil instante fabuloso
quando depressa podemos nos esquecer
do inferno.”

Foto: Wakil Kohsar/AFP