Macartismo à brasileira

O Ministro da Educação disse que filmar professores em sala de aula é um direito dos alunos.

Pois bem. Temos mais de 2,5 milhões de professores que diariamente vão cedo para o chão das escolas lutar pelo ensino e Educação do nosso país. Enfrentam todas as adversidades possíveis, como baixos salários, chuva, frio, sol, violência.

Agora terão que se preocupar também com o patrulhamento e o denuncismo dos alunos, incentivados oficialmente pela maior autoridade da Educação, que ameaçou analisar os casos filmados.

Registre-se que em nenhuma democracia liberal do mundo o professor pode ser filmado, a menos que ele permita. É inconstitucional; é ilegal. Mas o ministro, que já disse que comunista precisa levar um tiro na cabeça, segue com as obsessões olavistas do anticomunismo e do combate ao marxismo cultural. 

Nos anos 1950 o senador McCarthy liderou uma campanha anticomunista nos EUA. Milhares de pessoas inocentes foram investigadas pelo FBI e tornaram-se vítimas de caça às bruxas, entre as quais Charles Chaplin. Os abusos foram tantos que a opinião pública se indignou e rebelou-se contra McCarthy, que morreu decadente e no ostracismo.

Ou reagimos todos, professores, sindicatos e população, contra este estado de coisas, ou viveremos nas escolas os tempos sombrios de um macartismo à brasileira.

O MEC e a divisão (e exclusão) dos saberes

Há algum tempo a Finlândia anunciou uma revolução: pretender acabar com as disciplinas nas escolas. O país é protagonista em educação de qualidade e deseja uma educação amplamente interdisciplinar, que agregue os conteúdos, ao invés de dividir o conhecimento em disciplinas.

O ousado exemplo mostra uma tendência adotada nas últimas décadas por todos países desenvolvidos: integrar o ensino das ciências humanas, exatas e da natureza. 

A integração das disciplinas tem levado séculos para ocorrer. O conhecimento tradicionalmente foi compartimentado e disciplinarizado em ramos da ciência; no interior de cada um deles, as disciplinas. Com isso, o saber sempre ficou fragmentado e isolado.

Entretanto, a partir do século XX, a divisão dos assuntos em disciplinas rígidas, levou a dificuldades para construir explicações da realidade, na qual as coisas estão conectadas, interdependentes e interligadas, a exigir soluções compartilhadas para lidar com as crescentes incertezas e complexidades. 

Diante dos problemas fundamentais do planeta, a união dos saberes passou a ser essencial. Décadas de pesquisas comprovaram que a integração entre as diferentes áreas de conhecimento é mais fecunda e produtiva socialmente do que a separação entre elas ou a exclusão de algumas delas.

Em qualquer nível de ensino, desde o básico até o superior, o caminho ideal do futuro será a inclusão e a integração das disciplinas, para construir solidamente o saber científico e gerar visões mais transdisciplinares.

No Brasil do atraso o caminho é inverso dos países evoluídos. Ao invés de integração e harmonização das ciências, fala-se em exclusão. O objetivo é dar menos prestígio, enfraquecer, ou mesmo excluir dos currículos as áreas de humanas, como filosofia, sociologia e ciência política.

Desde 1901 foram concedidos quase 600 Prêmios Nobel para dezenas de países. A Argentina tem 5 prêmios. Nós nunca ganhamos um e desse jeito nunca ganharemos.

O nosso subdesenvolvimento é o resultado dos grandes e incessantes investimentos em ignorância e precariedade, que sempre marcaram nossa história. A pergunta é sempre atual: que sociedade queremos ser?

O presidente e as suas polêmicas

Nos últimos anos trabalhei em São Paulo, capital, e morava em Taubaté. De vez em quando ficava hospedado em hotéis na capital. 

Havia uma época do ano em que eu ficava atento às reservas, pois elas eram escassas: era o período que antecedia e sucedia a “Parada Gay”. Os hotéis, desde os mais simples aos mais sofisticados, enchiam de turistas de vários lugares do mundo. 

Houve dias que cheguei a ficar sem hospedagem por conta das lotações e tive que voltar para o interior.

Curioso, à época procurei saber, e a Parada Gay era o segundo evento que mais movimentava a economia de São Paulo, depois da Fórmula 1. 

Durante estes eventos fiquei sabendo da importância do rentável, inofensivo e pacífico turismo gay; descobri que o Brasil é um dos países procurados pelos gays, pois sempre foi um ambiente agradável, aberto, respeitoso e receptivo ao público LGBT. 

Ao fazer uma breve pesquisa no Google vi que o turismo gay movimenta bilhões em todo o mundo, a ponto do Brasil e muitos outros países, como Israel, França, EUA, Canadá, Alemanha, sempre ter incentivado este tipo de turismo, como forma de aquecimento dos negócios.

Porém, diante das declarações do presidente, de que “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, (o Brasil) não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay”, vamos perder mais turistas e aumentar a nossa fama de país homofóbico. 

Enquanto o Brasil espera pelas reformas o presidente continua a se envolver em polêmicas e continuamos na contramão da história. 

Hemingway e Cuba

O escritor Hemingway é muito querido, quase um mito, em Cuba, onde morou entre 1939 até 1960, com idas e vindas aos EUA, seu país de origem.

Existem museus em sua homenagem; bares, como o La Florida, um dos mais famosos do mundo, habitualmente frequentado pelo escritor; restaurantes possuem fotos sobre ele; há drinks com o seu nome e consta que ele tomava alguns pileques com os “mojitos” do país. 

Hotel Ambos Mundos, onde viveu Hemingway

Cuba foi uma boa fonte de inspiração para o escritor, que estava na obscuridade desde a grande obra “Por quem os sinos dobram”, publicada em 1940. Na ilha ele escreveu o livro “O velho e o mar”, que o devolveu às glórias, com o prêmio Nobel de literatura, em 1954. Foi um livro que marcou a minha fase de leitor jovem/adulto.

Hemingway era uma pessoa muito dura e sensível ao mesmo tempo; era aventureiro, amava os amigos, os livros e o sexo oposto. Amava muito a ilha, que realmente tem uma indefinível beleza, e amava a população local. Dizia que “se você reparar, as pessoas boas sempre foram pessoas alegres”, referindo-se à alegria e bondade do povo cubano.

O escritor gostava de correr atrás dos sonhos, sempre cheio de recomeços. Infelizmente uma depressão o levou ao suicídio, em 1962, e consta que foi porque estava saudoso da ilha.

Nas minhas anotações da viagem percebi que ele foi uma pessoa fascinante, que amava a vida, o mundo, as flores, o céu e o mar. 

Em Trail Creek em Sun Valley, Idaho, EUA, há um memorial em homenagem a Hemingway onde estão insculpidas as palavras que ele escreveu para um amigo que havia morrido, mas que poderiam servir a ele próprio: 

“Amava as folhas amarelas dos álamos flutuando no canal dos rios. E o azul intenso de um céu sem vento acima das colinas. Agora ele é parte de tudo isso”.

Exemplo de arte para valorizar a cidade

Este belo mural transformou a fachada anônima deste prédio da Rua Mimosastraat, em Amsterdã, Holanda, numa surpreendente estante de livros. 

A obra foi construída pelo artista holandês Jan Is De Man, num trabalho conjunto com o especialista em grafite Deef Feed.

Amigos do artista Jan moravam no prédio e lhe solicitaram que fizesse uma obra de arte na fachada. Depois de estudar a forma do edifício, ele pensou numa estante. Pediu aos vizinhos que indicassem os seus livros favoritos e os pintou, construindo esta belíssima e inspiradora obra de arte!

O comunismo em Cuba

Fomos a Cuba com um saco na bagagem contendo sabonetes, cremes dentais, desodorantes e outros produtos, destinados a um jornalista cubano, namorado de uma amiga de Honduras.

Faltam em Cuba insumos comuns, como óleo de cozinha, ovos, frangos, carnes, produtos de higiene pessoal, entre tantos outros. 

Constatamos tais fatos conversando com as pessoas, vendo os pontos comerciais e as filas para comprar um ou outro produto, rigorosamente controlados pelo governo. 

A situação do país está bem difícil e isso é visível nas ruas, com uma Havana muito decadente e empobrecida. Claro que existem os boicotes econômicos e outras nuances, mas o fato é que a economia fechada, a centralização e o controle do Estado, restringem o número de transações comerciais, o livre-comércio e o empreendedorismo, gerando pouca produtividade e escassez de produtos.

O declínio do comunismo foi simbolizado pela queda do muro de Berlim, em 1989, quando as economias comunistas foram forçadas à abertura de mercado. 

O comunismo nasceu guiado pela utopia da liberdade com igualdade, mas tudo se revelou uma ilusão, como se percebe em Cuba. Claro que há algumas poucas virtudes do sistema cubano, como na educação, segurança, mas em termos econômicos o regime é praticamente um fantasma cujo corpo já desapareceu. 

O fato histórico é que o comunismo acabou. Hoje temos dois países verdadeiramente comunistas: Cuba e Coreia do Norte. No mais, o comunismo continua existindo na mente do guru anticomunista Olavo de Carvalaho e seus seguidores, que confundem, deliberadamente, esquerda e social-democracia com comunismo, e acreditam em pseudo-realidades.

Um pequeno gesto de ternura

Na despedida do hotel onde ficamos nos últimos dias da viagem a Cuba uma delicada surpresa: um bilhete e uma flor de hibisco, deixados pela simpática e sorridente camareira Diana.

Em época de mensagens eletrônicas, receber um singelo bilhete é uma verdadeira relíquia, ainda mais com mensagens como “lhes desejo uma feliz viagem de regresso a casa”, “foi um prazer trabalhar para vocês”, “regressem logo, sua Camareira”.

As pequenas manifestações afetivas no cotidiano tornam a vida melhor. O mundo pode ser duro, mas como diria o “comandante”, precisamos viver “… sem jamais perder a ternura”.

Dependentes digitais

Passamos a Semana Santa em Cuba, onde a internet é muito precária e de difícil acesso. Por isso passei uns dias quase que totalmente desconectado. 

Foi uma interessante experiência, numa época em que não largamos mais os nossos smartphones e computadores, e estamos acostumados com as multitarefas digitais.

Nesta semana, horrorizado, fiquei sabendo da Catedral de Notre Dame e do atentado terrorista no Sri Lanka. Nada mais. Na escassez de conectividade, o essencial se distancia do supérfluo e somos obrigados a olhar apenas as principais notícias do mundo.

O lado bom é que foi uma semana mais contemplativa que me permitiu observar mais as pessoas e ter mais convívio off-line.

Os dias ficaram incrivelmente grandes, com tempo para apreciar a cultura de Cuba, ouvir os seus ritmos e curtir mais a sua beleza. Também houve tempo para ler e reler muita coisa boa, vantagem dos livros digitais, que nos acompanham por todos os lados.

Foi bom, mas confesso que dá uma sensação estranha ficar desconectado! Estou acostumado a ver os meus sites preferidos, entre eles os de notícias e fotografias, sem contar a conexão com todos, nas redes sociais. Não sei, mas parece que hoje somos verdadeiros dependentes digitais.

Novo amanhecer, novas esperanças

A madrugada silenciosa foi quebrada aos poucos com os sons dos sabiás, que de repente surgiram aos milhares por aqui, em pleno verão.

Cada fase do dia é um momento único e traz em si mesma o seu modo de ser e existir, mas o amanhecer é sempre especial, com o surgimento de uma nova claridade no horizonte, com diferentes luzes e inspirações para outro dia. 

Cada amanhecer é um presente da vida, com a possibilidade de se fazer algo de novo, de sair da rotina e de ter esperanças de que tudo começará diferente.

O novo Ministro da Educação e os moinhos de vento

O lendário Dom Quixote de La Mancha leu muitas histórias de cavalarias, perdeu o juízo e passou a viver grandes aventuras como cavaleiro andante, na busca de corrigir malfeitos. 

A todo momento ele lutava contra inimigos inexistentes, guerreiros imaginários, e na sua imaginação até os moinhos de vento eram seres vivos; vivia num mundo tão irreal que começou a ver fantasias e obsessões. Ao final, Dom Quixote voltou à razão.

Desde o início, Bolsonaro e sua ala ideológica, estimulados pelo guru Olavo de Carvalho, combatem moinhos de vento e enxergam inimigos que existem apenas em suas imaginações. Lutam contra os fantasmas comunistas, a ideologia de gênero nas escolas, o marxismo cultural, a doutrinação ideológica, o globalismo, entre outras bobagens; ignoram a história universal e a realidade do país. 

Neste contexto, se por um lado foi boa a demissão de Velez do Ministério da Educação, por outro é preocupante a nomeação de Weintraub para substitui-lo, pois ele também é olavista e tem como pauta “combater a ideologia marxista”. 

O ministro nomeado não tem histórico de formulação de políticas públicas para a educação básica e vê comunistas por todos os lados. Disse que  “os comunistas são o topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras; eles são os donos dos jornais; eles são os donos das grandes empresas; eles são os donos dos monopólios…”. Afirmou que foram os comunistas que trouxeram o “crack” para o Brasil. É inacreditável!

Ao invés de ouvir os militares, os gestores, os economistas, Bolsonaro continua acreditando no guru da Virgínia e os seus seguidores radicais. 

Reclamaram da ideologia dos outros e instalaram a mesma obsessão em combater ideologias velhas e inexistentes.

Torço para estar enganado, mas enquanto o governo insistir em combater moinhos de vento através da ideologia, a crise continuará no Ministério da Educação, área essencial para o desenvolvimento do país. Combater inimigos irreais ou insignificantes sempre traz problemas reais. 

Vamos torcer para que o novo ministro governe com perfil técnico. Se continuar a fazer a cruzada cultural vamos retroceder décadas, em grave prejuízo da nossa sociedade.