Celebração do Golpe de 1963

Ao decidir celebrar o golpe de 64, Bolsonaro prestou um bom serviço à nação brasileira.

Há tempos não se via tantas reflexões, depoimentos, análises e protestos sobre a instalação da ditadura no Brasil.

A data sempre foi desprezada, mas agora ela se tornou importante para mostrar melhor esse período negro da nossa história, que interrompeu brutalmente a democracia e instalou um regime que matou, censurou, perseguiu e torturou opositores.

Há tempos não se via tanta gente horrorizada e o fato mostrou que as pessoas não caem mais no conto dos falsificadores da história, aqueles que querem distorcê-la, insultando a memória de todas as vítimas de um período arbitrário, ilegal e criminoso.

As intensas repercussões estão mostrando que o Brasil não é feito de imbecis. Graças ao sangue e ao sofrimento de muitos, hoje temos uma imprensa livre, instituições fortes e um povo mais consciente e comprometido com a democracia. A data agora é de luto e protestos.

Manga com pimenta

Na América Central a pimenta faz parte da vida das pessoas. Muitos dizem que a vida fica mais picante e temperada, pois a pimenta estimula os sentidos e traz na boca o sabor da alegria.

O hábito vem dos povos maias, que habitaram parte do território de Honduras e de outras regiões da América Central.

Tem pimenta até nos cafés das manhãs e em todas as demais refeições. Sempre que você for pedir um prato num restaurante é necessário perguntar antes se é ou não picante; às vezes há pimenta até nas massas italianas.

O mesmo vale para comprar alguns produtos no supermercado: é preciso averiguar se são ou não picantes. Acreditem, mas tem até pó de café com pimenta.

O que eu nunca imaginei é que ia comer manga com pimenta. Hoje recebemos no lanche da manhã uma manga picada com um pouco da casca, uma pimenta especial (tipo do reino) e sal. Este é um dos sabores preferidos de toda a população hondurenha.

E não é que ficou bom? Dizem que o sabor da comida e da vida depende de quem as tempera. Estão servidos?

Desacelerar um pouco

Quando estamos em outro país, tudo o que queremos saber é de notícias do nosso país. Mas confesso que as notícias têm sido desanimadoras. 

Estamos mergulhados numa loucura coletiva de discursos ideológicos e falta de diálogo que às vezes parece que não estamos na realidade da vida, mas num grande filme de ficção. 

A cada momento indagamos: o que será que vem por aí?

Por conta dessa maluquice e em razão do excesso de informações, entrei no “modo sobrevivência”. Resolvi ficar menos tempo ligado ao bombardeio de notícias. A meta é ficar apenas no essencial e chegar a um equilíbrio.

São muitas informações a todo momento, e isto gera falta de foco, angústias e ansiedades. Os dias e as horas nem terminam e lá estão as notícias e as pendências digitais. 

Como diz o verso da música Alegria Alegria, “o sol nas bancas de revista/Me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia?”. 

É necessário fugir do labirinto de informações que nos assola de todos os lados; fugir da alienação e viver com mais qualidade e sabedoria.

Em tempos de excessos de dados e de crises o jeito é concentrarmos naquilo que mais gostamos. No meu caso estou mais refugiado no melhor remédio para os males da alma: a literatura. Como dizia Pessoa, a literatura “é uma confissão de que a vida não basta”. 

Diminuir um pouco a conexão significa alguns minutos ou horas a mais por dia para uma boa leitura; ou seja, vários livros a mais por ano. Em alguns anos isso fará uma grande diferença.

A vida passa rápido e o tempo flui ligeiro. Desacelerar um pouco é preciso!

A forma justa

Esta semana foi o centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen, a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, em 1998. Aproveito para deixar aqui um dos seus mais belos poemas “A forma justa”.,

O poema nos convida a nos readaptarmos e nos reinventarmos para os desafios que a vida sempre nos impõe, na crença de um mundo mais justo. É preciso recomeçar sem cessar. 

“Sei que seria possível construir o mundo justo 
As cidades poderiam ser claras e lavadas 
Pelo canto dos espaços e das fontes 
O céu o mar e a terra estão prontos 
A saciar a nossa fome do terrestre 
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia 
Cada dia a cada um a liberdade e o reino 
— Na concha na flor no homem e no fruto 
Se nada adoecer a própria forma é justa 
E no todo se integra como palavra em verso 
Sei que seria possível construir a forma justa 
De uma cidade humana que fosse 
Fiel à perfeição do universo 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco 
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo.” 

Sophia de Mello Breyner Andresen, “A forma justa”, in “O Nome das Coisas”

Manter a serenidade, sempre

“É preciso manter a serenidade, sempre”. Essas sábias palavras me foram ditas por Javier, um simpático e sorridente senhor de 81 anos, que casualmente conheci por esses dias. Moreno, forte e bem conservado, ele tem a aparência de alguém com pouco mais de 60 anos. 

Perguntei-lhe qual era o segredo para ter uma aparência bem mais jovem, e ele me respondeu rapidamente, e com sabedoria: “É preciso manter a serenidade, sempre”.

Gostei da observação e continuamos a conversa. Ele me disse que a sua vida sempre foi atribulada e cheia de problemas. Por conta disso, há anos pratica artes marciais e isso o ajudou a manter a serenidade, a autoconsciência e o autocontrole, até nas mais difíceis situações. 

Disse que nos momentos difíceis a vida exige de nós mais discernimento e serenidade. Talvez por esse motivo seja tão conservado, pois aprendeu a enfrentar as tempestades, as crises e as incertezas, sem perder a capacidade de reafirmar valores e de resistir. 

Depois concluiu com um largo sorriso: “Sabe, depois de um tempo a vida passa mais rapidamente. Por isso não podemos perder o equilíbrio e ficar muito irritados e tristes; ficar irritado é perder tempo, e depois de uma idade, o tempo é muito valioso”.

Em tempos difíceis e perturbadores foi bom ouvir a lúcida observação do Sr. Javier: “É preciso manter a serenidade!”

A beleza e o milagre da vida

Ao ver a lindeza desta foto publicada pela Reuters, de uma borboleta monarca e uma abelha, fiquei pensando o quanto é importante, principalmente em tempos difíceis, apreciarmos a beleza da vida e ensinarmos a estética para as nossas crianças. 

No início dos tempos a educação estava ligada à estética, cuja palavra vem do grego “aisthètikos”, que significa “sentir”. 

O homem é estético, pois é o único animal que sente a beleza da vida através da arte, da musica, da literatura e das coisas simples como apreciar as cores de uma borboleta. 

A estética nos ajuda a ser mais relaxados, imaginários, poéticos e equilibrados. Ela nos traz emoções e leva à contemplação; transfigura o sofrimento e o mal; ela nos torna seres humanos melhores, mais sensíveis com a vida e com o mundo.

O milagre e o mistério da vida estão por todos os lados. É só abrirmos os olhos e o coração para senti-los. E também para ver melhor as cores do caleidoscópio do mundo.

Photograph: Mike Blake/Reuters

Tiros em Columbine

20 de abril de 1999, Colorado, EUA. Na ocasião dois adolescentes que eram vítimas de bullying, portando armamento pesado, entraram na escola Columbine onde estudavam e deram início a um massacre que entrou para a história do país. A dupla feriu gravemente 23 pessoas e matou outras 13. Logo após, ambos cometeram suicídio.

Depois do massacre seguiram-se protestos sobre a necessidade do respeito à vida, que segundo os pais das vítimas deveria estar no próprio fundamento da nossa cultura. 

O caso chocou tanto a sociedade americana que em 2002 Michael Moore fez o filme “Tiros em Columbine”, no qual investiga a fascinação dos americanos pelas armas de fogo; o filme questiona esta cultura bélica e busca respostas. 

O filme ganhou o Oscar de melhor documentário e faz uma crítica à indústria armamentista. Tornou-se uma referência na luta pela paz mundial e deve ser visto por todos os que têm interesse em refletir com mais profundidade sobre o tema. 

Todos esses massacres nos ensinam que não precisamos de mais armas; muito menos nas escolas, locais de paz por excelência. O caminho é exatamente o oposto. Mais armas, mais violência.

Como disse o poeta americano Archibald McLeish, cuja citação se encontra no Preâmbulo do Tratado Constitutivo da Unesco (16-11-1945): “Nascendo as guerras no espírito dos homens, é no espírito dos homens que devem ser construídas as defesas da paz!”.

A cultura do ódio e a barbárie

Logo de manhã fomos surpreendidos pela estarrecedora notícia de 10 mortos numa escola em Suzano, SP, vítimas de tiros disparados por duas pessoas, que se mataram em seguida.

A violência com armas de fogo no Brasil já tem índices alarmantes e vai aumentar com a cultura do armamentismo que se instala a cada dia que passa. 

O discurso de armas para todos tem sido divulgado desde a campanha eleitoral, com as infames “poses de arminhas”. O discurso de violência para enfrentar a violência já tem sintomas visíveis nas ruas, com notícias de abusos de policiais, de guardas nos comércios e nos ódios das redes sociais. 

A impressão é que estamos numa guerra interna e os novos governantes, ao invés de investirem esforços para pacificar e unir o país, retroalimentam a divisão através das redes sociais. Falta diálogo e sobram mentiras, trocas de insultos, discursos armamentistas, violência e demagogia. 

Essa cultura de ódio atinge a sociabilidade nas relações comunitárias, escolares, entre amigos e familiares. Ela estraga as relações humanas, abole o conceito de verdade e espalha inimizade entre as pessoas. 

É claro que o caso é um fato isolado, mas com ódio e armamentismo surgirão muitos outros desequilibrados e malucos armados. 

Enquanto sobra estupidez, temos falta de empatia, inteligência, educação e humanidade.

Uma história de amor

Quase sempre chegamos juntos na hora em que a Academia se abre, bem cedo. Entre outros, eu e um casal muito simpático, sempre de mãos dadas. Ele deve ter uns 80 anos; ela é mais nova e tem por volta de 70, talvez um pouco mais. 

Depois que entram eles se separam: ele vai ao setor de ginástica e ela à piscina, para onde também vou. 

Após mais ou menos uns 50 minutos, sempre calçando um par de tênis branco, com as meias compridas bem puxadas, uma sacola na mão e andando devagar, ele chega na área da piscina e se senta para esperá-la. Com um olhar distante, mas sereno, ele tem o hábito de observar a sua esposa nadando e se exercitando. Talvez pense nos longos anos em que viveram juntos, nas águas que rolaram, nos sonhos, frustrações e amores…

Dali a pouco ela sai. Eu continuo nadando mais um tempo; às vezes diminuo o ritmo para observá-los discretamente.

Quando ela sai da piscina, ele se levanta com a toalha aberta nas pontas dos dedos e a envolve por trás, cobrindo-a com delicadeza. Até parece um ritual de afetividade. Ela agradece com um sorriso e vai tomar uma ducha. 

Depois que ela volta da ducha, já trocada e bonita, eles saem vagarosamente de mãos dadas e vão-se embora. Ela sempre esfuziante; ele um pouco mais sério. Talvez passem o resto do dia falando dos problemas e desafios da vida; talvez falem de amores e de sonhos. 

É sempre uma cena muito linda. Dizem que o amor, se bem abastecido na sua fonte, não se acaba. Este caso parece uma prova de que o amor pode resistir ao tempo vivido; talvez um lindo caso de amor por toda a vida, um caso de amor eterno.

Marielle presente

A Mangueira homenageou os heróis populares e foi campeã. Entre as homenageadas está Marielle, cuja morte está prestes a completar um ano e continua sem esclarecimento das respectivas autorias. 

Além da falta de elucidação dos fatos, nos últimos tempos tem ocorrido afrontas à sua memória, como os atos que envolveram a placa de rua em sua homenagem. 

Segundo noticiou “O Globo” (14/02/2019), o deputado que quebrou a placa emoldurou um pedaço dela e o colocou na parede do seu gabinete. 

Essa e outras histórias envolvendo Marielle são carregadas de violência simbólica que afetam a nossa imagem em todo o mundo. Quanto mais profanação à imagem de Marielle, mais ela será reconhecida no exterior. Ainda vamos ter muita vergonha de tudo isso que está ocorrendo.

Contudo, a figura de Marielle não desperta somente infâmia e ataques a sua pessoa. A sua imagem transcende as questões político-partidárias e os seus exemplos de vida e de garra são fontes de inspiração para todos aqueles que lutam por um mundo mais justo e inclusivo para os negros, minorias, crianças e jovens sem escola, e demais pessoas excluídas dos seus direitos básicos.

Marielle continuará presente entre nós e a Mangueira provou isto.

Foto: G1.