Discriminação oficial?

A Folha de S. Paulo noticiou no dia 20/01/2019 que há 4 anos o Senado brasileiro suprimiu o gabinete número 24. O motivo ninguém quis dizer, nem o responsável foi encontrado; mas é evidente, como concluiu a matéria, que foi uma implícita manifestação de preconceito contra homossexuais.

No jogo do bicho o número 24 é associado ao veado, e por isso mesmo é utilizado para manifestações discriminatórias contra homossexuais.

A numeração dos gabinetes dos parlamentares vai do 1 ao 23, e depois pula para o 25. 

O assunto parece pequeno, mas é simbólico, no país que mais assassina homossexuais no mundo. 

Somos prisioneiros das nossas culturas e sempre é preciso tomar cuidado com os retrocessos discriminatórios que insistem em nos puxar para trás.

O filósofo Kant já dizia, num texto chamado “esclarecimento”, que precisamos de Iluminismo, para sairmos da nossa menoridade intelectual, enfrentarmos as nossas convicções equivocadas e superarmos a nossa incapacidade de pensar. 

O Senado, como nobre instituição, não pode de forma institucionalizada dar apoio a este tipo de discriminação; ao contrário, deve dar bons exemplos de enfrentamento ao preconceito e de respeito aos direitos de todos!

Foto: Folhapress

A suspensão do “Caso Queiroz” pelo ministro Fux

O ministro Fux suspendeu as investigações do “Caso Queiroz” com base no foro privilegiado de Flávio Bolsonaro, mesmo antes dele assumir o cargo de Senador. 

Com a decisão o ministro do STF criou “o foro privilegiado preventivo”, como muitos comentaram. Vale lembrar que em maio do ano passado, quando o STF reduziu o alcance do foro por prerrogativa de função, o próprio Fux decidira: “que o Supremo seja reservado somente para os ilícitos praticados no cargo [de deputado federal e senador] e em razão dele”.

A decisão pegou mal até entre os partidários do novo governo. Pegou mal porque o principal pilar da campanha eleitoral no ano passado foi a moralidade administrativa e a honestidade absoluta, inclusive com a pregação do fim do foro privilegiado.

Por todas as juras de comportamento ético durante a campanha, a suspensão da investigação fez aumentar as suspeitas de irregularidades no referido caso.

Desse jeito o governo corre o risco de perder rapidamente o apoio popular obtido durante as eleições. Afinal, como sabemos, para quem prega a honestidade como bandeira é preciso comportar-se como a mulher de César, “não basta ser honesta, tem que parecer honesta”.

Vida longa para o grande mestre

Há algum tempo Edgar Morin confessou numa entrevista publicada no periódico La Repubblica: “sou um velho filósofo, mas adoro o Twitter”. 

O filósofo de 97 anos é um pensador da maior importância no âmbito mundial e dispensa maiores apresentações. Sou seu fã e a sua obra tem sido fundamental para mim nos últimos anos, sobretudo nos meus estudos e reflexões sobre Educação, Sociedade, Filosofia e Complexidade. 

Atualmente ele está escrevendo um livro de memórias. Não fica parado e sempre participa das questões filosóficas da atualidade.

Morin tem influenciado e inspirado gerações de estudantes, intelectuais e educadores mundo afora. Para ele, “se não podemos chegar ao melhor dos mundos, podemos trabalhar por um mundo melhor”. 

É animador que ele tenha guardado um pouco de juventude para a velhice. Um dos seus mandamentos é “renascer e renascer até a morte”, que é uma fonte de inspiração para todos nós. 

Edgar Morin é um multiplicador de esperanças neste mundo estranho, intolerante e cheio de incertezas. E também um farol a iluminar a humanidade, diante do ressurgimento de teorias ultrapassadas como globalismo, terraplanismo e outras bobagens.

Vida longa para o grande mestre!

Mais posses de armas, mais crimes.

Se me perguntarem se gostei do decreto que regulamenta a posse de arma é claro que vou dizer que não. 

Com 30 anos de vida forense, dos quais quase 25 como promotor, a minha experiência me diz que mais armas mais problemas e cito três exemplos neste sentido: 1) mais armas significa mais danos acidentais causados por armas de fogo; 2) implica em mais ocorrências de crimes em momentos de ímpeto, causados no calor de conflitos; 3) significa mais letalidade nas reações armadas a assaltos, em regra com vantagem para o assaltante, pois como sabemos, não devemos reagir a assaltos.

Contudo, estes seriam argumentos até menores se fosse verdade que com “mais armas” teríamos “menos crimes”, o que não é comprovado por nenhum estudo nacional ou internacional; ao contrário, nos países democráticos (com exceção dos EUA) há proibições de armas para o cidadão e/ou sérias restrições para a posse.

Também não há nenhuma comprovação de que as armas de fogo tenham efeitos dissuasivos e inibitórios sobre os assaltantes. 

O fato é que o nosso grande e histórico problema está nas armas ilegais, que chegam aos montes e por todos os lados, cujo combate é extremamente complexo. Ou seja, os bandidos continuarão bem armados.

Mais armas legais apenas representará mais armamentismo no país, o que não significa diminuição da violência, cujo enfrentamento exige uma série de outras políticas públicas, muito mais amplas e complexas. Ao contrário, mais armas implicará em mais homicídios, violências letais e mais crimes em geral. 

O que o governo fez foi cumprir a sua promessa de campanha. Ao regulamentar a posse de armas apenas gerou a falsa ilusão de que diminuirá o problema da violência. Mas as evidências provam o contrário. Quem viver verá.

Um cruzeiro para conferir a teoria terraplanista

Muito curiosa essa discussão sobre se a Terra é plana ou não. Até um cruzeiro está sendo organizado para conferir a “beirada” da Terra. 

Tem gente por aí que acredita – ou passou a acreditar – que a Terra é realmente plana; em outras palavras isto significaria que não estamos num globo. 

A teoria, reinventada por alguns, é curiosa porque nem na Idade Média foi levada a sério. 

É difícil crer que, mesmo com a moderna ciência, alguns setores conservadores queiram ressuscitar teorias ultrapassadas como a hipótese de que o homem não contribui para o aquecimento global; a recriação do modelo geocêntrico, no qual a Terra é o centro do Universo; o criacionismo, entre tantas outras invencionices. 

Pode ser para simplesmente duvidar da ciência, para impor alguma religião ou crença, para confundir ou simplesmente por ignorância. Todas elas significam voltar ao passado do atraso, algo que deveria ficar para trás. 

Com tanta maluquice, às vezes também dá para acreditar que Freud estava certo ao dizer que “a prova mais clara de que a vida inteligente existe em outros planetas é que eles ainda não vieram nos visitar”.

Simplicidade e felicidade

Hoje fomos ao mercado em Tegucigalpa e foi uma alegria ver campesinos que vêm até a cidade para trazer frutas e verduras para vender. São pessoas simples, muito simples, que nos fins de semana vêm de longe para ganhar o pão de cada dia. 

É bom conversar com pessoas simples e ver que muitos precisam de pouco para a felicidade. São pessoas leves e as suas almas são suaves; são bondosas, sorridentes, satisfeitas e tranquilas nas suas vidas. 

Ao ver aquelas pessoas com jeito simples e rostos mansos, pensei na simplicidade. Epicuro foi um filósofo que se preocupou com a felicidade e dizia que “a pobreza se contenta com pouco” e “se alguém se contenta com pouco é porque tem muito.” 

Não há coisa mais simples que a simplicidade. E o que é viver na simplicidade? É viver aquilo que é essencial, o que significa fugir das coisas que tragam angústia, desassossego e, conforme dizia Epicuro, os “desejos insatisfeitos”. 

Ainda não posso, mas o essencial para mim ocorrerá no dia que eu tiver uma vida totalmente tranquila, apenas com bons livros para ler e boas músicas para ouvir. 

A partir daí vou balançar mais numa rede, sentir melhor o frescor da brisa, ouvir o canto dos pássaros, ter boas lembranças e viver intensamente cada momento que me restar de “la dolce vita”. Nada mais!

Claro que junto com amigos e familiares, assim como no jardim de Epicuro.

E para você, o que é o essencial?

O Estranho Caso de Benjamim Button

Por esses dias li o conto “O Estranho Caso de Benjamim Button” escrito por F. Scott Fitzgerald. Trata-se da história de Benjamin Button, um homem que nasce com a idade cronológica de 80 anos e com a passagem do tempo, ao invés de ficar mais idoso, ele rejuvenesce até terminar a sua vida na forma de uma criança. 

Ao relatar de modo inverso a vida de Benjamin, o escritor produziu um texto irônico e instigante, que nos impulsiona a pensar e a refletir sobre a melhor maneira de encarar a nossa vida e dar mais valor às passagens da nossa existência. 

Ler e pensar sobre o tempo e a nossa existência nos leva a muitos insights, entre outros: podemos (ou devemos) mudar sempre os planos e refazer as ações das nossas vidas? Ainda podemos ser aquilo que sempre quisemos? O futuro está garantido? Devemos recomeçar sempre? Como viver uma vida plena? 

São questões muito complexas, mas parece que o mais importante é chegar lá na frente (também não sabemos onde e quando), e no momento que a vida quiser nos abandonar, possamos olhar para trás, e para o nosso interior, e ter orgulho de nós mesmos, com a certeza de que tudo valeu a pena. Parece que é isso!

Um jeito estranho de aliviar o estresse

Estava na fila do supermercado e um rapaz bom de prosa na minha frente me disse que o mundo está muito estressante e que a sua receita para cuidar do estresse é fazer caminhadas e observar a natureza enquanto caminha.

Até aí tudo bem… O problema é que ele acrescentou outra coisa curiosa nas suas caminhadas: de vez em quando ele fala sozinho e canta sozinho. Até aí tudo ok, mas logo em seguida ele disse que também grita sozinho, mesmo se está próximo de outras pessoas e, principalmente, quando está incomodado por algum problema insolúvel.

Comentei com ele que às vezes eu também falo sozinho, ainda que mentalmente, e também canto sozinho, mas não tenho o hábito de gritar sozinho.

Foi então que ele observou:

“É uma delícia! Pode parecer uma loucura, e às vezes é mesmo. Mas alivia muito e é melhor parecer que estamos doidos para os outros do que ficarmos loucos de verdade.”

Achei aquilo um pouco estranho, mas como diz a minha amiga e filósofa Catarina “cada um com o seu cada um!”

Reinventar recomeços, com novos sonhos

Os ponteiros se juntaram no número 12 e aí o ano terminou. 

Houve grandes alegrias e todos sentimos a ilusão do minuto que separou um ano do outro. 

Todos brindaram, as pessoas se abraçaram e os lábios amantes se beijaram. 

Os pedidos e os planos foram feitos: vida nova e mais saudável, perder uns quilinhos e realizar novos projetos. 

Logo depois vem a consciência de que a vida segue igual, o mundo continuará a ser o mesmo e nós também pouco mudaremos, com todas as qualidades e defeitos que nos caracterizam como seres humanos.

A verdadeira transformação precisa começar por nós mesmos. 

De qualquer forma, é sempre bom reinventar recomeços, com novos sonhos.