Pequenos e grandes espetáculos da vida

Estava alongado no sofá, lendo e ouvindo Tom Jobim, e de repente escutei o barulho de um pássaro em apuros. Era um filhote de curruira que havia entrado em casa e não conseguia sair. 

Por várias vezes me abaixei para pegá-lo, mas ele sempre escapava com um pulinho ligeiro; já não era um filhote tão bebê. Fiz “fiu-fiu” e nada dele me obedecer para tomar o rumo certo da saída. 

No começo ele estava assustado, mas depois viu que eu não era tão perigoso e ficou com uma calma de bichinho manso. Mas mesmo assim, quando eu chegava perto, ele saia pulando. Vi que poderia fazer “fiu-fiu” a tarde inteira e não ia adiantar; ele não ia sair da casa e nem me deixar pegá-lo. Rastejei, estalei os dedos, assobiei, andei de quatro e nada de pegar o filhotinho esperto.

Parei um pouco para refletir sobre o que fazer. Foi então que nesse momento a mamãe curruira, ao ouvir os pios do filhote que estava em apuros, apareceu no muro. As mamães sempre sabem onde os filhos estão. 

Aí ele se orientou, tomou coragem e voou para a janela; em seguida olhou desconfiado para mim e se foi para a liberdade. 

É incrível como o mundo nos proporciona grandes e pequenos espetáculos! A natureza sabe das coisas e a vida produz milagres e encantos em todos os momentos.

Aliviado, voltei para a minha leitura, agradeci a suave brisa no rosto, o som dos pássaros e o poderoso dom da vida.

Quebrantos e mau-olhados

Conversei com um amigo da roça que está passando por dificuldades pessoais. Ele me contou um pouco das suas agruras e garantiu de pés juntos que está também com mau-olhado ou quebranto. 

Fiquei preocupado com ele, mas como sou cético em relação a essas crenças, disse-lhe que era para se esquecer dessas coisas, erguer a cabeça e seguir adiante. 

Então ele falou que não dá para esquecer, pois muitos de nós somos vítimas do mau-olhado e nesses casos é preciso enfrentá-lo. Segundo ele, há pessoas que invejam as nossas realizações e conquistas, e esse era o problema dele.

Eu observei que não acredito nessas coisas, mas diante da seriedade do rapaz, disse a ele para se cuidar e se benzer em algum lugar. 

Foi então que me mostrou uma pequena figa. Disse-me que estava andando com ela, pois afasta o invejoso, afugenta o quebranto e as doenças. Além disso espalhou sal grosso nos cantos da casa. 

Ainda incrédulo eu disse a ele: “se é assim, está bem…”. Depois pensei comigo mesmo: “se não dá para acreditar, também não precisamos desacreditar, não é? Vai saber…”

O político e o estadista

Conversava com um amigo e ele me chamou a atenção que o Brasil nunca teve um presidente estadista.

“Quem poderia ter sido estadista não foi. Os nossos presidentes são motivos de piada; e olha que estamos piorando!” concluiu ele. 

Em seguida comentamos sobre a falta de grandes nomes na política brasileira. A mediocridade de muitos dos nossos políticos e do sistema de presidencialismo de coalisão refletem a velha e carcomida política de sempre. 

Depois eu fiz a ele um comentário de Churchill, este sim um grande estadista, e que li há alguns dias. Em poucas palavras ele diferenciou o político do estadista:

“Enquanto o estadista se preocupa com a novas gerações, o político se interessa pelas novas eleições”.

As crianças e as tecnologias digitais

Recente matéria do New York Times, replicada na Folha de S. Paulo no último dia 25/12, mostrou que os grandes experts da tecnologia afastam seus filhos de tablets e telefones celulares.

O motivo eles sabem bem. Apesar dos benefícios das telinhas, os riscos de atrasos no desenvolvimento são também elevados, com interferências no sono, no déficit cognitivo e motor, além de obesidade, depressão e ansiedade. 

Exageros ou não, Chris Anderson, CEO de uma empresa de robótica e drones, disse que numa escala entre doces e crack, o vício em tecnologia está mais perto do crack. A agravante é que ninguém sabe o efeito desta dependência no cérebro de uma pequena criança.

O artigo lembra que o CEO da Apple, Tim Cook, disse neste ano que não deixaria seu sobrinho entrar nas redes sociais e Steve Jobs não deixava seus filhos pequenos chegarem perto de iPads.

Bill Gates proibiu os celulares até que seus filhos chegassem à adolescência e Melinda Gates escreveu que gostaria de ter esperado mais.

O fato é que, se os próprios experts da tecnologia condenam o uso, há que se olhar o problema com muito cuidado, buscando o equilíbrio no uso dessas tecnologias com as crianças. Ponderação e bom senso!

Como as crianças também precisam brincar e ler, concluo o post com uma frase do próprio Bill Gates: “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria história”.

Foto e fonte: Folha de S. Paulo.

São Luiz do Paraitinga


Não há maior prazer do que caminhar pelas ruas de São Luiz do Paraitinga. Elas são belas, harmoniosas e brilham quando inundadas pela luz do sol. 

São ruas que nos ensinam como é bom fazer coisas simples, como caminhar, ver os jardins floridos, contemplar o rio e as montanhas, conversar com as pessoas e observar a vida. 

Às vezes penso que as ruas têm almas e cada uma delas têm os seus segredos. As centenárias ruas de São Luiz também possuem encantadoras histórias da história do Brasil. 

Nos seus becos, travessas e vielas é possível fazer grandes viagens ao passado e perceber de perto a passagem do tempo. 

Por aqui é possível comprovar a importância da simplicidade das coisas, como caminhar numa rua acolhedora e sentir o prazer da vida!

Foto: A.O.

Os sonhos não são bobagens

Eu tinha 7 anos e até então nunca ouvira falar em Papai Noel. Morávamos na roça, não tínhamos televisão e nem brinquedos; nós os fazíamos com mamão, chuchu, pedaços de pau e toda a criatividade do mundo. 

Lembro-me do dia que os meus pais chegaram para mim e minha irmã e nos apresentaram ao Papai Noel. Disseram que poderíamos encomendar presentes, pois o bom velhinho os traria de longe.

Pedi um caminhão basculante e a minha irmã uma boneca. Na manhã de 25 de dezembro de 1970 lá estavam duas caixas imensas, lacradas com fita adesiva, na pequena varanda da casa do sítio. 

Encantando e ávido por verificar o que estava dentro da minha caixa, fui direto ao presente, embrulhado de vermelho. Rasguei o embrulho com a excitação de uma criança que antevê o brinquedo e recebe uma bela surpresa da vida. 

Saí de lá dando pulos e me lembro dos dias seguintes com o brinquedo: fazendo pontes, construindo estradas e expandindo a imaginação. 

Este foi o único Natal em que ganhamos presentes de Papai Noel. Ele não voltou mais; talvez porque algum engraçadinho tenha nos contado que ele não existia. 

Mas o encantamento e a imaginação do Papel Noel ficaram para sempre. Nunca mais me esqueci daquela caixa cheia de emoções e sentimentos, que fizeram brilhar a minha vida. 

Por conta desta forte experiência pessoal eu sempre achei importante que o mundo das crianças seja repleto de fantasias, sonhos e ilusões. A verdade às vezes se esquece de acontecer. 

O mundo real ficará melhor para aqueles que vivenciaram, e ainda vivenciam depois de adultos, mundos de fantasias. Como dizia Shakespeare “os sonhos não são bobagens”.

Uma boa história

Sempre é bom ler uma história interessante, como esta que li na BBC e reconto aqui, aproveitando o espírito natalino:

“Querido Timothy, quero ser seu novo amigo”, escreveu de forma anônima o interlocutor. Em seguida continuou: “Sou um homem velho, de 77 anos de idade, mas eu amo crianças; e, embora não tenhamos nos conhecido, eu já te amo”. Depois concluiu: “Moro no Texas. Vou te escrever de tempos em tempos. Boa sorte”.

O autor da carta foi um dos homens mais poderosos do mundo e durante muitos anos ajudou com com educação e alimentação, Timothy, um pobre menino filipino.

A ajuda era feita através da Compassion International, uma instituição humanitária que auxilia crianças pobres em vários países. Além de ajudar, o homem poderoso se correspondia secretamente com a criança e se identificava como “George Walker”.

Numa das últimas correspondências o menino, sem saber quem era o poderoso patrocinador, agradeceu: “Obrigado por não me esquecer. Você é tão legal e bom”, disse Timothy.

No último mês, com a morte, aos 91 anos, do patrocinador George Walker, descobriu-se a história e as correspondências. 

George Walker era na verdade George H. W. Bush, 41º presidente dos Estados Unidos. De forma anônima e secreta ele ajudou e se correspondeu com o menino Timothy, hoje um jovem de 17 anos. 

Agora as correspondências foram reveladas ao mundo.

A tradição multilateral da nossa diplomacia

Rui Barbosa foi uma figura nacional por excelência e foi chamado de “Águia de Haia” por ter ajudado a tornar o Brasil um país multilateral, na Segunda Conferência de Haia, em 1907, quando defendeu o princípio da igualdade legal das nações.

As bases e os princípios defendidos por Rui Barbosa, entre outros, foram consolidados anos depois, já no final da Segunda Guerra Mundial, com a formação da ONU.

Pois bem. Muitas têm sido as declarações do governo eleito que colocam em risco a tradição multilateral da diplomacia brasileira. 

A mais recente foi o “desconvite” aos governos da Venezuela e de Cuba para a posse de Bolsonaro. Tudo bem, p. ex., que Maduro não merece consideração, mas o amadorismo na situação é se esquecer que em política externa esses convites são protocolares e não são destinados às pessoas, mas aos representantes dos governos. 

Se fosse somente pelo cunho ideológico, o Brasil teria que “desconvidar” muitos outros, como a China, Vietnã, Filipinas, Turquia, Russia, Polônia, Hungria, Nicarágua, quase todos os países árabes, além de vários países africanos. 

Diplomatas e ex-ministros dizem que este tipo de conduta gera antipatia, cria problemas desnecessários na diplomacia e nas relações internacionais. 

O Brasil precisa é atrair simpatias, abrir horizontes, fortalecer a cooperação internacional e facilitar negócios nas relações comerciais. Não somos fortes, como são os EUA, para nos isolarmos apenas com alguns países. 

O experiente jornalista Clovis Rossi observou que “a ignorância de Bolsonaro em política externa é constrangedora”… 

Parece que os ensinamentos de Rui Barbosa, Barão do Rio Branco, Joaquim Nabuco, Oswaldo Aranha e tantos outros pioneiros em política externa vão fazer muita falta.

Uns dias de folga

Apesar dos desafios da missão OEA/MACCIH, em Honduras, tudo faz a diferença quando contamos com pessoas especiais ao nosso lado.

A começar pelos experientes colegas de trabalho, liderados com equilíbrio e habilidade pelo colega Luis Antonio Guimarães Marrey, e que não medem esforços para cumprir os propósitos da missão e do lema da OEA, que é levar “mais direitos para mais pessoas”. 

É enorme o comprometimento de todos para melhorar a qualidade de vida do sofrido povo hondurenho, sempre cordial, acolhedor e esperançoso de um país melhor e mais justo. 

Nesta luta, para mim, todos têm importante contribuição. Destaco os amigos virtuais, os amigos mais presentes, os familiares em geral, e os meus queridos filhos em particular, todos sempre prontos para ajudar.

Porém nada seria possível se não fosse a parceria das minhas companheiras da linha de frente nesta desafiadora jornada.

É imensa gratidão a todos! 

Agora o jeito é aproveitar uns dias do Brasil e matar as saudades de tudo e de todos!

É preciso contemplar


Aqui na parte de cima do mapa é inverno e estamos numa época um pouco mais fria. Os dias começam mais fechados e ao longo do dia o sol se anima e traz o seu brilho.

Da janela do meu trabalho aprecio a beleza destas Primaveras, aqui chamadas de Buganbilias ou Veraneras. São belos quadros que fazem lembrar a nossa casa e as flores da roça. 

Vivemos cercados do mundo digital e muitas vezes perdemos contato com as plantas, com as cores e a contemplação. 

Quando não quero pensar nos problemas urbanos e no mundo dos homens, volto para a beleza destas plantas. 

De vez em quando um sopro de brisa balança as suas flores, mostrando que a vida existe, que ainda há flores e esperança de luz.