Sintomas de uma crise de civilização

Ao analisar com certa compaixão o caso do jovem universitário que postou um vídeo dizendo que ia votar armado e a “negraiada ia morrer” é possível concluir que ele não é causa, mas sim, sintoma, consequência, de uma sociedade com problemas.

Consequência da falta de uma educação para a alteridade, para a compreensão de que vivemos numa sociedade e o outro deve ser enxergado como parte de nós mesmos, pois somos no mínimo interligados pelo ar que respiramos.

É consequência das palavras de racismo, violência, homofobia e ódio, que têm sido espalhadas pelos quatro cantos, nos últimos tempos.

É consequência da normalização das fakes e mentiras, com a ampliação do engano e da cegueira.

É consequência de um Estado que deveria ser laico e manter a neutralidade religiosa, mas está se misturando à religião, despertando a intolerância entre os credos e os devotos.

É consequência de uma sociedade que se descuida do conhecimento e da cultura. Fechamos livrarias e abrimos farmácias!

É consequência da fragmentação do tecido social, do aumento do egoísmo e da competitividade, com a diminuição do olhar para o outro e para a vida fraterna.

Apesar do grande progresso científico da humanidade, estamos vivendo uma época moralmente regressiva. Neste contexto, pessoas que espalham o ódio e a violência não são causas, mas sintomas dessa crise de civilização.

Não dá para brincar com temas de Direitos Humanos

Um jovem estudante de Direito disse que ia votar armado e que a “negraiada ia morrer”.

Em razão das palavras se deu mal, muito mal. Depois de todas as besteiras que disse foi mandado embora da faculdade e do escritório onde trabalhava.

Lógico, afinal o mundo avançou contra o racismo e o preconceito.

Este exemplo mostra que todos os jovens, e aqueles que se preocupam com a imagem, precisam tomar cuidado. Na hora da emoção é fácil falar bobagens nas redes sociais, mas o que não se deve esquecer é que, tudo, absolutamente tudo, o que falamos nas redes são mensagens públicas e conhecidas.

Num mundo com cada vez mais raras oportunidades de trabalho, falar bobagens que atentem contra os direitos humanos significa ficar queimado e ter o seu nome comprometido, além de possíveis problemas na Justiça.

Dependendo da bobagem da publicação ou comentário, a pessoa pode ser contratada ou não no mercado de trabalho e ter problemas com promoções ou trocas de empregos. Pesquisas apontam que as escolhas para as contratações também são feitas levando em conta o que os candidatos publicam nas redes sociais. Se há dúvidas sobre isto é só fazer uma rápida pesquisa no Google.

Entre outras preocupações, há a questão da imagem da empresa ou organização. Num mundo civilizado ninguém quer contratar (ou manter empregado) um racista, homofóbico, “reaça”, machista ou violento.

Também nenhuma organização quer alguém que somente leia whattsapp e não respeite os direitos fundamentais.

Se a pessoa quer entrar na onda e se sentir “bacana” porque ousa falar contra os direitos humanos, tudo bem; mas é preciso tomar cuidado: o mundo não é mais o mesmo e numa simples brincadeira pode se dar muito mal.

Escola sem partido e o controle seletivo de ideias

Mal saiu o resultado das eleições e já temos vários movimentos de líderes e representantes populares institucionalizando ambiente de fiscalização, policiamento e denúncia em salas de aula.

O mais explícito foi da Deputada Estadual de Santa Catarina, Ana Caroline Campagnolo, eleita pelo PSL de Bolsonaro, incitando estudantes a filmar seus professores.
Vale lembrar que a Constituição Federal ainda está em vigor e prevê a liberdade de pensamento. Quaisquer tentativas de restrições serão energicamente repelidas por todas as forças democráticas deste país.

Talvez esta questão seja uma das prioridades para o Supremo Tribubal Federal, para refutar o controle seletivo de ideias, pois ninguém pode querer negar o livre pensamento.
A melhor manifestação sobre este movimento obscurantista foi feita hoje pelo talentoso colunista de “O Globo”, Bernardo Mello Franco:

“A campanha da deputada Ana Caroline Campagnolo lembra os tempos sombrios do macarthismo nos Estados Unidos. Ela estimulou os alunos a filmar e gravar eventuais críticas em sala de aula. ‘Descreva o nome do professor, o nome da escola e a cidade. Garantimos o anonimato dos denunciantes’, afirmou. Nos anos 1950, o senador Joseph McCarthy liderou uma feroz campanha anticomunista nos EUA. Artistas, intelectuais e professores foram investigados pelo FBI por suas ideias e opiniões políticas. O humorista Charles Chaplin foi uma das vítimas mais ilustres da caça às bruxas. Mais tarde, McCarthy perdeu o apoio da opinião pública e caiu no ostracismo.” (Globo)