Manual de Instruções para a Vida

Por esses dias numa conversa no aeroporto escutei a seguinte observação: “não há manual de instruções para a vida”. 

Não, não há manual para a vida! Na aventura da existência humana, viver se aprende vivendo. 

Muitas vezes esperamos um tipo de vida e é outra a vida que nos espera, diante de tantas imprevisibilidades. 

Aprendemos que é preciso aprender com os nossos erros, mas muitas vezes não aprendemos com os nossos erros e erramos novamente. Afinal somos humanos. 

Dizem que devemos nos arrepender mais das coisas que não fizemos, do que daquelas que fizemos. Ainda assim muitas vezes evitamos os desafios e preferimos o porto seguro.

Em muitas situações demoramos a aprender e quando aprendemos uma lição a fase de aplicação já passou. Nem sempre a experiência aprendida nos serve como guia; às vezes mais vale para a vida que poderia ter sido e não para a vida que se foi. 

O fato é que ninguém tem a vida resolvida; todos estão para resolvê-la, leve o tempo que for necessário. 

Viver implica em (re)inventar a vida a cada instante e isto a torna mais desafiadora. 

Contudo, mesmo sem um manual de instruções, a vida é bela e é melhor do que imaginamos!

Ideologia dos outros

Quando surgiu o nome do diretor do Instituto Ayrton Senna Mozart Neves Ramos como possível Ministro da Educação, os grupos de whattsapp aos quais sou ligado, de pessoas que trabalham na área da Educação, ficaram aliviados. 

Seria uma grande indicação, acima de posições ideológicas e políticas; um nome de consenso, respeitado por educadores de todas as tendências, incluindo os de esquerda, em razão do seu vasto conhecimento e experiência na área. 

Pois bem! Por claras pressões da bancada evangélica o nome de Mozart foi recusado. Segundo declarações do deputado Ronaldo Nogueira, no Estadão, Mozart tinha “um posicionamento ideológico totalmente diferente dos conceitos e princípios da bancada evangélica”.

Com os evangélicos em pé de guerra, o presidente eleito, recuou e nomeou para o Ministério da Educação o colombiano Ricardo Vélez Rodriguez, que possui bom currículo, mas não tem experiências em administração de políticas de educação. Chega focado ideologicamente no combate às tais “doutrinação marxista” e “ideologia de gênero” nas escolas.

Desta forma, o presidente eleito perdeu a chance de indicar um nome técnico e de pacificar uma questão crucial para o país, dada a importância do Ministério da Educação, e de toda resistência que virá à indicação de alguém sem experiência em políticas públicas de educação e limitado ao viés ideológico. 

É claro que todos nós, bolsonaristas ou não, torcemos para que o Brasil dê certo, pois estamos todos no mesmo barco e se o barco afundar, afundaremos juntos. Vão sobrar apenas os oportunistas de sempre. 

Mas uma coisa é certa: quando todos achavam que as coisas iam caminhar bem, com a nomeação de um nome técnico, lá veio a ideologia junto, impedindo-nos de acreditar num Brasil que deve ser para todos. Conclusão: o que não pode é a ideologia dos outros!

Compromisso com a Terra


Diante dos incêndios mais letais que já existiram na Califórnia, o governador daquele Estado, Jerry Brown, declarou que é preciso cuidar das florestas. 

Brown é um dos líderes americanos na luta contra as mudanças climáticas e pela preservação da vida no planeta. 

Há mais de 500 anos Copérnico descobriu que a Terra não é o centro do Universo e depois Galileu Galilei comprovou tal teoria. Ainda assim o homem acredita que pode dominar a natureza, comportando-se irresponsavelmente perante o nosso planeta.

Há que se dar credibilidade às grandes pesquisas científicas, feitas com árduos trabalhos. 

Que o apelo de Brown seja ouvido pelos governantes mundo afora, inclusive pelo novo Chanceler brasileiro, para quem “mudança climática é marxismo cultural”.

Foto: Casas destruídas na Califórnia, by Noah Berger/AP

Leitura e liberdade do ensino


Não precisamos de lei que controle a liberdade dos professores e do pensamento. Necessitamos é de “lei-tura”, para mais pensamento crítico, mais consciência coletiva e melhor compreensão do mundo em que vivemos e da Humanidade à qual pertencemos. 

Como observou Mário Vargas Llosa, “um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias”.

Um monumento à estupidez

Em lúcida entrevista ao UOL, em 13/11/2018, o Senador Cristóvam Buarque desabafou: “já se fez escola sem partido na União Soviética e na Alemanha nazista, por exemplo. Não deu certo. A gente tem de ter escola com todos os partidos, uma escola com pluralidade”.

Apesar de tantos problemas estruturais na Educação brasileira o tema Escola Sem Partido não sai das discussões oficiais. Perde-se o tempo com discussões morais e obscurantistas; muitos querem avançar na contramão da história. Escola sem partido é escola de um partido único, ou seja, do mesmo governo.

Hitler levou essas questões às últimas consequências, inclusive com a destruição de toda a literatura inconveniente ao regime. Em maio de 1933, montanhas de livros foram queimadas em praças públicas.

Mas a Alemanha, moderna e aberta, virou a página e se preocupa em manter presente a sua memória, com uma visão prospectiva, como único caminho em direção ao futuro civilizado.

Na Bebelplatz, em Berlim, foi colocado um monumento composto de livros gigantes, de autores importantes para a cultura alemã.

Eis um belo exemplo para a história jamais ser apagada! Um simbólico monumento contra a ignorância e a estupidez!

A vida é uma arte, como tudo

Por esses dias conversei com um motorista da missão e ele me falou que sempre aproveita cada detalhe que o espetáculo da vida lhe fornece. Entre outras coisas tem uma vida simples, curte a família, a natureza e adora ouvir boas músicas.

Segundo ele é preciso viver “contente com o coração” e explicou que mais vale paz de espírito do que as ambições que tiram o sossego. Disse que conhece pessoas que apenas “existem, não vivem”.

Fiquei pensando naquelas palavras e citei a ele o trecho de uma canção de Guilherme Arantes, cujo link lhe passei, e que nos convida a voltar os nossos olhos para as coisas que realmente importam na vida, afinal, a vida é uma arte, como tudo:

“Cuide-se bem…/Perigos há por toda a parte/E é bem delicado viver/De uma forma ou de outra/É uma arte, como tudo…”

“…prá nunca perder/Esse riso largo/E essa simpatia/Estampada no rosto…”

É preciso aperfeiçoar e não extinguir a Lei Rouanet

A Lei Rouanet, de 1991, tem sofrido críticas e recentes movimentos conservadores defendem a sua extinção.

Muitos são os equívocos dos ataques à lei de amparo à cultura, por vezes orientados pelo desconhecimento, pelas fakes news e pelas ideologias.

Muitos dos ataques à cultura vêm de um movimento anti-intelectualista que tem tomado conta do Brasil, com o repúdio ao conhecimento, à educação, à ciência, à cultura, à inteligência e às liberdades de forma geral. O chamado movimento Escola sem Partido é uma das vertentes expressivas desse cenário.

A Lei Rouanet pode ter problemas, mas também tem grandes méritos. Um bom exemplo citado pelo editorial foi a última edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), “que proporcionou arrecadação de impostos de R$ 4,7 milhões, valor que superou os R$ 3 milhões de isenção obtidos pelos patrocinadores do evento”.

A lei deve ser aperfeiçoada. O que não dá para é para extingui-la e acabar com os investimentos na Cultura, como se tem apregoado.

Como diz a música dos Titãs, “a gente não quer só comida”. A cultura é o maior patrimônio de uma sociedade e é ela que nos permite avançar, sempre, em direção ao conhecimento e às luzes.

A vida é curta e a noite é bela

Do apartamento de uma amiga vi a noite cair em Tegucigalpa. Ao longe a cidade brilhava, com uma pequena lua no horizonte.

Parei e fiquei olhando para o céu. Vi duas estrelas brilhantes; depois vieram outras.

Apreciei um pouco o encanto da noite, das estrelas e da vida. Vi o brilho da lua, que caia com delicadeza.

Tudo passa neste mundo, as alegrias, as tristezas; as ilusões e desilusões. Tudo passa…

Precisamos também voltar os nossos olhos para a noite e para as estrelas. É preciso enxergar o essencial, pois a vida é curta e a lua é bela.

E se o mundo fosse governado por mulheres?

Estávamos fazendo um trabalho conjunto numa das secretarias aqui em Honduras e em dado momento a Ministra veio nos saudar.

Conversamos um pouco e ela disse que na cúpula do setor trabalham tantas mulheres que elas costumam falar “nosotras, las mujeres”.

Eu disse a ela que é muito animador que as mulheres governem mais; não falei para fazer média, mas porque fielmente sempre acreditei nisto.

Apesar das mulheres serem sub-representadas na política, elas fazem muita diferença em todos os cantos do planeta onde estão mais presentes.

Recente estudo feito por Chandan Jha e Dudipta Sarangi, publicado no “Journal of Economic Behavior & Organization”, mostrou que a corrupção é menor onde mais mulheres participam dos governos. A análise envolveu mais de 125 países e concluiu que isto ocorre porque as mulheres formulam políticas públicas diferenciadas.

Além do mais, penso que as mulheres se preocupam muito com a vida futura, com a sustentabilidade, valorizam mais o diálogo, as negociações e entendem melhor das relações humanas.

Penso, ainda, que se fosse governado por mulheres o mundo teria mais ternura! 😉

Foto: Senadora australiana Larissa Waters amamenta seu bebê no Parlamento em Camberra: políticas escolhidas por mulheres contribuem para governos menos corruptos — Fonte: AAP/Mick Tsikas/via REUTERS

Tempo é vida

Estávamos conversando informalmente numa sala e um colega de missão observou:

– A vida passa rápido para quem trabalha muito.

Em seguida outro colega comentou:

– Sim, mas a vida passa mais rápido para quem sempre corre atrás do dinheiro.

Esse mesmo colega observou que aprendemos desde cedo que o tempo “vale ouro” e por isso sempre acreditamos que não podemos “perder” tempo. Para ele, essa é uma lógica que nos ensina que o dinheiro é a medida de todas as coisas.

Aproveitei essa conversa informal, mas quase filosófica, e fiz a observação de uma professora da minha adolescência, que com a sua sabedoria zen sempre repetia aos alunos:

“Tempo não é, e nem pode ser dinheiro; ao contrário, tempo é vida!”