Democracia à toda prova

Bolsonaro ganhou. Contra o discurso da corrupção e do antipetismo o povo escolheu alguém que teoricamente pode dar uma solução definitiva aos problemas do país, custe o que custar, mesmo que isso signifique graves riscos à democracia.

O Brasil já apostou outras vezes em caçadores de corruptos, como Jânio Quadros e Collor, e deu no que deu. Agora vamos provar novamente deste remédio amargo.

Nestas eleições tudo se limitou à dualidade antipetismo e bolsonarismo, ambos com os seus problemas e extremismos. As feridas estão abertas, o povo está dividido e o medo está presente. Mas o cansaço com a política tradicional também estava grande…

O giro à extrema direita pode ter sido radical demais. O ideal seria que as manobras da democracia, assim como as de um grande transatlântico, fossem mais vagarosas e graduais, num momento convergente de forças democráticas entre os extremos. A democracia é realmente dura e difícil! A nossa democracia é muito jovem…

Agora a tarefa de todos os democratas é resistir aos radicalismos propostos pelo vencedor. Este por sua vez necessita baixar a bola e mostrar que boa parte do seu discurso violento era retórica vazia, simplesmente para agradar ao seu fiel eleitorado.

As instituições deverão, como nunca, mostrar que estão consolidadas. O Ministério Público, a quem a Constituição confiou a defesa da sociedade e dos direitos humanos deverá mostrar a que veio. Teremos grandes testes!

Nós, defensores dos Direitos Humanos, ficaremos de olhos abertos e vamos lutar até o fim para a manutenção de tudo que a sociedade conquistou, para evitar retrocessos civilizatórios.

De qualquer forma, boa sorte ao Brasil!

Lucidez para votar

Ontem foi a festa das Nações Unidas na escola internacional onde a nossa filha estuda, aqui em Honduras.

Fizemos uma bela tenda brasileira, com bandeiras, cartazes, produtos do Brasil, poesias brasileiras traduzidas em inglês e espanhol, e muita música brasileira. Honrosamente também recebemos o embaixador brasileiro aqui em Honduras.

Eu ia fazer a publicação sobre este bonito momento da escola, com tendas coloridas de vários países. A nossa estava toda em verde e amarelo…

Mas confesso que desisti porque nos últimos dias tenho perdido o sono pelo medo do que possa acontecer com os brasileiros, diante de tantos discursos violentos, separatismos e ódio.

É triste esse momento em que o “verde e amarelo” também é usado para desunir os brasileiros.

Entre as várias poesias e canções brasileiras que expusemos no mural, estava a música Paz, de Gilberto Gil… A música fala de uma grande explosão e que a bomba sobre o Japão fez nascer o “Japão da paz”…. Que contradição: só o pesadelo da guerra fez o Japão da paz!

Que este momento de conflito, medo e violência que vivenciamos no Brasil possa levar à reflexão para um Brasil de mais harmonia, união e paz, em prol das futuras gerações.

Que os brasileiros tenham lucidez na hora de fazer a sua escolha democrática! PAZ E BEM!

O mais importante é manter-se humano

São tantas as mensagens negativas postadas ou compartilhadas nas redes sociais, muitas vezes por pessoas sensatas, que às vezes sentimos que estamos no Plistoceno, também chamada de Era do Gelo, que terminou há cerca de 10 mil anos.

Historicamente o Brasil sempre foi violento, sobretudo em momentos políticos, mas desde a Constituição de 88 estávamos mais civilizados e nunca chegamos a um nível de violência tão grande como agora.

Discursos de ódio, ofensas gratuitas, divulgações de mentiras, preconceitos, fanatismos, declarações explícitas de violência, apologias ao atraso, entre outras.

Sobram discursos de ódio e faltam argumentos sobre a reflexão, a solidariedade, a compaixão, a consciência, o futuro e os valores que queremos para uma sociedade civilizada.

George Orwell estava certo quando nos alertou, no clássico “1984”, que “o mais importante não é permanecer vivo, mas manter-se humano.”

Crise humanitária dos imigrantes hondurenhos

Aqui em Honduras estamos acompanhando a grande caravana de milhares de hondurenhos em direção aos EUA, numa jornada perigosa e cheia de dificuldades.

A pé, estão caminhando milhares de quilômetros, atravessando a Guatemala e o México, em destino ao sonho dourado de viver naquele país, para fugir da violência e da pobreza.

Há quem diga que há manipulação política por trás da marcha, mas o fato é que são seres humanos inocentes e indefesos, iludidos com falsas promessas de ingressar nos EUA e terem uma vida melhor. Tudo para nada, pois chegarão à fronteira dos EUA, serão detidos e deportados.

Estamos todos apreensivos e de dedos cruzados para uma boa solução do problema, pois é inevitável não pensar no sofrimento das pessoas que estão nestas jornadas.

As cenas com as crianças são profundamente tristes. Se pudesse faria uma magia para que voltassem para casa e ainda cantaria para elas, como cantiga de ninar, a música “Golden Slumbers” (Soneca preciosa), dos Beatles: “Certa vez havia um caminho para voltar para casa/Durma, querida, não chore/E eu lhe cantarei uma canção de ninar…”.😥

Fotos: AFP

 

Zona de desintoxicação digital

Ela fica em Londres, mas tem um nome espanhol: “Libreria”. Trata-se de uma livraria que tem uma interessante proposta: ela se autodeclarou como uma “zona de desintoxicação digital”.

Em seu interior não há internet e é proibido o uso de telefones móveis e tablets. Se o cliente não resistir, e for flagrado navegando na internet, educadamente será solicitado a parar.

A proposta é permitir ao leitor um pouco de descanso do dilúvio de distrações – e intoxicações – digitais a que somos submetidos a todo instante, para levá-lo às misteriosas viagens ao desconhecido, através da literatura.

Mais que isso: permitir que essas viagens sejam prazerosas, feitas aos poucos, sem a pressa da chegada, para que os visitantes apreciem os belos caminhos da literatura.

Política brasileira

Estou trabalhando e convivendo com colegas de vários países da América Latina e está difícil explicar o que está acontecendo com a política brasileira.

Muitas são as observações e perguntas: “como o país chegou nesta situação de extremos?”; “a democracia brasileira estava indo bem…”; “eleger candidatos autoritários é um risco, pois é difícil controlá-los depois”, e por aí vai.

Desanimado com os extremos que vivenciamos no Brasil, sempre faço algumas considerações sobre o nosso contexto político. Falo da polarização, do sentimento antipetista, do desencanto com a política tradicional, das manipulações através do Whatsapp, da violência política, das fábricas de mentiras e desinformações, etc, etc.

Outro dia, num evento internacional, um peruano me disse que em momentos de graves crises os países da América Latina gostam de “salvadores da pátria”. Em seguinda, ele concluiu com o provérbio inglês “não há nada tão ruim que não possa piorar”.

Conclui a conversa com ele citando uma frase de José Simão: “e isto porque Deus é brasileiro; imagine se não fosse!”

A valorização do professor

Na Grécia antiga “pedagogo” significava “aquele que conduz pelas mãos”; hoje, num sentido metafórico, continua a ser aquele que vai guiando e mediando em direção ao saber.

Muitos países desenvolvidos priorizaram amplos investimentos nos professores e a Finlândia é um bom exemplo. País pobre no início do Século XX, tornou-se desenvolvido graças aos seus esforços na área da educação, cujos índices de avaliação estão entre os melhores do mundo.

Tais transformações somente foram possíveis depois de um conjunto de políticas educacionais eficientes, mas a fórmula mágica para o sucesso da educação na Finlândia foi o investimento nos professores.

A começar pela boa formação, pois para ser professor naquele país é necessário graduação e mestrado na área educacional.

Depois, através de outras ações de valorização dos mestres, como baixo número de estudantes por professor, maior tempo para preparação de aulas; boas condições de trabalho; políticas de aperfeiçoamento do magistério; possibilidades de progressão na carreira; boa remuneração; autonomia para trabalhar o currículo, entre outros fatores.

Na Finlândia ser professor é o sonho de muitas crianças e jovens, em razão do enorme prestígio da profissão.

Nada mais visionário do que investir nos professores para o desenvolvimento de um país. Quem sabe um dia chegaremos lá?

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E.T.: Para quem quiser conhecer mais sobre a educação na Finlândia, e a razão de alguns países terem bons desempenhos educacionais, o livro
“As Crianças Mais Inteligentes do Mundo” (Editora Três Estrelas) dá um bom panorama sobre o tema.

Um exemplo de vida

Após 42 anos de trabalho como professor de literatura, o italiano Antonio La Cava se aposentou e decidiu difundir ainda mais a leitura entre as crianças.

Em 2003 comprou uma motocicleta e a modificou para criar uma biblioteca portátil, apelidada de “Bibliomotocarro”, com a qual vai até às crianças, em praças, jardins, esquinas e campos de futebol, em diversas cidades da Itália que não possuem bibliotecas.

Apesar da intolerância que rodeia os homens deste planeta, exemplos como estes mostram que há luzes no horizonte.

A educação e a literatura são grandes remédios contra o ódio e a ignorância, pois abrem a mente, despertam o homem para o mundo, para o diálogo e para a vida em sociedade.

Ausência de coalizão democrática

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No livro “Como as democracias morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (Ed. Zahar), logo no primeiro capítulo, chamado de “Alianças fatídicas”, os conceituados pesquisadores de Harvard observam: “… sempre que extremistas emergem como sérios competidores eleitorais, os partidos predominantes devem forjar uma frente única para derrotá-los…”

Não há dúvidas que os principais responsáveis pelo desastre político que estamos vivendo no Brasil são os próprios políticos, dos grandes partidos.

A classe política, mesmo sabendo que há muito tempo estava desacreditada, insistiu na velha política e na manutenção dos poderes e privilégios; não fez as reformas políticas necessárias e nem se preocupou com a formação de novos líderes.

Os desgastes e descréditos levaram aos extremismos destas eleições.

Como observam os autores do livro, para isolar “extremistas populares” há que se ter coragem política. Nestas eleições o ideal seria que os partidos verdadeiramente republicanos se unissem num nome gerador de coalizão e de consensos democráticos.

A grave omissão mostra que muitos dos nossos políticos falam em nome da sociedade, mas ainda cuidam mais dos seus interesses pessoais e partidários. Não se unem, nem nos momentos essenciais para o país.

Essa complacência com o radicalismo colocou o país em perigo. Estamos na iminência de um grande salto no escuro.

 

 

 

A um passo do abismo

Estou longe, mas venho acompanhando de perto a política no Brasil. O radicalismo e a intransigência a que chegamos nos levam a acreditar que estamos à beira do abismo.

A eleição para presidente virou um confronto dos rejeitados, pois aqueles que estão à frente nas pesquisas são também os mais indesejados.

Esta não será uma eleição de sonhos e esperanças, mas uma eleição do suposto voto útil, para se evitar o mal maior, numa luta do bem contra o mal, cada um achando que está do lado certo.

Para piorar, os cidadãos saíram das polêmicas das ideias e partiram para as polêmicas das pessoas, num enfraquecimento do poder do diálogo.

É claro que tudo faz parte da democracia, ainda bem! Mas são inegáveis os sentimentos de mal-estar e perplexidade com tudo de ruim que está ocorrendo no Brasil.

Sempre que chegamos a extremismos lembramos das lições de Aristóteles, de que toda virtude está no equilíbrio, no meio termo.

Só nos resta confiar que depois desta grande tempestade, que ainda deve durar anos, possamos novamente encontrar o equilíbrio de um Brasil com mais diálogo, mais esperanças, e com possibilidades de ser um país para todos.