Sentimento da grandeza do Brasil

A escola da nossa filha, onde estudam hondurenhos e estrangeiros, convidou os pais para montarem um pequeno estande sobre os seus respectivos países, no Dia das Nações Unidas, em outubro. A ideia é apresentar um pouco culturas e peculiaridades de cada país.

Topamos na hora e ficamos felizes pela oportunidade de apresentar o Brasil. Quando estamos fora do país ficamos mais nacionalistas. Viajar ou morar no exterior nos faz ver melhor tudo o que temos de bom e não valorizamos como deveríamos.

Claro que gostaríamos de um país mais justo, menos desigual, com políticos mais sérios e que tivesse o básico para que todos vivessem com o mínimo de qualidade, como saúde, educação, moradia, etc.

Mas não há dúvidas que temos motivos de sobra para ter orgulho do Brasil, pelo que somos e podemos ser.

O nosso país é maravilhoso e quando estamos fora temos o verdadeiro sentimento da grandeza do “meu Brasil Brasileiro”! Seria bom que sempre tivéssemos este sentimento.

Um sabor de infância

Quando estamos em outro país sentimos a falta de muitas coisas da nossa terra, entre outras, das pessoas queridas, dos produtos brasileiros, da nossa zona de conforto e das comidas gostosas.

Em relação às comidas, nem precisa ser algo sofisticado, mas coisas simples, como um pão francês, um pão de queijo, uma goiabada ou um doce de leite cremoso.
Há alguns dias fiquei com vontade de comer pamonha. Fui criado na roça, perto dos milharais, e tenho agradáveis lembranças dos momentos em que juntávamos um grupo de pessoas para fazer pamonha.

Acho que a vontade veio porque aqui em Honduras a todo o momento presenciamos o milho na alimentação. O milho foi a base alimentar dos povos indígenas de toda a América Central e é um prato sempre presente nas mesas, através das tortilhas.

Por conta do desejo, desde que cheguei estava na esperança de achar pamonha para comer. Nada de procurar, mas fiquei de olho… até que as encontrei! Comprei logo cinco pamonhas doces, aqui chamadas de “tomalitos”. Foi uma delícia saboreá-las, bem devagar, com um sabor de infância e do Brasil!

Nesses momentos as boas sensações da vida se voltam para o paladar e para um jeito mais doce de viver; não que as coisas para a humanidade estejam doces, mas às vezes a nossa alma precisa das coisas simples e das gostosuras da vida.

Os sonhos não envelhecem

Ao arrumar os meus arquivos tomei contato com uma oficina que preparei há alguns anos para jovens de uma escola pública.

Na ocasião, para reflexão e debate, coletei algumas frases dos protestos dos estudantes, em maio de 1968, em Paris. São frases interessantes e que retratam a utopia daquele momento. À época os  estudantes pixavam os muros e paredes com vários mandamentos.

Eis algumas dessas frases, que são profundas: “Eu decreto o estado de felicidade permanente”; “É proibido proibir”; “A floresta precede o homem, o deserto o acompanha”; “Abaixo a sociedade de consumo”; “O Estado é cada um de nós”; “Amem-se uns aos outros”; “Tome meus desejos como realidade, porque eu acredito na realidade dos meus desejos”; “As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes…”, “Abram as janelas do seu coração”, entre outras.

Naqueles tempos os jovens acreditavam mais na transformação social através da política e possuíam mais sonhos coletivos, com aspirações de liberdade, fraternidade e espírito comunitário.

A impressão que dá é que a humanidade ficou mais egoísta.

O alívio que nos resta é que a história é um constante fluxo e refluxo, com avanços e retrocessos e um contínuo vaivém das aspirações humanas, através de movimentos pendulares.

A única certeza, como diz a bela canção, é que”os sonhos não envelhecem”!

Necessitamos de mais diálogo

Os acontecimentos brasileiros desta semana foram preocupantes e ganharam notícias mundo afora.

Para a nossa desolação, de um lado tivemos o incêndio no Museu Nacional, uma grande perda para a humanidade; de outro, o atentado contra o candidato Bolsonaro, fato lamentável e que contribui para enfraquecer a nossa débil democracia.

O filósofo Pascal (1623/1662) disse nos seus “Pensamentos” que o homem é um amontoado de misérias e grandezas. “Misérias” porque quer ser grande, mas traz consigo consigo todas as fraquezas e vicissitudes da condição humana; “grandezas” porque, diferentemente dos outros animais, tem a capacidade de pensar.

Para sobrevivermos nestes tempos difíceis precisamos escolher o caminho a seguir: da miséria ou da grandeza. O primeiro nos levará de volta para a barbárie e a violência; o segundo nos apontará um caminho de nação, de fortalecimento da democracia e da certeza de que um país dividido não forma um país inteiro.

Não há dúvidas que somente nos resta o último caminho e ele depende de todos nós. Para segui-lo precisamos do diálogo e não podemos transformar medos em ódios. É preciso lembrar sempre das práticas inspiradoras de grandes líderes do diálogo, como Gandhi, Luter King e Mandela.

Como disse outro filósofo, Edgar Morin, “se queremos um mundo melhor, devemos ser melhores no mundo”.

Alento nas palavras de um escritor

A semana começou bem triste com o incêndio do Museu Nacional, ocorrência que chocou o mundo.

Mesmo aqui fora do país este foi o assunto recorrente entre todos. É difícil lidar com perdas tão grandes para a humanidade.

Nesta horas ficamos imaginando os responsáveis e facilmente chegamos à conclusão que, governo após governo, todos de uma forma ou outra são cúmplices da tragédia.

Confesso que o único alento do dia foi saber sobre o aniversário de Eduardo Galeano, o escritor das “palavras andantes” e lembrar-me das suas utopias. Aproveitei para lê-lo um pouco, entre os meus livros eletrônicos, depois de um dia de trabalho. Queria respirar um pouco de esperança.

Com a magia das palavras ele nos ensinou a olhar para o futuro, a recobrar a coragem para viver e enfrentar de cabeça erguida esse mundo de inconstâncias.

Encontrei, entre outros, esses versos, consagrados em “O Livro dos Abraços”: “Dos nossos medos nascem as nossas coragens, e em nossas dúvidas, vivem as nossas certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível, e os delírios outra razão. Nos descaminhos esperam-nos surpresas, porque é preciso perder-se para voltar a encontrar-se”.

 

Tragédia anunciada

O incêndio no Museu Nacional, o mais antigo do Brasil, é, ou deveria ser, uma verdadeira tragédia nacional.

Não é dessas que nos pegam de surpresa, pois estamos acostumados com o descaso, com o abandono e com a falta de memória em nossos museus e nas nossas vidas.

Desprezamos a história e nos acostumamos com o esquecimento, com o abandono e com tudo aquilo que foi ou é importante para a sociedade, como a evolução, a memória, os valores e o conhecimento.

Enquanto isso, deixamos de lado a nossa civilização e aos poucos avançamos na barbárie. Aceitamos, como se fossem normais, os discursos antidemocráticos, racistas, homofóbicos, machistas e obscurantistas.

Toleramos a destruição da nossa história, dos avanços e conquistas do passado. Presenciamos o aplauso ao Thanatos, ou seja, à destruição, à dispersão e à morte, ao invés do enaltecimento ao Eros, que é o amor, a comunhão e a vida.

Por tolerar todas as coisas, inclusive aquelas que não deveríamos, aprendemos a aceitar tudo como se fosse normal. Mas não é!

A nossa ideia de civilização precisará ser refundada e reconstruída. De nada adianta a imensidão do conhecimento, da inteligência artificial e dos astrofísicos, se continuarmos afundando no abismo da nossa ignorância.