No metrô

O casal namorava, apaixonadamente, num canto do vagão do metrô. Beijos frenéticos na boca, no rosto, lambidas no pescoço e, de vez em quando, o rapaz dava um beijo estalado nas orelhas da moça. As mãos apalpavam apressadamente o corpo um do outro. Estavam indiferentes a tudo e a todos.

Um incômodo silêncio tomou conta daquele lado do vagão. Discretamente comecei a olhar as pessoas: algumas estavam curiosas, outras um tanto assustadas; tinha gente escandalizada com a cena e uma senhora mais recatada até se benzeu.

Em dado momento alguém comentou alto, no meio das pessoas: “é preciso respeito! Estamos num local público!” Foi o suficiente para que todos começassem a murmurar diversas palavras de indignação e o casal desacelerou o faminto ritmo dos beijos, apertos e leves gemidos.

Para meu alívio, logo chegou o meu ponto de parada. Eu tinha um certo temor de que o casal avançasse para além daqueles beijos, carícias e amassos, o que geraria um constrangimento geral e uma enorme confusão.

Não sei no que deu. Sai do metrô um pouco encabulado, lembrei-me dos versos de Camões “o amor é fogo que arde sem se ver” e depois pensei alto: “viva a paixão e o amor!”.

O segredo da juventude

Fui à farmácia comprar um medicamento e na hora de fechar a compra o vendedor quis me empurrar uma vitamina de “a” a “z”, lembrando-me que com a idade é bom tomar um suplemento vitamínico.

Agradeci, dispensei a sugestão, e brinquei que consigo ficar indiferente à passagem do tempo. O vendedor, com razão, disse que isso é “impossível”.

Esta passagem me fez lembrar de uma história que certa vez li sobre Churchill, quando lhe perguntaram qual era o segredo da sua juventude, já que era muito ativo e jovial.

O estadista sorriu, soprou feliz a fumaça do seu charuto, e disse que a receita era simples: é preciso permanecer indiferente à passagem do tempo! Depois concluiu dizendo que ele pensava, trabalhava e atuava como se o tempo não existisse.

Eis um conselho fácil de dar e difícil de ser seguido.

De qualquer forma, vale a dica do estadista, pois Churchill morreu com 90 anos, e ainda gostava de charutos e de uma boa dose de whisky.

 

Virar a página, devagarinho

Cheguei num café e fui atendido por uma jovem moça, de uns vinte e poucos anos de idade. Parecia um pouco triste. Iniciamos conversa e ela me contou que está iludida com um grande amor. Tivemos um breve diálogo:

– Sabe, eu me casei muito cedo, o casamento foi difícil pra caramba e o meu marido me abandonou; faz dois anos, mas tenho plena fé que um dia voltaremos a ficar juntos.

– Moça, não é bom esperar por um amanhã incerto, que pode não chegar. Apenas Penélope, na mitologia, ficou muito tempo esperando por Ulisses, sem se cansar. Você deve virar a página e arrumar outro amor!

– É, mas eu confio no amanhã e acho que ele ainda vai voltar. O meu coração está esperando. E se tiver que virar a página, vou virar devagarinho.

– Sim, mas aí você vai sofrer devagarinho e é melhor sofrer de vez só, você não acha?

Então ela insistiu e falou: “Olha só a última mensagem que eu mandei, já faz tempo, no whatts dele; é um verso de Mário Quintana”.

Em seguida me mostrou o smartphone e então pude ler: “Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho”.

Até o meu coração ficou apertado com a situação. Então eu disse: “a vida é feita de escolhas, mas você tem o meu apoio.”